Sono e Vigília
Friday, March 24, 2006
Saturday, March 11, 2006
Conto de uma conhecida
Ela andava sempre com aquele sorriso no rosto de quem quer dar uma gargalhada mas não pode, porque, afinal, se está sozinho em meio a outras pessoas. Sabia que era um pouco louca mas ela mesma não se importava com isso. Tentava disfarçar porque o mundo pode ser muito mais duro para os loucos assumidos. E num desses dias, em que tinha a felicidade contida na mais leve das flexões de músculos no rosto, foi que ela reconheceu o grande amor de sua vida. Ela estava chegando de um lugar qualquer ao qual a gente tem de ir de vez em quando resolver as burocracias da vida quando o viu. Soube no exato instante que agora sua vida passaria a depender inteiramente da boa vontade daquele rapaz. Não resistiu ao sentimento novo. Ela não era tão louca a ponto de resistir a uma jornada de euforia.
Infelizmente, porém, fora enganada pelo truque mais banal e medíocre que já atravessou a humanidade e apaixonou-se. E todo ex-apaixonado sabe que depois da euforia vem a ansiedade, logo o desespero e após este toda aquela depressão de não conseguir mais somar dois com dois porque simplesmente a concentração se dispersa à procura de saber o que diabos ele está fazendo a cada minuto.
Não é preciso nem dizer que em menos de duas horas ela já tinha informações sobre quase metade da vida dele. As fantasias precisam de alguns detalhes de realidade para sobreviver. Mas ela foi além disso e não demorou muito a encontrar um meio de conhecê-lo, mesmo que tal meio pudesse ser completamente embaraçoso ou ilógico. De tal maneira que o leitor ou leitora podem concluir que o rapaz percebeu bem rápido o que estava se passando com a querida personagem.
Ah, se apenas o que agrada o ego agradasse também o coração, a nossa menina das risadas contidas viveria uma bela história de amor. No entanto, o rapaz é exatamente aquele tipo sobre o qual todas as mães avisam suas filhas para ficarem bem longe e foi exatamente ele que fez do nosso conto uma trágica história de um coração partido.
De quantas indiretas uma garota precisa para que um rapaz perceba que ela o quer, que ela quer se encontrar com ele, que ele tem de tomar alguma atitude? A resposta é que nenhuma é suficiente para a capacidade surpreendentemente infinita que um homem tem de se fingir de desentendido. E era isso que acontecia: dia após dia ela passava na loja de chocolates em que o rapaz trabalhava e comprava vários bombons. Não comia nenhum porque, é claro, não tinha apetite. Tentava as mais variadas conversas, desde os assuntos mais genéricos, como o tempo, até àqueles em que precisava de um estudo mais aprofundado e específico, como futebol.
Fora de si, via cada reação dele como uma proposta de casamento ou como o oposto, a completa negação de sua pessoa. A verdade é que ele sentia algo mais para a indiferença, ou seja, algo que ela jamais poderia aceitar para o bem de sua saúde mental. Para ele, ela era simplesmente a garota que lhe emprestava os olhos para ser mais bem recebido pelo espelho. Em outras palavras, ela fazia bem à sua auto-estima egoísta. Deste modo, fazia o jogo de não alimentar nem afugentar esperanças, largando a nossa heroína num estado paranóico de confusão.
Com tempo, passou a ser mais ousada, pois estava em busca de uma resposta para o será que ele gosta de mim também, simplesmente um fim para sua dúvida. Comprava chocolates e lhos* presenteava, às vezes deixando um recadinho, bem à maneira brega e sem noção como vivem os apaixonados. Como resposta, ele tinha preparado aquele sorrisinho convencido que apenas o deixava mais irresistível, mas que não respondia a pergunta nenhuma.
A leitora ou o leitor já deve ter adivinhado que de nada adiantou as empresas da sofredora. Do mesmo modo vai compreender que agora ela não tinha outro recurso a não ser escrever uma carta de amor. Assim o fez: colocou ali todo o seu sentimento. Usou palavras que normalmente tentamos evitar no nosso dia a dia, ou por serem ultrapassadas, ou demasiado sentimentais ou simplesmente por medo. Exatamente aquelas que nos expressam corretamente mas nos fazem sentir ridículos ao serem pronunciadas. Foram palavras verdadeiras, e este foi seu erro ingênuo, um erro de primeira viagem.
Não que anteriormente não estivesse exposta. A diferença está em que agora retirava qualquer tipo de armadura e não deixava espaço para ilusões ou faz de conta que nada aconteceu. A rejeição foi inevitável e aqui não precisamos entrar em detalhes. Apenas diremos que foi pior do que ela poderia jamais imaginar. Então ele não a queria e, por isso, agora ela se rejeitava também, acreditando fazer parte do mundo das pessoas que vão viver solitárias para o resto de suas vidas.
