1 hora, 1 livro e 4 histórias
Num dia útil qualquer, ou inútil, depende da perspectiva, eu, desocupada, desempregada, sentei-me na Praça da Liberdade às 14:00 para ler um livro, esperando dar a hora de um compromisso. Arrumei um banco meio ao sol, meio à sombra, esperando que as coisas se ajeitassem com o passar da tarde. Mais ou menos como a gente faz com a vida. Mal havia me sentado, e passou um homem gritando que ela - não me perguntem quem - havia se matado sozinha e que ele não tinha nada a ver com isso. Ele deu várias voltas na praça, se insentando da culpa, ou parecendo mais suspeito - isso também depende da perspectiva. Ninguém parecia se importar muito, mas acho que é bastante normal que a loucura corra solta, sem causar constrangimento, nem reação.Comecei a ler, até ser abordada por um grupo de meninos gentis, de uma escola pública. Sim, gentis. Eles me deram uma flor de papel e uma bala, com o intuito expresso, nesses termos, de distribuir gentileza. Pensando se tratar de alguma forma de pedir doações, eu questionei: "mas é só isso?". E eles me explicaram, felizes, até porque estavam na praça, às 14:00, assim como eu, que pequenos gestos possuem grande impacto. Eu agradeci a eles e a todos os outros que, gentilmente, interrompiam minha leitura. Acho que a inocência, geralmente, é gentil. Ou isso, ou meu coração está mais duro.
Continuei a ler meu livro, até que um menino, que, como vim a saber, luta muai-tai, sentar-se ao me lado e perguntar-me as horas. E contou que vinha caminhando desde a rodoviária, perguntou se eu sabia onde ficava a rodoviária, se eu era daqui mesmo e outras coisas mais, dessas que se perguntam na Praça da Liberdade. Falou que estava com uma dor na coxa, que só melhorava quando ele começava a andar. Eu falei para ele ir ao médico e, quando ele disse que iria, perguntei, maternal, quando seria isso, afinal, é melhor prevenir do que remediar. A conversa deu algumas voltas, e ele voltou a caminhar, para aliviar a dor. E talvez estivesse certo, não é caminhando que a gente deixa o sofrimento para trás?
Retomei a leitura... até que - mais uma vez a expressão que limita ou amplia, depende da perspectiva - uma menina se sentou ao meu lado e me perguntou as horas. Ela perguntou também se eu gostava de ler, e eu, se ela estava na escola. Se ela não estivesse, eu ia mandá-la estudar, assim como minha mãe me mandou e assim como mandei o menino ir ao médico. Ela disse que não e, depois de algumas perguntas investigatórias (eu já tinha entrado no espírito de me imiscuir na vida alheia), ela disse que estava com câncer de útero. Ela tem 15 anos. O pai e o irmão cuidam dela e, dia sim, dia não, ela acha que vai sobreviver. Conversamos durante algum tempo. Eu disse que nossos pais são, às vezes, mais imaturos que a gente. Afinal de contas, não consegui nenhuma outra explicação para o fato de a mãe dela não desempenhar a função que o universo lhe imputou. Se não mãe, ela poderia ao menos ser gentil. Afinal, gentileza pode não dar conta de todo o sofrimento desse mundo, mas certamente o alivia.
