Thursday, June 30, 2005

Sabe-se lá né...

Gente, os texto são ficcionais.
De mentirinha.

Sunday, June 12, 2005

Infância

- Mentira.
- Mas por que é que você não quer acreditar que eu já estive lá com Deus, que eu lutei com São Jorge e que eu visitei os doentes com São Francisco de Assis?
- Porque você está confundindo tudo. São Francisco também já morreu.
A conversa fluía já há meia hora e não saíam desse impasse. A menininha estava vestida como uma boneca. Já o menino, parecia um homenzinho com sua roupa de missa.
- Mas eu fui.
- Foi nada.
- Você nem sabe para onde eu fui.
- Sei sim, você disse que foi para a Lua.
- Mas eu fui.
- Não foi.
- Fui sim, fui para o setor YZ.
- Como assim? Setor YZ?
- Sim, é a parte que tem água lá na Lua.
- Você está falando mentira e isso é pecado.
- Não é mentira e nem é pecado. Por acaso é pecado ir à Lua?
- Não, mas...
- Então! Fui à Lua e no setor YZ tudo é bonito. As pessoas andam com umas roupas estranhas. E a gente se sente leve, sabe? Acho que é o melhor lugar para fazer dieta. A comida de lá também é muito gostosa. Tem muita água também lá no setor YZ. Mais água que no nosso mar. Dizem por lá que ela veio das lágrimas do Dragão.
A bonequinha já começava a desconfiar de sua própria certeza. Ele fornecia tantos detalhes e afirmava tudo com tanta confiança. Será que ele tinha ido mesmo? Ficou calada, esperando para ouvir mais. Ele, percebendo que começava a convencer, continuou.
- As lágrimas vieram quando São Jorge o matou. Dizem que nessa hora ele se arrependeu das coisas malvadas que ele tinha feito e chorou. São Jorge estava feliz porque agora tinha paz na Lua.
- Aí você está mentindo – disse ela se levantando com um sorriso no rosto e um dedo em riste, havia pegado ele no flagra.
- Por que? – disse ele levantando-se também com os punhos cerrados.
- São Jorge não poderia estar feliz porque o Dragão morreu.
- Ah não? Por que não? Ele sempre quis matar o Dragão!
- Porque se o Dragão tivesse morrido, São Jorge ia ficar sem mais nada para fazer. Ia ficar tudo sem graça e ele ia ficar triste.
- Mas agora ninguém mais tem medo no setor YZ!
- Pode até ser, mas ele ia ficar triste.
- Como você sabe disso?
Sentou-se novamente no meio-fio abraçando os joelhos. Como ela ia dizer que também ficava triste quando ele ia embora e ela não tinha mais ninguém para brigar desse jeito.
- Porque eu sei, ué.
Ele continuou em pé e agora tinha os braços cruzados, que, juntamente com uma expressão de deboche, tornava-o irritante.
- Você precisa explicar.
- Ah, então como é que você chegou na Lua, hein?
- Muito simples.
- Ah é?
- Deus me levou lá.
- Pára de colocar Deus no meio das suas mentiras.
- São verdades.
- Não são e Ele não gosta.
- Quem disse?
Pensou um pouco. Aí resolveu jogar o mesmo jogo, levantou os olhos e disse sorrindo:
- Ele me disse.
- Mentira.
- Quem te disse?
Deu-se por vencido.
- Vamos tomar sorvete?
- De morango?
- Não, sorvete de morango é de menina.
- Por quê?
- Porque é cor-de-rosa.
- Nossa, mas você é tão bobo.
- Como você chama de bobo um homem que lutou com São Jorge?
- Mentira...

