Saturday, August 20, 2005

Sintomas do Medo

O silêncio era tão profundo que parecia conduzir o som das batidas do seu coração pelo mundo inteiro. Engoliu os pensamentos desesperados imaginando que talvez ele pudesse ouvi-los também. Os braços tremiam. As pernas tremiam. Pensou que se tentasse, não conseguiria colocar-se de pé. Não sabia nem como havia conseguido correr até ali. Uma força a impulsionara e, estranhamente, a mesma força agora a mantinha estática numa pesada escuridão. Desconsolada, estava a se perguntar se ele ainda a procurava. Bem que avisaram para ela não andar sozinha a essas horas da noite, principalmente por essas ruas. Tudo estava fechado. Havia se escondido nesse vão, sendo guiada mais pelo instinto do que qualquer outra coisa.
Ouviu passos. Começaram rápidos e foram desacelerando à medida em que soavam mais próximos. Fechou os olhos, apenas para continuar a não enxergar. Escutou e estavam perto. Muito perto. Ele a iria descobrir. Seria agora. Pressionou a cabeça contra os joelhos e agarrou firme seus próprios tornozelos. Foi então que o som parou. Ele a havia encontrado. Por alguns momentos ainda não escutou nada. Esperou durante os piores e mais demorados segundos de sua vida. Talvez fosse possível que ele não houvesse encontrado e nem a encontrasse. Pediu com todas as forças que isso fosse verdade. Recorreu a toda esperança e fé que tinha e não tinha. Mas ele iria ouvi-la. Ela tinha certeza. Seus pensamentos estavam falando alto demais. Sua mente acelerou-se e num instante já não pensava ou raciocinava mais. Predominava apenas o desejo de que as coisas voltassem ao normal. Apenas queria estar bem longe dali, ou que ele fosse embora.
Talvez ele realmente a tivesse ouvido, pois os passos recomeçaram. Baques no chão que ecoavam sob um céu sem luar foram se tornando menos espaçados e mais distantes. Quando o silêncio voltou, dessa vez trazendo boas novas, ela soltou um suspiro quase inaudível. Percebeu que havia prendido a respiração o tempo todo. Notou que as unhas machucavam a pele e relaxou um pouco as mãos que prendiam os tornozelos. Ainda encolhida, levantou a cabeça e abriu os olhos. Tomava cuidado para não fazer nenhum movimento brusco. Podia ser que ele voltasse. Não se mexeu mais. Ali permaneceria até o amanhecer. Ou mais: até que alguém a achasse. Permaneceria até quando se retirasse a ameaça do perigo que enrijecia cada centímetro do seu corpo .

Sunday, August 14, 2005

Conjecturas

A lua branca escondida entre nuvens pretas, como que retirada de um quadro.
Será que isso é poesia?
O vento de inverno que me congela o rosto pela manhã.
Será que isso é poesia?
O porteiro mal-humorado que não me dá bom dia.
Será que isso é poesia?
Desde que ele lhe partiu o coração, ela me disse que está melhor, que agora cabe mais.
Será que isso é poesia?
O sol que me deixa ver a poeira pairando no ar como um pó mágico de fadas invisíveis.
Será que isso é poesia?
Uma luta que dura mais de trinta anos e que convencionaram chamar de casamento.
Será que isso é poesia?
Uma nota de advertência ao menino que dormiu na aula da professora errada.
Será que isso é poesia?
Aquele exercício de matemática impossível que o professor resolveu em cinco minutos.
Será que isso é poesia?
Esse seu sorriso de quem ficou tempo demais procurando oásis no deserto.
Será que isso é poesia?
Essa minha maneira de escrever de quem tenta e não consegue.
Será que isso é poesia?
O filme que era para ser o máximo e só valeu pela pipoca.
Será que isso é poesia?
A esmola que você deu no sinal outro dia sem saber se ia fazer diferença.
Será que isso é poesia?
Aquele dia em que você não viu o carro passar e foi quase atropelado.
Será que isso é poesia?
Ele que queria ser jogador de futebol da seleção brasileira.
Será que isso é poesia?
Ela que mora sozinha e conversa com as pessoas na fila do banco.
Será que isso é poesia?
O seu beijo que se encaixou tão perfeitamente nos meus lábios e foi embora.
Será que isso é poesia?
Palavras que mereciam ser ouvidas e saíram numa crise de gagueira.
Será que isso é poesia?
Esse texto que não diz nada e tudo ao mesmo tempo, sem saber para onde ir.
Será que isso é poesia?
Palavras que não passam de códigos para descodificar essa realidade.
Será que isso é poesia?
Sua amizade que nem pretendia sê-lo e que me ensinou o que era amizade.
Será que isso é poesia?
Uma citação do rodapé que, dentro do livro de seiscentas páginas, abriu portas e mundos.
Será que isso é poesia?
Dois olhares que se encontram e se compreendem apenas pelas circunstâncias.
Será que isso é poesia?
Um soco de esquerda que fez brotar o sangue do adversário.
Será que isso é poesia?
A doença injusta, a morte incerta e a violência que amedronta.
Será que isso é poesia?
Esse sono, esse cansaço e essa vontade de viver.
Será que isso é poesia?
O efeito blasé dessa rotina louca, cheia de incógnitas e variáveis.
Será que isso é poesia?
A diferença entre o acordar no mundo e o levantar da cama.
Será que poesia é vida?

