Há dias
Em que eu fico assim. Quieta. Passam os minutos, passa o tempo, gira o mundo. Há dias em que bate essa saudade, essa estática. Deve ser o mundo que parece grande demais. Gira forte, persistente e não cede nunca. Não consigo dar um passo. Como eu conseguiria diante dessas forças tão grandes e tão maiores que eu? Talvez meu papel esteja ficando difícil demais de representar. Não quero mais ser forte. Não consigo dar um passo. Quero engatinhar. Deixa-me mostra minha natureza frágil, meu sorriso submisso e minha postura mediana. Não quero ser mais do que sou. Não nesses dias. Há dias, esses dias, em que eu quero colo, quero um abraço e não quero mais lutar. Deixa pra salvar as baleias amanhã, hoje eu quero simplesmente ser e estar. Eu peço que venha o vento, juro que me deixarei levar. Se este texto está muito confuso, desculpe, pela clareza não vou me esforçar. Vou me deitar junto à terra para poder germinar. Que as palavras venham até a mim, eu é que não vou buscar. E se o texto está rimando como uma poesia, é a inércia que vem me atrapalhar. E ainda, se você está chamando isso de preguiça, minha essência medíocre me impele a discordar. Mas hoje não, não nesses dias. Não quero nem argumentar.
Trajeto
Ir ao supermercado. Comprar leite e pão. Que bom, tem promoção. Mas ele me sorriu daquele jeito! Será possível? Não. Foi só um sorriso. Mudaram de prateleira. E eu fiquei muda. Muda. Nossa, já são seis horas. Nenhuma fila! Simpática a moça do caixa. Incrível, mesmo com um trabalho tão tedioso. Ah, o ônibus lotado de novo. Lá vou eu pendurada que nem um morcego! Por que eu não sorri de volta? Só contrair uns músculos daqui e dali. Tão simples. Abram as janelas! Ah, já vou descer mesmo. Foi nos meus olhos sim. Por que ninguém me dá licença? Ninguém vê que eu preciso descer? E esse vento frio, o inverno está chegando. Ele tinha mesmo que me olhar nos olhos? Fiquei lá. Parada. Será que ele percebeu? Cartas? Não. Propaganda. Ele percebeu. Quatrocentos e um, quatrocentos e dois... Ah, que bom tirar os sapatos. Chão gelado. Será que ele viu quando eu baixei os olhos? Que bom que consertaram o chuveiro. Ele viu. Mas o que eu podia fazer? Tava tão na cara. Lembrar de comprar xampu e emagrecer dois quilos. Espelho embaçado. O pijama verde está limpo. Então a faxineira veio hoje. Será que eu vou ver ele amanhã? Hum, quinta-feira. Amanhã tem prova. Não pode ser. Página cinco... Quanto tempo um carro a vinte metros por segundo... Muda. Parada. Não amanhã. Vinte metros por segundo e com aceleração constante de... Ah, mas não adianta mais. Agora ele já percebeu. E agora? Ah, que sono. Não agüento mais nada hoje. Cama! Meu travesseiro. Eu sei que tem a prova amanhã... Tá ficando frio mesmo. Um sorriso que fosse! É, amanhã tem prova. E ele me deu aquele sorriso hoje... mas amanhã... só uns músculos daqui e...
Foi a chuva
A chuva me impedia de distinguir o que era gota d’água do que era lágrima. Acho que foi por isso que eu acabei dando um beijo nele. Só provando o gosto pra saber.
Sobre essa saudade
Como descrever? Eu não me atreveria. Ficarão intactos, como num quadro. Talvez não um quadro, mas um esboço, uma versão mal-acabada e insatisfatória que apenas muda com a minha percepção. Essa coisa que a gente chama de lembrança. Mas eles foram. Existiram. Esses momentos em que a gente quase consegue tocar a felicidade como quem coloca a palma da mão no espelho. São perfeitos e enquanto duram fazem a gente sentir que já chegou onde queria chegar. Agora sim, o mundo pode parar. Estamos onde sempre desejamos estar. Mas de repende vem uma sensação esquisita. É essa saudade prematura que nasce da intuição de que o tempo não vai se curvar à nossa vontade. Que saudade é essa que foge do seu presente-futuro e invade o nosso presente-presente de forma tão impiedosa? É quase ilógica, pois coexiste com o momento que lhe dá origem. Irônica, pois fica enquanto o resto se vai. Ridícula, pois tenta imitar a saudade verdadeira que celebra aquilo que já foi e não aquilo que é. Interrompe essa felicidade que só não é plena porque temos a consciência de que ela o é. Entretanto, é sublime, pois representa a mais pura vontade de viver.
De corpo e alma
Começa no peito. Nele cria raízes. Expande de jeito a deixar cicatrizes. Imprisiona-me a alma. Estrangula-me a garganta. O queixo não se acalma. Barrá-la? Nada adianta. Sobe-me até a boca. Tento expulsá-la num grito. Mas pensarão que estou louca, e não sai nenhum gemido. E quando minha alma está preenchida desse sentimento, meu corpo, sempre atento, encontra uma saída. Num gesto de puro amor, minha tristeza ganha vida. Na lágrima do sofredor, materializa-se a dor sofrida.
Obs.: Nada mais em forma de poema. Pra isso, tem que ser bem feito.
Duas Paralelas
Começou a caminhada com passos lentos, mas firmes. Acelerou à medida em que a pele foi pedindo maior contato com o vento frio que a envolvia.
Sentou-se no banco da praça com o livro e o pacote de balas em mãos. Estava alheia a tudo a sua volta, como se participasse sozinha de uma cena num cinema mudo.
O impacto ritmado dos pés no chão duro aos poucos levava-o para outro mundo, no qual nem mesmo os pensamentos habitavam. Aos poucos o corpo se esquentava e a mente ia se desligando.
Abriu o pacote de balas como quem abre um livro e o livro, como quem abre um pacote de balas. Um gosto novo na boca e as mesmas e decoradas palavras na mente lhe conferiam um olhar infantil e um sorriso quase incontido.
Completou a terceira volta sem se dar conta. O sangue já circulava apressado e o coração pedia num tom primitivo e musical: mais rápido. Era extrema a sensação de não se achar limitado por quatro rodas.
As palavras entravam e idéias se formavam. Os pensamentos começavam a pulsar e circular, desenvolvendo os caminhos mais estranhos e desbravando outros novos. Se os carros buzinavam, ela jamais iria saber.
Estavam tão contidos e libertos em si, que não perceberam as nuvens se formando, chamando os trovões e fazendo a chuva cair de uma pancada. Quando os pingos começaram a reanimar o tato, procurou abrigo em uma árvore, debaixo da qual havia um banco e em cima do qual estava ela. Percebeu-a. Uma gota infiltrou-se pela copa da árvore, percorreu um caminho difícil entre as folhas e foi achar seu lugar nos cílios dela. Levantou os olhos do livro. Percebeu-o. Sua respiração ganhou uma pressa inesperada e ele foi inundado de pensamentos desordenados. Em pouco tempo já estavam em igualdade de condições e de desejos. Dois mundos tão completos agora queriam uma extensão. Duas paralelas queriam alcançar o infinito.