Daydream...
A cena é esta:Um deserto que só termina em deserto. Sabe-se que o sol está lá em cima porque a areia branca reflete seus raios nos suas pupilas cansadas incessantemente. Venta. Venta muito. Arrasta-se uma túnica pesada e escura que esconde longos cabelos nas costas e profundas cicatrizes na alma. Do nariz escorre sangue, a pele está seca, os lábios rachados e os calcanhares quebrados. Os olhos estão úmidos. Anda-se só e mais só ainda por ser tão insignificante diante da eternidade das dunas. Elas se movem e mudam, mas não do mesmo jeito que essa figura se move e muda. Parar significa fazer seu próprio túmulo de areia. O horizonte azul, agora parece monótono e já não inspira o caminho. De repente, deixa-se levar pelo vento e as costas batem em uma rocha. Ao olhar para trás, depara-se com um oásis.
Ou seria uma miragem?
O Brave New World
"Tinha a lua às costas, mergulhou o olhar na sombra negra da mesa, na sombra negra da morte. Não precisava dar mais que um passo, um pequeno salto.. Estendeu a mão direita ao luar. Do corte no pulso, o sangue ainda escorria. A pequenos intervalos caía uma gota, escura, quase sem cor na luz morta. Uma gota, outra, outra... 'Amanhã, amanhã e ainda amanhã...'Tinha descoberto o Tempo, a Morte e Deus."
Adous Huxley, trecho de Admirável Mundo Novo
Escrito em 1932, mas muito muito atual.
"Oh admirável mundo novo, que encerra criaturas tais."
Obs.: Para a aula de sociologia, se alguém estiver interessado em deslocamento ou desencaixe, ESSE é o livro!
E agora que estamos aqui?
A gente consegue definir apenas metade de nossa vida. Talvez nem isso. Acordamos e já somos arrastados por um monte de ações e reações de um mundo em movimento, que nos empurra para frente, leva para trás, joga de um lado, de outro e nos faz cair no chão.
Algumas pessoas apenas sobrevivem, como vegetais, levados pelo tumulto do dia-a-dia e pela multidão. Outros tentam timididamente apontar aquele caminho da direita ou da esquerda, não sei, "Será que dá para voltar ?", "Não empurra!". Às vezes se demorando horas numa encruzilhada ou nunca nunca saindo de lá. Eu queria ver a esfera maciça se explodindo em várias direções e sentidos sem sentido. Esses pontos se juntando em formas irregulares, altamente inovadoras, harmônicas, não passíveis de qualquer análise ou estatística. Um sorrisa vem ao rosto quando vejo raros tipos remando contra a maré. Dá vontade até de acompanhar, mas isso seria seguir o caminho deles e não o meu. Até mesmo esses às vezes não se dão conta que são apenas sócios majoritários em suas vidas.
O pior mesmo são as descidas muito íngremes, ou os morros e as curvas; que não se pode nem espiar. Bom é ter alguém para ir de mãos dadas, compartilhando o medo de mãos suadas e estômago sem gravidade, "Não larga da minha mão!". Os entroncamentos, as escolhas e a liberdade. Pena é quando alguém fica pra trás, às vezes para nunca mais.
É fácil perceber isso, principalmente naqueles de rosto cheio de expressões sinceras. As costas se curvam, o olhar se perde e os passos já não têm tanta pressa. Saudade pesa e a terra é dura. Um dia eu ainda fico assim, se Deus quiser! Eu percebo que minha bagagem aumenta, mas não dispenso nem as tralhas. Aí, quando eu já não tiver chão ou quando ela estiver muito pesada, eu volto meu sujeito para a terceira pessoa e tento tirar algumas lições para aqueles que ainda têm uma alma inteira a preencher.
E essa paz numa terra de seres humanos?
O ser humano sonha demais. E por sonho, digo um desejo que está fora do alcance. As horas e os anos passam e eu continuo me sentindo como uma menininha que não consegue alcançar o pacote de bolachas no alto da prateleira. Ensinaram a ela que ela podia sonhar com tudo quanto quisesse. Talvez nem soubessem o mal que lhe estavam fazendo. Apenas preparando o solo de onde brotarão futuras decepções.
Até hoje ela fica na ponta dos pés, levanta os braços e estica os dedos; mas não consegue tocar nem a embalagem. Todos os dias ela come frutas, verduras, e um prato cheio de coisas esquisitas na hora do almoço. A mãe disse que assim ela ia crescer.
O que fazer agora? Sonhar é um vício, esperança um alimento e as decepções são o preço. Não há volta, apenas uma escolha. Acostuma-se a uma vida sem brilho ou à desgastante e eternamente recompensadora tentativa de contorcer e alongar todo o corpo, abrir as mãos e, ao fechar, agarrar o nada.