Apresentação

Paulo parou o carro tentando controlar a nostalgia que lhe acompanhava desde sua entrada na cidade. Ela agora crescia de forma desproporcional diante da casa que observava atentamente. O tempo se fazia notar nas pinturas desgastadas pelo sol e pela arquitetura já um pouco ultrapassada, mas fora isso tudo continuava do jeito que ele se lembrava. O jardim bem cuidado, as janelas abertas e o barulho que vinha de dentro mostravam que a vida ali não havia parado e, sem anunciar-se, o conforto daqueles que regressam se misturou com a sensação de não pertencimento dos forasteiros.
Desceu do carro distraído, pois seus esforços se concentravam em ignorar a importância que aquele momento merecia. Retornava à sua cidade depois de vários anos de estudo, de construir a vida que nunca quis na capital. Fora diferente dos outros jovens, pois não buscava os sonhos do grande espaço urbano. Edificar a carreira para ele significava servir no inferno ao invés de reinar no céu da cidadezinha que chamava de lar. Apesar disso, fez o que diziam que tinha de ser feito e agora podia gabar-se do topo dos arranha-céus. Até o presente dia apenas havia se comunicado com sua família através de cartas e mais tarde de telefonemas, quando o dinheiro começou a aparecer. A hesitação e a as ocupações do dia-a-dia o mantiveram lá por mais algum tempo até o seu atual retorno. Já estava abrindo o portão que se introduzia no meio de muros baixos, próprios dessas construções daqueles dias em que as pessoas não tentavam ou não precisavam se esconder do mundo lá fora, quando ouviu alguém lhe chamar:
- Filho!
O impacto daquela palavra o deteve no mesmo instante. Passou depois a procurar a origem daquela voz. Procurava seu pai e quando o achou do seu lado, tão próximo, assustou-se por tê-lo confundido com um transeunte qualquer. Estava mudado, é claro. Mas será que era mesmo claro? Os cabelos brancos não combinavam com a imagem que ele guardava na sua mente. Apenas sua mania de achar que seus pais nunca iriam envelhecer é que não mudava nunca. Lembrou-se da primeira vez em que a vida lhe sacudiu mostrando que os anos também passavam para eles. Não foi quando começaram a precisar de mais remédios nem quando começaram a repetir suas proezas de novo e de novo. Era ainda adolescente quando, ao entrar numa loja procurando por sua mãe, a vendedora lhe apontou-a perguntando se era aquela senhora ali. Senhora? Mas sua mãe não era nenhuma senhora. Era sua mãe, simplesmente muito jovem para ser chamada de senhora. Assustado, olhou não só para sua eterna mãe, como também para a senhora que ali se encontrava.
Riu da ironia que seu modo de ser havia tramado com a vida, pois acreditava que normalmente são os pais que nunca mudam a imagem que possuem dos filhos. Ainda estava absorvendo toda a confusão que nele se instalava quando deparou-se com o abraço do pai de um jeito que nunca havia experimentado antes. Não tinha esquecido a chantagem paterna que podia ser evocada naquela hora pelo terno caro que usava. Tudo bem que ser alguém na vida não era tão ruim no final das contas, porém entristecia-se pensando que as coisas poderiam ter sido diferentes. O orgulho dos pais pelos filhos às vezes custava caro demais. Naquele abraço, entretanto, conseguiu comungar daquele orgulho através da saudade melancólica que os dois sentiam.
A despedida no dia em que saiu de casa para fazer sua vida tinha até então soado como um adeus. Adeus que tinha sido a resolução inegociável de brigas e discussões intermináveis sobre o curso de sua própria realidade. Ele foi construir seu arranha-céu porque lhe impunham que aquele era o lugar mais próximo do sol. Felizmente, o rancor gerado naquele adeus agora era interrompido por um abraço indicativo de uma compreensão daquele mal-entendido que agora se confundia com amor. Um bem-querer embaralhado com egoísmos de desejos não realizados de uma forma apenas mais perfeitamente denominada humana.
Arrependimentos de ambas as partes não deixavam de existir no abraço que se desfez no mesmo impulso em que havia surgido. Concordavam, e se não concordavam, entendiam, e se não entendiam, queriam superar as diferenças das posições colocadas por um frente ao outro até aquele momento. O tempo perdido precisava ser recuperado. Acima de tudo, importava era o regresso Paulo e isso foi traduzido no grito de seu pai:
- Beatriz, o caçula está de volta!
Essa declaração chocou-o mais do que poderia prever. Simplesmente soava falsa. O caçula não estava de volta, havia ficado para trás no chão de terra batida. Mesmo se estivesse, não voltaria jamais. Apenas pode-se voltar a onde já se esteve e o lugar no qual tinha estado não existia mais. Pressentia a imensidão de mudanças a serem encontradas. A vida fazia traços no papel de contornos inesperados e voltas surpreendentes, mas não girava em círculos. O caçula asisstia de longe, havia ficado para trás, vislumbrando sem nunca apreender o que poderia ter sido caso a relação de forças e de força de vontade fossem outras. Doutor Paulo era uma pessoa nova num lugar novo, mas familiar. Chegava para reconhecer uma família saudosa e ser reconhecido por ela, a sua saudosa família.

