Insatisfação
Pegou o jornal com um ar romântico de quem tinha acabado de acordar com a música Eu sei que vou te amar. Mas parece que o mundo estava sintonizado em outra rádio, pois nem a secretária de sorriso fácil tinha lhe sorrido naquela manhã. Dirigiu-se automaticamente à sua sala. Leu as notícias de um modo meio displicente. Pensou que talvez nem reparasse caso houvesse pegado o jornal do dia anterior. Afinal, tudo não se repetia? Há quanto tempo parecia que ele estava lendo as mesmas novidades? Colocou todas as folhas em cima da mesa, inclusive as de esporte. Aproximou-se da janela como fazia todos os dias quando tinha de pensar na resolução de algum problema. Dessa vez ele realmente viu aquilo que chamava de paisagem. Os carros passavam, as pessoas passavam e as folhas das árvores brincavam. Como todo bom ser humano faz de vez em quando, imaginou para onde iam e de onde vinham. O mundo era grande. Voltou-se para dentro. E ali? Ele tinha chegado ali. Não podia reclamar e não reclamava. Vivia a vida que queria e que sempre quis viver. Todo dia chegava em casa e ainda beijava a esposa nos lábios. Cuidava dos filhos, que o consideravam um bom pai. Sentou-se novamente e pegou os jornais. Algum estagiário entrou avisando alguma coisa. A secretária, que agora já sorria, recordou-lhe das reuniões ao longo do dia. Um dia costumeiro. Não que ele não gostasse de dias costumeiros.
Estava satisfeito. Porém, algo incomodava. Foi a música do rádio? Eu sei que vou te amar por toda a minha vida. As juras de amor no casamento. Ela estava linda, de véu e grinalda e olhos cujas lágrimas terminavam nos dentes brancos da boca alegre. O casamento não fora tudo o que esperava, mas não sabia se seria certo reclamar. Pai, traz uma caixa de bombons? Logo encontrou o olhar da esposa que reprovava o pedido. Mas a menininha já sabia que se pedisse daquela maneira, o pai não resistiria. Desistiu de ler o jornal. O que faltava?
Pois a vida era feliz e completa. Estava se conformando ou apenas reconhecendo sua felicidade? Tentou afastar esses pensamentos da cabeça e começou mais um dia de trabalho sem dar lugar a essas preocupações. Duvidou um pouco ainda para depois fazer uma escolha que se faz quando a questão é um mistério. Fez uma aposta contra a insatisfação, vista por ele como uma doença sem vacina incrustada nos genes humanos. Não havia parado de buscar por cansaço. Havia encontrado. A vida continuava, mas agora iam de mãos dadas. Passou, então, a imaginar onde compraria a caixa de bombons na volta para casa, esquecendo-se daquilo que o havia levado até ali.

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