Desarmado
Na frente dos olhos dele a vida passava e ele não via nada. Pois não era que naquele momento havia perdido o ônibus por causa de seus devaneios? Coisas para pensar e para fazer. E o tempo passava. Ainda, no meio de tudo havia ela, que cortava seus pensamentos, seu dia-a-dia, e confundia tudo aquilo que ele tentava organizar. Por tanto tempo ele tentou resistir, mas volta e meia ela aparecia na cabeça dele para lembrar de toda a vida que ele queria e não estava vivendo. Atrapalhava e conflitava com todos aqueles planos que ele tinha, o controle das coisas, a calma habitual, o saber de tudo e o saber o que fazer com tudo. Ultimamente não era mais assim. Ultimamente estava inseguro, não sabia mais que palavras utilizar nas conversas banais, naquelas em que os probleminhas sem graça apareciam. Sua postura inteira havia caído por terra e pousado num mundo de caos. Estava aterrorizado e impressionado com ela, com todo o sentimento que derivava dela. Havia invadido seu mundinho controlado e havia feito tudo muito maior. As pessoas pareciam maiores e mais interessantes, qualquer momento era um momento único e qualquer projeto era o projeto de sua vida, de forma que tudo ganhava uma intensidade desesperadora. Desesperador era estar vivo. Era essa consciência da vida que havia invadido sua cabeça como uma avalanche, carregando todos os pequenos problemas e transformando outros que pareciam insignificantes em dilemas dignos de Shakespeare. Ser ou não ser? Era uma decisão a ser tomada a cada passo, a cada instante e cada escolha definia sua personalidade, seu caminho, seu mundo inteiro. E o mundo não passava da maneira como ele o via. Caiu num abismo: que retas traçar? Como enxergar? Sair dali foi difícil e só foi possível quando ele viu que era ali que ele realmente queria ficar. Pegou o próximo ônibus para casa com a plena consciência de não saber para onde estava indo.
Precoce
Observou o papel em sua mão por um longo tempo até que seus pensamentos se perderam traçando as milhares de conseqüências que seu conteúdo poderia desencadear. Enquanto tentava achar uma saída, seus braços e ombros iam caindo lenta e inconscientemente, ao mesmo tempo em que sua cabeça se levantava para que os olhos horrorizados se fixassem num ponto qualquer do céu. Qualquer um na rua, que a visse assim na janela, afirmaria que ela estava se rendendo a uma força superior, uma força terrível que só ela via. E ela tentou negar o que via enquanto pôde, lutou contra todas as probabilidades. Aquilo não estava acontecendo, não com sua mãe, não com ela. Então era por isso que sua mãe estava se portando de forma tão estranha ultimamente, era isso que ela escondia: câncer. Um câncer no útero corroendo e sugando a vida e toda a forma de normalidade e tranqüilidade que havia imaginado para os próximos dias. A surpresa aumentou o impacto exponencialmente. O sofrimento de ter a mãe doente era intransmissível e ao mesmo impossível de conter, causando um paradoxo que se exteriorizou em lágrimas. Desta forma, o que era rendição mostrou-se nada menos do que a primeira etapa do desespero que se seguiu. Choro, dor de cabeça, desconforto e solidão. O que ela podia fazer? Não havia ninguém para conversar que pudesse realmente entendê-la, nem mesmo da família. Além disso, o fato de sua mãe ter escondido até agora indicava que era algum tipo de segredo. Nessas horas também de nada ajudava ser a menina mais bonita ou mais inteligente do colégio, e se pensar parecida com a cantora daquela música da novela não se configurava nem mesmo como uma fuga imaginária. O câncer atestado naquele papel era inescapável como a realidade. A pergunta veio de novo: o que ela podia fazer? Não era médica, pensou. Então lhe ocorreu de pesquisar e vasculhou a Internet até angariar o maior número de informações sobre o assunto. Depois de vários pareceres confusos e até mesmo contraditórios, descobriu que o tratamento era possível, mas no fundo sabia que certamente seria difícil. Já antecipava as mudanças em sua vida. Sentou-se no sofá e lamentou; e assim o tempo foi passando até que se cansou de chorar e uma tristeza silenciosa tomou conta da sala. Ainda não sabia o que fazer, mas tinha certeza que sua mãe saberia. Sempre a admirou: uma mulher solteira, bonita e dona do próprio negócio. Independente. Sua mãe era tudo, sabia de tudo. Certamente ela já deveria ter uma solução. Tudo ficaria bem. Estava pensando nisso quando ela abriu a porta com um rosto abatido. No instante em que a mãe a viu sentada no canto da sala, na penumbra, tentou forçar um sorriso, enquanto pedia desculpas por ter se esquecido de passar na padaria. Entretanto, a filha percebeu na mãe uma tristeza e um olhar sem esperança. O sorriso, que se pretendia alegre, destacou uma aura de desespero. Ficou então imaginando como não havia percebido antes e se culpou por ter estado ocupada e preocupada com coisas que agora pareciam tão superficiais. Aterrador foi o sentimento que se seguiu ao concluir que sua mãe na verdade não sabia de tudo. Antes protetora, agora praticamente pedia para ser protegida. Engoliu esse terror em seco porque intuitivamente entendeu que não podia mais ser egoísta. Tinha que cuidar de quem havia cuidado dela, e foi assim que, sem querer, sem opção, abruptamente saiu do casulo da adolescência.
Anseios
Difícil é essa relação entre as coisas que queremos, as que nós pensamos querer e as que são realmente boas para nós. Confusão entre o que desejamos ser, a ilusão do que nós pensamos ser, e o que nós de fato somos?