Friday, August 05, 2005

Promessas

“Vem, que hoje o dia está bonito”, disse ela eufórica mal a porta havia sido aberta. Mas ele nem se movimentou. E de repente, ela confirmou sua suspeita inicial de que o sorriso dele não fora tão solto como de costume. Nem tentou um beijo. “O que aconteceu?”, foi a pergunta que ela fez e que ele esperava que ela fizesse. Ele sabia que não podia adiar mais. Sentia um certo incômodo. Queria que ela percebesse logo que estava tudo acabado e já há algum tempo. O relacionamento continuava devido à sua indecisão e até mesmo covardia. Por um momento pensou que talvez não devesse ter alimentado tantas esperanças, pois ali, em pé, com uma expressão de dor antecipada no rosto, ela aguardava a resposta.

“Acho que nosso momento passou” e, percebendo que alguma lágrima pudesse se aventurar, continuou: “Foi muito bom enquanto estivemos juntos, vou levar lembranças suas sempre comigo”. Ela permaneceu parada, olhando-o nos olhos sem realmente vê-lo. Era como se houvesse levado um soco no rosto. Estava atordoada. Não sabia o que fazer diante das notícias, nem da razão que dizia toda orgulhosa um bem que eu avisei. Pensou em argumentar, insistir na persistência da relação. Entretanto, tudo que fez foi olhar para ele calada, atônita.

Diante dessa reação, ele não soube o que dizer a não ser: “Desculpa”. Não conseguindo quebrar aquele mutismo, reforçou: “Desculpa, desculpa, desculpa”. Havia perdido as palavras, nem sabia ao certo porque usava aquela entre tantas do dicionário. A verdade é que de algum modo ele entendia que quebrava expectativas, algumas até que havia cruelmente gerado. Pedia desculpas por não poder corresponder ao que ela esperava dele e por ter contribuído em certa quantidade na criação de um sofrimento desnecessário. Pedia desculpas a si mesmo por ser a razão do sofrimento de alguém.

Ela, por sua vez, lutava corajosamente contra a sensação de haver sido traída. Traída, pois o que para ele eram expectativas, para ela eram promessas. Promessas que misturavam sonho e realidade agora lhe eram arrancadas imperiosamente por fatos tão evidentes. Promessas tácitas. