Friday, July 29, 2005

Durante a noite

Aquela era a pior hora da noite. Uma certa hora em que acordava ainda meio sonhando, inundada de pensamentos estranhos. Não conseguia se concentrar em um só deles e as preocupações que ela tentava enterrar no dia-a-dia iam se sucedendo de forma ilógica. Os medos dos quais ela se escondia e fingia bem-resolvidos ressurgiam do subconsciente para lhe atacar nessa tão frágil hora. Todos dormiam e isso só fazia aumentar a solidão que então lhe acometia.
Era visitada por um estado de desespero latente e rolava na cama, fechando os olhos numa tentativa vã de voltar ao sono. Porém, era apenas uma questão de pálpebras se encontrarem para ela se deparar com o rosto de uma paixão não esquecida e que ainda lhe trazia tanto sofrimento. Então abria os olhos vagarosamente, devido à mente ainda lenta, querendo expulsar aquela figura invasora. Mas o rosto persistia, e, se não persistia, era substituído por situações que lhe atemorizavam. Tais situações variavam de acontecimentos que tomariam a primeira página do jornal a eventos banais e infantis, que, todavia, poderiam arrancar-lhe justas lágrimas. Os medos vinham à tona e ela se encolhia cada vez mais na cama, buscando a posição fetal. Sentia-se desprotegida e pensava se algum dia ia se aventurar novamente fora do próprio quarto. Quando já estava cansada da luta, o sono vinha. Dormia.
Tal hora escolhia suas noites ao acaso. Ela despertava somente no dia seguinte não muito descansada, mas inteira e sempre com a mesma falsa impressão de invencibilidade. Contudo, nessa noite em particular, ocorreu-lhe algo inusitado. Acordou antes da hora com a sensação de haver algo fora do lugar. Estranho. Ali estava ela em sua cama e no seu quarto. A mesma fronha e o mesmo travesseiro. Estava desperta. Desperta dentro de um sonho! Ficou agitada. Acordou. Apenas para descobrir que ainda estava sonhando. Ainda estava sonhando! Acudiram-lhe idéias desesperadoras. Pedia o seu mundo de volta. Acordou de novo. Não, ainda não havia acordado. Sentiu-se perdida e insegura. Pensou que talvez nunca mais saísse daquele estado. Acordou de novo, e de novo foi enganada. Apenas acordava dentro do sonho, enquanto buscava a realidade, fosse ela doce ou amarga. Imaginou se algum dia poderia distinguir sonho de realidade novamente. Queria abrir os olhos, simplesmente abrir os olhos.
Acordou, mas dessa vez sentindo um vento frio no rosto. Então fora apenas um pesadelo. Colocou os pés no chão de mármore. Nunca havia se sentido tão feliz por ter aquela sensação fria na planta dos pés. Caminhou até a janela e antes de fechá-la ainda deixou o olhar sem foco se perder nos pontos que brilhavam distantes no céu. Receosa, ela se perguntava se era seguro voltar a dormir.

Wednesday, July 27, 2005

Insatisfação

Pegou o jornal com um ar romântico de quem tinha acabado de acordar com a música Eu sei que vou te amar. Mas parece que o mundo estava sintonizado em outra rádio, pois nem a secretária de sorriso fácil tinha lhe sorrido naquela manhã. Dirigiu-se automaticamente à sua sala. Leu as notícias de um modo meio displicente. Pensou que talvez nem reparasse caso houvesse pegado o jornal do dia anterior.
Afinal, tudo não se repetia? Há quanto tempo parecia que ele estava lendo as mesmas novidades? Colocou todas as folhas em cima da mesa, inclusive as de esporte. Aproximou-se da janela como fazia todos os dias quando tinha de pensar na resolução de algum problema. Dessa vez ele realmente viu aquilo que chamava de paisagem. Os carros passavam, as pessoas passavam e as folhas das árvores brincavam. Como todo bom ser humano faz de vez em quando, imaginou para onde iam e de onde vinham. O mundo era grande.
Voltou-se para dentro. E ali? Ele tinha chegado ali. Não podia reclamar e não reclamava. Vivia a vida que queria e que sempre quis viver. Todo dia chegava em casa e ainda beijava a esposa nos lábios. Cuidava dos filhos, que o consideravam um bom pai. Sentou-se novamente e pegou os jornais. Algum estagiário entrou avisando alguma coisa. A secretária, que agora já sorria, recordou-lhe das reuniões ao longo do dia. Um dia costumeiro. Não que ele não gostasse de dias costumeiros.

