Wednesday, October 06, 2010

Pela metade

Como precisar o começo de uma história?

Capítulos vão se entrelaçando em versos, dando origem a eventos sem rima que nos são perceptíveis apenas nos detalhes. A matemática do colégio ajuda: é como olhar de perto algo que se acredita ser uma reta, mas que não é nada menos do que uma circunferência imensa. Não tem começo. E, por se tratar de uma circunferência, é redundante dizer que não tem fim.

Tudo isso para dizer que, a meu ver – curto e deturpado, porque parcial – essa histórica começa com a moça que deu faxina lá em casa quando eu era mais nova. Tão nova, que eu nem tenho memória dessa época. As únicas lembranças que possuo, ainda em construção, são dos sorrisos dela que, mais tarde, voltou a trabalhar lá em casa e que me olha com a intimidade de quem cuidou de mim e me viu crescer.

E eu disse que ela dava faxina? Eu ando assim, enxergando pouco mesmo.

Ela fez bem mais que isso. Ela ajudou a criar a mim e a meus irmãos. Ela sofreu muito na vida, e sofreu de um jeito que eu, filha da classe média burguesa, nunca vou conseguir entender. Tinha dois filhos. Um deles, sócio do meu pai, morreu há duas semanas na empresa deles, logo depois de chegar trazendo o lanche dos empregados.

E a história acaba aí, num semicírculo. Acaba porque eu não consigo entender por que alguém entraria no armazém naquele dia e daria dois tiros a queima roupa em um homem que agora estava começando a ajeitar a vida, que havia acabado de ficar noivo, que não vai mais ver o neto nascer e que morreu antes da mãe, fadada a ter que carregar mais essa cicatriz.

E a partir daí fica difícil continuar.

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