Chorar não é uma boa palavra para explicar o que se seguiu. Algo a ver com lágrimas, desidratação e alta ingestão de glicose é mais aproximado. Aquela dor insuportável que nenhuma outra pessoa na face da terra poderia jamais em sua vidinha miserável compreender nem mesmo uma pequena parte veio com toda a força. No entanto, previsivelmente e ao mesmo tempo surpreendentemente, ela passou. A menina virou mulher. O príncipe encantado, nosso rapaz, virou homem.
O bom dessa história toda é que agora ela anda de sorriso aberto pelas ruas. A paixão foi o sentimento que veio para explicar como todos os outros deviam ser vividos. A alegria, como um exemplo, passou ao nosso conhecido estado de euforia. A tristeza, como outro, virou sinônima de lágrimas inevitáveis. Libertou-se para viver a vida louca, intensamente, apaixonante.
Um coração em pedaços não é ruim como normalmente se pensa. Ele tem mais espaço e nele se encaixam todas as mais variadas formas. Ele é mais completo do que esse ordinário que todo mundo tem. Mas chega disso porque a história está no seu fim e as conclusões cada um sabe qual tirou da sua própria maneira de enxergá-la. Não podemos, entretanto, deixar o leitor ou leitora sem um fechamento. Fazemos questão de informar o óbvio: a nossa protagonista se apaixonou outras vezes, de jeitos e por pessoas diferentes. Sofreu incontáveis vezes, mas logo se fazia de esquecida para cair nas trapaças do coração novamente. Assim foi, assim é e assim será porque toda mulher é uma menina aprendendo a amar.
Infelizmente, porém, fora enganada pelo truque mais banal e medíocre que já atravessou a humanidade e apaixonou-se. E todo ex-apaixonado sabe que depois da euforia vem a ansiedade, logo o desespero e após este toda aquela depressão de não conseguir mais somar dois com dois porque simplesmente a concentração se dispersa à procura de saber o que diabos ele está fazendo a cada minuto.
Não é preciso nem dizer que em menos de duas horas ela já tinha informações sobre quase metade da vida dele. As fantasias precisam de alguns detalhes de realidade para sobreviver. Mas ela foi além disso e não demorou muito a encontrar um meio de conhecê-lo, mesmo que tal meio pudesse ser completamente embaraçoso ou ilógico. De tal maneira que o leitor ou leitora podem concluir que o rapaz percebeu bem rápido o que estava se passando com a querida personagem.
Ah, se apenas o que agrada o ego agradasse também o coração, a nossa menina das risadas contidas viveria uma bela história de amor. No entanto, o rapaz é exatamente aquele tipo sobre o qual todas as mães avisam suas filhas para ficarem bem longe e foi exatamente ele que fez do nosso conto uma trágica história de um coração partido.
De quantas indiretas uma garota precisa para que um rapaz perceba que ela o quer, que ela quer se encontrar com ele, que ele tem de tomar alguma atitude? A resposta é que nenhuma é suficiente para a capacidade surpreendentemente infinita que um homem tem de se fingir de desentendido. E era isso que acontecia: dia após dia ela passava na loja de chocolates em que o rapaz trabalhava e comprava vários bombons. Não comia nenhum porque, é claro, não tinha apetite. Tentava as mais variadas conversas, desde os assuntos mais genéricos, como o tempo, até àqueles em que precisava de um estudo mais aprofundado e específico, como futebol.
Fora de si, via cada reação dele como uma proposta de casamento ou como o oposto, a completa negação de sua pessoa. A verdade é que ele sentia algo mais para a indiferença, ou seja, algo que ela jamais poderia aceitar para o bem de sua saúde mental. Para ele, ela era simplesmente a garota que lhe emprestava os olhos para ser mais bem recebido pelo espelho. Em outras palavras, ela fazia bem à sua auto-estima egoísta. Deste modo, fazia o jogo de não alimentar nem afugentar esperanças, largando a nossa heroína num estado paranóico de confusão.
Com tempo, passou a ser mais ousada, pois estava em busca de uma resposta para o será que ele gosta de mim também, simplesmente um fim para sua dúvida. Comprava chocolates e lhos* presenteava, às vezes deixando um recadinho, bem à maneira brega e sem noção como vivem os apaixonados. Como resposta, ele tinha preparado aquele sorrisinho convencido que apenas o deixava mais irresistível, mas que não respondia a pergunta nenhuma.
A leitora ou o leitor já deve ter adivinhado que de nada adiantou as empresas da sofredora. Do mesmo modo vai compreender que agora ela não tinha outro recurso a não ser escrever uma carta de amor. Assim o fez: colocou ali todo o seu sentimento. Usou palavras que normalmente tentamos evitar no nosso dia a dia, ou por serem ultrapassadas, ou demasiado sentimentais ou simplesmente por medo. Exatamente aquelas que nos expressam corretamente mas nos fazem sentir ridículos ao serem pronunciadas. Foram palavras verdadeiras, e este foi seu erro ingênuo, um erro de primeira viagem.
Não que anteriormente não estivesse exposta. A diferença está em que agora retirava qualquer tipo de armadura e não deixava espaço para ilusões ou faz de conta que nada aconteceu. A rejeição foi inevitável e aqui não precisamos entrar em detalhes. Apenas diremos que foi pior do que ela poderia jamais imaginar. Então ele não a queria e, por isso, agora ela se rejeitava também, acreditando fazer parte do mundo das pessoas que vão viver solitárias para o resto de suas vidas.