Estava satisfeito. Porém, algo incomodava. Foi a música do rádio? Eu sei que vou te amar por toda a minha vida. As juras de amor no casamento. Ela estava linda, de véu e grinalda e olhos cujas lágrimas terminavam nos dentes brancos da boca alegre. O casamento não fora tudo o que esperava, mas não sabia se seria certo reclamar. Pai, traz uma caixa de bombons? Logo encontrou o olhar da esposa que reprovava o pedido. Mas a menininha já sabia que se pedisse daquela maneira, o pai não resistiria. Desistiu de ler o jornal. O que faltava?

Pois a vida era feliz e completa. Estava se conformando ou apenas reconhecendo sua felicidade? Tentou afastar esses pensamentos da cabeça e começou mais um dia de trabalho sem dar lugar a essas preocupações. Duvidou um pouco ainda para depois fazer uma escolha que se faz quando a questão é um mistério. Fez uma aposta contra a insatisfação, vista por ele como uma doença sem vacina incrustada nos genes humanos. Não havia parado de buscar por cansaço. Havia encontrado. A vida continuava, mas agora iam de mãos dadas. Passou, então, a imaginar onde compraria a caixa de bombons na volta para casa, esquecendo-se daquilo que o havia levado até ali.

Foi para ser

Foi o vento que me mostrou que eu não vivia num filme, afinal meu cabelo se atrapalhava quando ele vinha. Foi o sol que me contou que há se ter cautela ao encarar algumas coisas de frente: muita claridade podia me impedir de enxergar. Foi a terra que me confidenciou que estava ali não para me fazer cair, mas para me segurar. Foi a água que me ensinou que eu não preciso estar no ar para ter a sensação de voar. Foram as palavras intraduzíveis que me impuseram um abraço como a única condição de me expressar. Foi minha voz rouca ao falar com ele que me mostrou o que era paixão. Foi meu sorriso ao vê-lo feliz que me mostrou o que era amor. Foi a filosofia que me alertou que na dúvida eu encontraria libertação. Foi o gostar de mim mesma que me silenciou por dentro e me conduziu à paz. Foi a chuva que matou minha sede. Foi minha timidez que me fez sentir e rejeitar a injustiça. Foi o egoísmo que me deu aulas sobre o respeito. Foram os meus pais que me provaram que existe a entrega. Foram os acasos que despertaram meu encanto com o mundo. Foram meus bons e maus amigos que me fizeram descobrir o que é amizade. Foram as decisões que me fizeram crescer e me disseram o que era isso. Foram as bocas que tanto falavam que estimularam essa busca por liberdade. Foi querer ser uma pessoa melhor que me fez feliz. Foi o medo que me disse que a coragem não existe. Foi a coragem que me fez pular a ponte caída entre o querer e o tentar. Foi a irreverência que me atraiu por mostrar o que é ter poder mesmo sem ter poder. Foi olhando nos olhos que eu aprendi a conversar. Foi o tempo que me mostrou que eu não era boazinha. Foram as lembranças que provaram a existência do tempo. Foi a distância que provou a existência do espaço. Foi a saudade que provou a existência do meu afeto. Foi o ócio que me mostrou que há formas de entretenimento que matam o pouco que temos de experiência nesse mundo. Foi o trabalho que me fez ver o quanto era importante o ócio. Foram os extremos que me fizeram procurar o equilíbrio. Foi com muito equilíbrio que senti a necessidade dos extremos. Foi convivendo com as pessoas que aprendi a ser mais humilde. Foi convivendo com algumas pessoas que me fiz mais arrogante. Foi escrevendo isso aqui que me perguntei se eu ainda tento passar a imagem do que eu não sou. Foi o teatro que me ensinou o que era encenação na vida real. Foram os sentimentos que me ensinaram o que era arte. Foram as inúmeras pessoas incríveis que passaram pela minha vida que despertaram a minha eterna gratidão. Foi o sentimento de gratidão que se apresentou para mim inúmeras vezes para descrever minha atitude em relação à vida. Foi a tentativa de dar coerência ao que eu penso que me desesperou tantas vezes. Foi o impulso o motivo de tantas alegrias e arrependimentos na minha vida. Foi a lua que me fez sonhar com a imensidão do espaço. Foi a imensidão do espaço que me fez sentir grande. Foram tantas coisas que ainda são e constituem esse meu ser.