Saturday, June 11, 2005

O Gato, o Sonho e a Liberdade

Então o gato que havia cruzado a estrada, de repente, resolveu uivar para a lua nascente. Aquela mesma que lembrava o sorriso do gato da Alice, mas o coelho nao passou correndo apressado para lhe lembrar das horas e ele perdeu a noção do tempo. Estava apaixonado pelo ar que respirava assim como o apaixonado se apaixona pela imagem do amor ideal. Ficou a uivar para a lua nascente até o amanhecer ou nascer do sol. Mas nascer do sol, daqueles que a gente vê no horizonte mesmo, ele não viu. Só viu os raios que chegavam mas não aqueciam, porque o vento era constante e a manhã na verdade é fria. Andou por sobre o orvalho dos poetas que jazia sobre a grama e lembrou-se novamente de que era um gato. Parou de uivar e seus pêlos se eriçaram como quem toma um choque elétrico. Subiu no muro com a graça de ninjas japoneses e sentou-se com o rabo em pé. Ficou a olhar o dia que clareava como Napoleão na batalha de Waterloo: o imperador perdia seu mundo, mas não perdia sua magestade. De repente, ele voltou e veio acordar o garotinho com as patas sujas e o pêlo úmido. Sei lá por onde ele andou, pensou. Ah, essa liberdade de ir e vir do gato, continuou. Também queria uma assim só para ele. Mal ele sabia que era o gato quem uivava nos seus sonhos. Mal ele sabia que o gato também só tinha meia liberdade, pois tinha que voltar para comer. Mal ele sabia que o reinado do gato terminava quando a noite resolvia ir viajar para o outro lado do mundo...

Friday, June 03, 2005

As suas verdades

Mas que verdade foi essa? Se eu pudesse voltar no tempo, será que eu escolheria saber? E o que escolher agora? Essa verdade ou todas as outras? Tenho dormido como nunca. É o meu único consolo. Quando acordo, tenho uma sensação de ter sido anestesiada. Mas aí volta tudo de novo. Sua imagem. Seus olhos fixos no chão. Não conseguiam encontrar os meus. E então vejo como um filme sua boca descrente se abrindo e fechando, como num movimento involuntário. As palavras, que não pareciam pertencer a esse mundo, ainda ecoam na minha mente. Vão e voltam para me atormentar durante à tarde, a manhã e também no jantar, no almoço, no banho e no travesseiro.

Então ela era bonita. E você disse que ela parecia te completar de um jeito diferente. O beijo em si, a princípio, não me importou nem um pouco. O que me mais me torturou foi imaginar você brincando com ela do mesmo jeito que brincava comigo. Imaginar que você lhe concedia um sorriso que era só meu. Vocês foram cúmplices. Não, não quero mais pensar nisso. Pensar no que me faltou, que não fui bastante. Será que a culpa foi minha? Ela te tentou, te atraiu. E você me traiu. Já está feito agora, não está? Aconteceu e agora eu sei. Fico com raiva, choro muito, choro escondido e depois esqueço.

Apenas para mais tarde lembrar da sua ilógica razão que dizia que não deixou de me amar por um só momento. Apresentava suas lágrimas como prova. Dizia ainda mais: que foi um erro, que tudo só serviu para mostrar que eu era a única. Encenação. Eu via tudo como uma encenação, não só suas lágrimas, como também toda a nossa história. Os lábios dela sentiram os seus lábios, lábios que me contaram essa verdade que você não conseguia mais esconder. Se não confio mais nos seus lábios, por que confiaria em seus olhos e lágrimas?

A sua verdade me revelou a mentira que vivemos. A sua verdade apagou toda a verdade por trás da mentira. Apagou todos os seus beijos de boa noite. Colocou uma sombra naqueles dias em que você atravessava a cidade só para vir almoçar comigo. Deu um gosto amargo aos sorvetes que a gente tomava na praia enquanto eu reclamava que estava ficando gorda e você me dizia para eu não me preocupar, pois eu era a mais linda do mundo. Eu nem duvidava, porque esse tinha que ser o motivo pelo qual você me agüentava falar horas e horas sobre astrologia, signos e estrelas.

Então eu me confundo e começo a desconfiar dessa sua verdade, que me faz dissecar nossa amizade e nossa paixão em busca de falhas, erros e indícios de que não era mesmo para ser. Que verdade egoísta é essa que não consegue conviver com a verdade de que você foi o único dentre muitos que teve a paciência de me tirar de dentro de mim mesma? De que você foi aquele que lutou por mim? Uma luta que eu esperava há muito tempo que alguém achasse digna de tentar.