Chorar não é uma boa palavra para explicar o que se seguiu. Algo a ver com lágrimas, desidratação e alta ingestão de glicose é mais aproximado. Aquela dor insuportável que nenhuma outra pessoa na face da terra poderia jamais em sua vidinha miserável compreender nem mesmo uma pequena parte veio com toda a força. No entanto, previsivelmente e ao mesmo tempo surpreendentemente, ela passou. A menina virou mulher. O príncipe encantado, nosso rapaz, virou homem.
O bom dessa história toda é que agora ela anda de sorriso aberto pelas ruas. A paixão foi o sentimento que veio para explicar como todos os outros deviam ser vividos. A alegria, como um exemplo, passou ao nosso conhecido estado de euforia. A tristeza, como outro, virou sinônima de lágrimas inevitáveis. Libertou-se para viver a vida louca, intensamente, apaixonante.
Um coração em pedaços não é ruim como normalmente se pensa. Ele tem mais espaço e nele se encaixam todas as mais variadas formas. Ele é mais completo do que esse ordinário que todo mundo tem. Mas chega disso porque a história está no seu fim e as conclusões cada um sabe qual tirou da sua própria maneira de enxergá-la. Não podemos, entretanto, deixar o leitor ou leitora sem um fechamento. Fazemos questão de informar o óbvio: a nossa protagonista se apaixonou outras vezes, de jeitos e por pessoas diferentes. Sofreu incontáveis vezes, mas logo se fazia de esquecida para cair nas trapaças do coração novamente. Assim foi, assim é e assim será porque toda mulher é uma menina aprendendo a amar.
Friday, March 03, 2006
Almas Gêmeas
Almas gêmeas é um assunto difícil de se discutir. Envolve algo de superstição, algo de sagrado, algo de intuição e algo de desejo. É um assunto que nos remete a outro também essencialmente humano: a solidão. A idéia de almas gêmeas é idéia de querer alguém para a vida inteira, uma companhia ou mesmo algo que se encaixe em você. É aquela outra metade que falta, porque parece que sempre falta alguma coisa.
Alguns acreditam que esse outro alguém foi feito sob os desígnios espirituais do universo especialmente para eles. Às vezes não é só um alguém, são vários. Isso porque a alma pode se dividir quando ela renasce, e depois de novo e ainda de novo. De maneira que tudo é uma mera questão de prestar atenção até encontrar, ou então, segundo outros, esperar que o destino faça seu trabalho.
Há aqueles mais humildes, para os quais existem várias almas compatíveis por aí sim, porém é preciso trabalhar na relação para que elas se tornem gêmeas. Acreditam na vida a dois que se constrói no dia-a-dia. Esses ramos ainda se destrincham entre os que pensam que paixão à primeira vista é essencial e os que dizem que não faz falta que seja assim.
Como não podia deixar de faltar, existem os céticos. Estes não acreditam em almas gêmeas de maneira alguma. Podemos dividi-los em românticos decepcionados, sozinhos por opção e realistas frustrados. O primeiro grupo foi o que procurou, ou mesmo esperou, sua alma gêmea por tempo demais. A verdade é que, apesar de não confessarem, nunca deixaram de ser românticos. O segundo, por sua vez, sempre achou que até era possível achar alguém que completasse, mas nunca pelo espaço de uma vida. Os últimos são inconformados com sua opção de crença. Aquilo que chamam de realidade não passa de uma fantasia de proteção.
Não continuemos mais com essa pseudopsicologia, mesmo que ainda faltem muitas classificações. Afinal, o que todos querem é alguém para compartilhar a vida, tornando-a mais leve sobre os ombros. Os mesmos ombros onde um poderia achar consolo no outro. O outro que tornaria a vida mais rica do um e vice-versa. Vice-versa sempre porque essa é talvez a reciprocidade que desejamos, um vice-versa descompromissado. Descompromissado por que se obriga por sua própria vontade.
Existem várias dúvidas e perguntas acerca da alma gêmea: “E se ela estiver do outro lado do mundo? Será que pode ser pai, mãe, tia, irmão, amigo(s), cachorro ou papagaio? Será que pode ser a gente mesmo? E se eu dormir no ponto e deixar ela passar, ir embora? E se ela se for para sempre, para sempre levando o outro pedaço de mim? E se eu nasci para ser sozinho?”.
Acontece que a alma gêmea é um sonho humano, seja para os céticos, para os humildes ou para os espiritualistas. Todos possuem esse vazio a ser preenchido, vazio que se nasce com ele para ser preenchido. Vazio cujo nome mais comum é solidão. Almas gêmeas é assunto controverso e sua discussão é a que cada um faz consigo mesmo. Seja como for, não há como escapar da verdade de que, mesmo que de vez em quando, sentimos a necessidade de achar essa peça faltante, uma válvula no coração para fazer com que o sangue corra mais ávido por nossas veias.