Efeito Dominó

Ele quis fazer uma surpresa para a namorada. Entrou na loja e comprou um bombom. Como sempre, a secretária do prédio do lado, ao sair do trabalho, foi comprar chocolate. Acabamos de vender o último, disseram. Então saiu em direção ao supermercado. Foi assaltada no caminho. O velhinho, vítima preferencial, passou por eles sem se dar conta. Com o dinheiro da aposentadoria no bolso, entrou na padaria. Comprou os pães. Sorriu para a menina do caixa ao pagar. Ela sorriu de volta. O homem que comprava leite se apaixonou pelo sorriso dela. O olhar dele caiu no radar de sua mulher e foi a gota d’água de um mau casamento de dois anos. No caminho para casa, ambos perturbados, nem viram o sinal se fechar. Batidas atrás de batidas. Congestionamento. O menininho dentro do ônibus, que voltava sozinho para casa pela primeira vez, estranhou a demora. Começou a chorar. A mulher ao lado procurou acalmá-lo. Tinha um olhar saudoso de mãe de filhos já crescidos. A namorada, em pé, na frente dos dois, era órfã desde que podia se lembrar. Sentiu-se sozinha no mundo. Mas o sentimento durou pouco, pois, ao chegar em casa, ele a estava esperando na porta com um jeito tranqüilo e um bombom nas mãos.

Saturday, July 23, 2005

Carpe diem

Procrastinação. Esse era seu pecado. Deixava para começar tudo no dia seguinte. Não era medo, não era preguiça ou insegurança. Gostava simplesmente de ir levando a vida. Só fazia ela se desenvolver na sua cabeça. Lá as coisas aconteciam. Protagonizava romances, novelas, dramas. Já havia salvado o mundo duas vezes. Imaginava como seria um grande profissional assim que começasse a batalhar. Sonhava com o dia em que levantaria da cama e seria simplesmente feliz.
Pogramava mil viagens, mas adiava, adiava e adiava. Quando tiver mais dinheiro! Quando tiver mais tempo! Quem sabe nas próximas férias, quando eu não estiver tão cansado? Mas a verdade é que adorava simplesmente programar. Para isso estava sempre disposto.
Perguntavam-lhe as novidades e a resposta era sempre a mesma negativa. Perguntavam-lhe o que ele tinha feito no feriado, no final de semana, no dia anterior e uma resposta se repetia: nada de mais. Quando percebeu isso, começou a preocupar-se. Vasculhou sua vida e ficou decepcionado. Afinal, admitiu que aquilo que estava vivendo era um problema e não a vida. Vivia na mente e não no mundo. Vivia sempre a vida que ainda viria.
Com um pouco de desconfiança, procurou uma solução. Percebeu que contava um amanhã muito incerto, podia ser que um dia ele falhasse. Leu vários livros de auto-ajuda e resolveu viver no hoje. Prorrogou a tomada de atitude por mais uma semana, até que, seguindo os conselhos de um dos livros, resolveu escrever no espelho: Amanhã?
A princípio, funcionou muito bem. Comprava presente para os amigos, elogiava, declarava amores e desamores. Lutava pelo que achava certo. Ficava calmo diante dos pequenos problemas, pois estes não eram bons o suficiente para perturbar o seu dia de hoje. Logo constatou que a vida assim vivida requeria um grande ânimo e motivação. Descobriu que era exatamente isso que buscava naqueles dias anteriores em que ficava observando a vida passar, inclusive a dos outros. Tentava achar na imensidão do mar de acontecimentos a razão de ser de tanta água. Naqueles dias, esperava por um empurrão inicial.
Parou. Não mais. A vida do jeito que vivia antes não valia a pena ser vivida. A vida que vivia agora era simplesmente falsa, posto que não combinava com seu ser. Algo ainda lhe faltava. Acordou mais um dia e leu no espelho: amanhã? Não. Hoje mesmo ele acabaria com aquela existência sem merecimento. Hoje mesmo. Leu de novo: amanhã? Hesitou. Sim. Deixaria para amanhã. Ou talvez para depois de amanhã. Porque quem sabe amanhã ele não esbarraria com o que buscava no caminho da floricultura. Ou da padaria. Enquanto isso ele ia vivendo, dando o máximo de si para que as esperanças do hoje se concretizassem no amanhã.