Você disse e repetiu que a sua verdade não escondia a sinceridade do seu amor. Será que sou eu a errada de achar que um amor sincero tem que ser perfeito? Mas será que foi amor? Sua verdade me diz que foi mentira. Sua verdade ofuscou todas as outras que você mesmo criou. O que foi de verdade? Não sei. O que fazer para apagar essa verdade autoritária e indelével dos seus lábios? Ela era bonita. Você também fez ela rir. Angustiada, julgo se você foi infiel ou apenas humano. Nesses dias cheios de noites vazias, fico eu aqui sem saber em qual das suas verdades acreditar.

Thursday, June 02, 2005

Mãe

Acordou com o frio. Estava com fome. Olhou os meninos que desciam de uniforme do ônibus. O estômago doía. Talvez fosse a água da fonte que havia tomado na noite passada. Levantou-se e começou a andar sem um rumo certo. Pensou em pedir dinheiro para comprar comida, solução a que já tinha se acostumado. Sua mãe dizia que saco vazio não pára em pé.

Aproximou-se de um dos garotos que descia do ônibus. Assustou-se com o olhar assustado do outro, que, percebendo a aproximação, já começava a recuar e procurar outro caminho. Ficou triste. Sentiu-se humilhado. A humilhação logo se tornou uma raiva que não pôde conter. Quando menos esperava, já estava repetindo as palavras que ouvia todos os dias na rua saindo da boca de outros como ele: Passa tudo. Sobressaltou-se com a própria atitude. Ficou com medo de si mesmo e da reação do outro. Ficou mais violento: Rápido, rápido.

O outro garoto, cujas lágrimas de raiva e medo começavam a se precipitar, dizia que não tinha nada de valor. Num impulso, jogou sua mochila no chão e correu em direção ao colégio. Mecanicamente, o mais novo assaltante pegou a mochila no chão e também correu, mas no sentido oposto. Quando julgou estar longe o suficiente, parou. Respirava ofegante. Estava desacreditado. Havia quebrado uma barreira. O que diria sua mãe? Mas a adrenalina havia passado e agora seu estômago chamava novamente. Olhou a mochila. Buscou dinheiro e comida naquele objeto que lhe parecia uma conquista profana. Achou uma maçã e comeu satisfeito.

Notou alguns cadernos que lá estavam. Abriu um qualquer. Lia letra por letra e não entendia nada. Viu alguns números e tentou se lembrar do que tinha começado a aprender. Seu vizinho de rua, um velhinho louco, apareceu batendo sua lata velha e suja. Ainda estava vazia. Passou-lhe a mão na cabeça e abriu um sorriso desdentado. Apenas um louco para ser feliz nessas condições, pensou o menino. Entretanto, gostou do toque e sentiu-se tocado. Mãe.

Voltou ao caderno. Continuava sem entender e por isso ia ficando impaciente. Impotência. Fechou-o com raiva. Já ia largando tudo no chão, até que se recordou dos olhos assustados do garoto de uniforme. Mãe. Não seria o monstro que aqueles olhos enxergavam. O que fazer agora? Mãe. Um pouco relutante, dirigiu-se à escola. Devolveria aquilo que não era seu.

No meio do caminho passou por uma tenda mística, da qual uma mulher gritava que resolvia qualquer problema e fazia qualquer trabalho. E ainda trazia de volta a pessoa amada. Mãe. Mas logo seus pensamentos deram um sorriso de escárnio. Não acreditava nisso. Nem rezar ele rezava mais: estava cansado de decepções e não queria brigar também com Deus.

Chegando à porta do colégio, reparou uma movimentação. Havia alguns policiais e, atrás deles, o garoto de uniforme apontava acovardado para ele. Deixou-se levar pelas mãos duras. Sabia que um dia isso ia acontecer. Sentiu-se melhor quando os olhos do garoto de uniforme deram lugar a uma expressão de piedade pura. Havia entendido que ele afinal não era um monstro. As duas crianças viram uma na outra o espelho daquilo que poderiam ser ou ter sido. Voltou à realidade pelo bater de portas do carro. Mãe? Mãe! Imaginou seu olhar de decepção. Pelo menos isso ela não teria que ver.