Friday, April 22, 2005

Há dias

Em que eu fico assim. Quieta. Passam os minutos, passa o tempo, gira o mundo. Há dias em que bate essa saudade, essa estática. Deve ser o mundo que parece grande demais. Gira forte, persistente e não cede nunca. Não consigo dar um passo. Como eu conseguiria diante dessas forças tão grandes e tão maiores que eu? Talvez meu papel esteja ficando difícil demais de representar. Não quero mais ser forte. Não consigo dar um passo. Quero engatinhar. Deixa-me mostra minha natureza frágil, meu sorriso submisso e minha postura mediana. Não quero ser mais do que sou. Não nesses dias. Há dias, esses dias, em que eu quero colo, quero um abraço e não quero mais lutar. Deixa pra salvar as baleias amanhã, hoje eu quero simplesmente ser e estar. Eu peço que venha o vento, juro que me deixarei levar. Se este texto está muito confuso, desculpe, pela clareza não vou me esforçar. Vou me deitar junto à terra para poder germinar. Que as palavras venham até a mim, eu é que não vou buscar. E se o texto está rimando como uma poesia, é a inércia que vem me atrapalhar. E ainda, se você está chamando isso de preguiça, minha essência medíocre me impele a discordar. Mas hoje não, não nesses dias. Não quero nem argumentar.

Thursday, April 21, 2005

Trajeto

Ir ao supermercado. Comprar leite e pão. Que bom, tem promoção. Mas ele me sorriu daquele jeito! Será possível? Não. Foi só um sorriso. Mudaram de prateleira. E eu fiquei muda. Muda. Nossa, já são seis horas. Nenhuma fila! Simpática a moça do caixa. Incrível, mesmo com um trabalho tão tedioso. Ah, o ônibus lotado de novo. Lá vou eu pendurada que nem um morcego! Por que eu não sorri de volta? Só contrair uns músculos daqui e dali. Tão simples. Abram as janelas! Ah, já vou descer mesmo. Foi nos meus olhos sim. Por que ninguém me dá licença? Ninguém vê que eu preciso descer? E esse vento frio, o inverno está chegando. Ele tinha mesmo que me olhar nos olhos? Fiquei lá. Parada. Será que ele percebeu? Cartas? Não. Propaganda. Ele percebeu. Quatrocentos e um, quatrocentos e dois... Ah, que bom tirar os sapatos. Chão gelado. Será que ele viu quando eu baixei os olhos? Que bom que consertaram o chuveiro. Ele viu. Mas o que eu podia fazer? Tava tão na cara. Lembrar de comprar xampu e emagrecer dois quilos. Espelho embaçado. O pijama verde está limpo. Então a faxineira veio hoje. Será que eu vou ver ele amanhã? Hum, quinta-feira. Amanhã tem prova. Não pode ser. Página cinco... Quanto tempo um carro a vinte metros por segundo... Muda. Parada. Não amanhã. Vinte metros por segundo e com aceleração constante de... Ah, mas não adianta mais. Agora ele já percebeu. E agora? Ah, que sono. Não agüento mais nada hoje. Cama! Meu travesseiro. Eu sei que tem a prova amanhã... Tá ficando frio mesmo. Um sorriso que fosse! É, amanhã tem prova. E ele me deu aquele sorriso hoje... mas amanhã... só uns músculos daqui e...

Foi a chuva

A chuva me impedia de distinguir o que era gota d’água do que era lágrima. Acho que foi por isso que eu acabei dando um beijo nele. Só provando o gosto pra saber.

Saturday, April 16, 2005

Sobre essa saudade

Como descrever? Eu não me atreveria. Ficarão intactos, como num quadro. Talvez não um quadro, mas um esboço, uma versão mal-acabada e insatisfatória que apenas muda com a minha percepção. Essa coisa que a gente chama de lembrança. Mas eles foram. Existiram. Esses momentos em que a gente quase consegue tocar a felicidade como quem coloca a palma da mão no espelho. São perfeitos e enquanto duram fazem a gente sentir que já chegou onde queria chegar. Agora sim, o mundo pode parar. Estamos onde sempre desejamos estar. Mas de repende vem uma sensação esquisita. É essa saudade prematura que nasce da intuição de que o tempo não vai se curvar à nossa vontade. Que saudade é essa que foge do seu presente-futuro e invade o nosso presente-presente de forma tão impiedosa? É quase ilógica, pois coexiste com o momento que lhe dá origem. Irônica, pois fica enquanto o resto se vai. Ridícula, pois tenta imitar a saudade verdadeira que celebra aquilo que já foi e não aquilo que é. Interrompe essa felicidade que só não é plena porque temos a consciência de que ela o é. Entretanto, é sublime, pois representa a mais pura vontade de viver.

De corpo e alma

Começa no peito. Nele cria raízes. Expande de jeito a deixar cicatrizes. Imprisiona-me a alma. Estrangula-me a garganta. O queixo não se acalma. Barrá-la? Nada adianta. Sobe-me até a boca. Tento expulsá-la num grito. Mas pensarão que estou louca, e não sai nenhum gemido. E quando minha alma está preenchida desse sentimento, meu corpo, sempre atento, encontra uma saída. Num gesto de puro amor, minha tristeza ganha vida. Na lágrima do sofredor, materializa-se a dor sofrida.

Obs.: Nada mais em forma de poema. Pra isso, tem que ser bem feito.

Duas Paralelas

Começou a caminhada com passos lentos, mas firmes. Acelerou à medida em que a pele foi pedindo maior contato com o vento frio que a envolvia.

Sentou-se no banco da praça com o livro e o pacote de balas em mãos. Estava alheia a tudo a sua volta, como se participasse sozinha de uma cena num cinema mudo.

O impacto ritmado dos pés no chão duro aos poucos levava-o para outro mundo, no qual nem mesmo os pensamentos habitavam. Aos poucos o corpo se esquentava e a mente ia se desligando.

Abriu o pacote de balas como quem abre um livro e o livro, como quem abre um pacote de balas. Um gosto novo na boca e as mesmas e decoradas palavras na mente lhe conferiam um olhar infantil e um sorriso quase incontido.

Completou a terceira volta sem se dar conta. O sangue já circulava apressado e o coração pedia num tom primitivo e musical: mais rápido. Era extrema a sensação de não se achar limitado por quatro rodas.

As palavras entravam e idéias se formavam. Os pensamentos começavam a pulsar e circular, desenvolvendo os caminhos mais estranhos e desbravando outros novos. Se os carros buzinavam, ela jamais iria saber.

Estavam tão contidos e libertos em si, que não perceberam as nuvens se formando, chamando os trovões e fazendo a chuva cair de uma pancada. Quando os pingos começaram a reanimar o tato, procurou abrigo em uma árvore, debaixo da qual havia um banco e em cima do qual estava ela. Percebeu-a. Uma gota infiltrou-se pela copa da árvore, percorreu um caminho difícil entre as folhas e foi achar seu lugar nos cílios dela. Levantou os olhos do livro. Percebeu-o. Sua respiração ganhou uma pressa inesperada e ele foi inundado de pensamentos desordenados. Em pouco tempo já estavam em igualdade de condições e de desejos. Dois mundos tão completos agora queriam uma extensão. Duas paralelas queriam alcançar o infinito.