Saturday, July 02, 2005

O ano 2000

Quando é que acontece, eu não sei. Mas acontece. De repente, a vida que se apresenta como uma sucessão de acontecimentos e planos tão demorados, momentos tão inesquecíveis, dores tão inexoráveis, simplesmente passa. A gente, então, tem a impressão de que foi tudo muito rápido. Às vezes, até mesmo de que nada mudou. Doce ilusão, é só cavar um pouco mais fundo para poder achar um passado denso e em constante ebulição. Mas o que é que dá na gente outros dias em que estamos tão envolvidos no nosso presente e no nosso ser que pensamos que o futuro nunca vai vir? O que faz a gente acreditar que nossas rotinas e que o nosso tempo e espaço continuarão os mesmos?

Digo isso porque quando era criança, duvidava muito que o ano dois mil fosse chegar. E se algum dia fosse chegar, ia demorar muito! Eu costumava ir a um clube e lá eles diziam que havia um projeto de construção de um novo parque aquático no ano dois mil. Isso era motivo de riso entre meus irmãos e primos. Achávamos graça daquela tentativa conspiratória dos empresários do clube de nos enganar. Afinal, o ano dois mil era o ano das coisas impossíveis. Dizíamos felizes nos jogos de totó ou mesmo de vôlei: “Você só ganha de mim no ano dois mil”. Crianças têm certeza de que vão ser criança para sempre. O que você vai ser quando você crescer? A resposta é um sonho.

Mas não foi que o ano dois mil chegou? Contra todas as minhas expectativas da infância. Chegou e quando assim o fez eu já nem lembrava mais do seu caráter de sacralidade. A não ser pelas previsões apocalípticas, ele passou como mais um ano novo. Só mais tarde, quando voltamos ao clube aquático, numa conversa sem rumo com a minha irmã, foi que recordamos daquela época e admiramos com naturalidade nossa inocência. Não me deixo enganar, eu sei que essa inocência do presente eterno vai e volta, como num movimento dialético. Não poderia ser diferente.

Deve ser claro que a consciência da vida que não pára e dos dias que chegam e passam não veio pela primeira vez nesse dia, mas muito antes. Já me sobressaltou algumas vezes em períodos turbulentos, nos quais eu rezava para que o tempo parasse. Hoje não me ocorrem essas bobeiras. A vida segue e tem que seguir. Caso contrário, não seria vida.

E agora? O tempo que passou parece curto e, no entanto, minha infância parece longe. Sou obrigada a dizer que não me vejo adulta de maneira alguma. Mal posso acreditar nos meus dezenove anos. Até acho que deveria ter uma postura mais madura e não consigo. Digressões à parte, só acredito que sou adulta quando olho para dentro e admiro e amo a criança que fui. Quando conheço essa criança é que acredito que o ano dois mil pode chegar. Quando conheço a criança que fui é que percebo que não preciso temer o ano dois mil, pois quando ele chegar ele já pode nem ter mais o significado que tem agora.

Termino este texto sem saber exatamente sobre o que escrevi, pois me parece que escrevi sobre uma miscelânea de sensações e sentimentos. Um deles, que vem me acometendo esses dias, é que toda essa história de tempo não faz sentido algum. Mas delego isso aos físicos. Fico por aqui e deixo parte da música que considero a trilha sonora da minha infância: “Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená/ Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar/ Basta imaginar e ele está partindo, sereno e lindo/ e se a gente quiser ele vai pousar”.

Do filme: The English Patient

My darling, I am waiting for you. How long is a day in the dark? Or a week? The fire is gone now and I am cold, horribly cold. I really ought to drag myself outside, but then there'd be the sun. I am afraid I waste the light on paintings and on writing these words. We die. We die rich with lovers, and tribes. Tastes we have swallowed. Bodies we have entered, and swum up like rivers. Fears we have hidden in, like this wretched cave. I want all this marked on my body. We're the real countries, not the boundaries drawn on maps and the names of powerful men. I know you'll come and carry me out into the palace of winds. That's all I wanted: to walk in such a place with you, with friends, an earth without maps. The lamp's gone out and I am writing in the darkness.