Saturday, July 23, 2005

Carpe diem

Procrastinação. Esse era seu pecado. Deixava para começar tudo no dia seguinte. Não era medo, não era preguiça ou insegurança. Gostava simplesmente de ir levando a vida. Só fazia ela se desenvolver na sua cabeça. Lá as coisas aconteciam. Protagonizava romances, novelas, dramas. Já havia salvado o mundo duas vezes. Imaginava como seria um grande profissional assim que começasse a batalhar. Sonhava com o dia em que levantaria da cama e seria simplesmente feliz.
Pogramava mil viagens, mas adiava, adiava e adiava. Quando tiver mais dinheiro! Quando tiver mais tempo! Quem sabe nas próximas férias, quando eu não estiver tão cansado? Mas a verdade é que adorava simplesmente programar. Para isso estava sempre disposto.
Perguntavam-lhe as novidades e a resposta era sempre a mesma negativa. Perguntavam-lhe o que ele tinha feito no feriado, no final de semana, no dia anterior e uma resposta se repetia: nada de mais. Quando percebeu isso, começou a preocupar-se. Vasculhou sua vida e ficou decepcionado. Afinal, admitiu que aquilo que estava vivendo era um problema e não a vida. Vivia na mente e não no mundo. Vivia sempre a vida que ainda viria.
Com um pouco de desconfiança, procurou uma solução. Percebeu que contava um amanhã muito incerto, podia ser que um dia ele falhasse. Leu vários livros de auto-ajuda e resolveu viver no hoje. Prorrogou a tomada de atitude por mais uma semana, até que, seguindo os conselhos de um dos livros, resolveu escrever no espelho: Amanhã?
A princípio, funcionou muito bem. Comprava presente para os amigos, elogiava, declarava amores e desamores. Lutava pelo que achava certo. Ficava calmo diante dos pequenos problemas, pois estes não eram bons o suficiente para perturbar o seu dia de hoje. Logo constatou que a vida assim vivida requeria um grande ânimo e motivação. Descobriu que era exatamente isso que buscava naqueles dias anteriores em que ficava observando a vida passar, inclusive a dos outros. Tentava achar na imensidão do mar de acontecimentos a razão de ser de tanta água. Naqueles dias, esperava por um empurrão inicial.
Parou. Não mais. A vida do jeito que vivia antes não valia a pena ser vivida. A vida que vivia agora era simplesmente falsa, posto que não combinava com seu ser. Algo ainda lhe faltava. Acordou mais um dia e leu no espelho: amanhã? Não. Hoje mesmo ele acabaria com aquela existência sem merecimento. Hoje mesmo. Leu de novo: amanhã? Hesitou. Sim. Deixaria para amanhã. Ou talvez para depois de amanhã. Porque quem sabe amanhã ele não esbarraria com o que buscava no caminho da floricultura. Ou da padaria. Enquanto isso ele ia vivendo, dando o máximo de si para que as esperanças do hoje se concretizassem no amanhã.

2 Comments:

At 8:43 PM, July 23, 2005, Anonymous Anonymous said...

Lu, mto bom seu texto.. Eh aquilo mesmo, apesar de nao podermos deixar tudo para o futuro e "vivermos" apenas aquilo q queremos q aconteca, temos q viver o agora, mas nao deixando de sonhar com o q vira, e com o q queremos q venha.. Eh mais ou menos isso mesmo q vc quis passar? Foi assim q eu entendi, e achei mto lindo viu..
Te adoro muito
Bjins
Lary

 
At 7:06 AM, August 14, 2005, Anonymous Anonymous said...

nossa....
me identificar com esse texto me deu um pokinho de medo....
será q eu sou assim?
axo q na verdade td mundo tem um pouco disso neh....
mto bom Lu....
fazia tempo q eu nao passava por aki...
hj deu saudade....
amo seus textos!
bjux

 

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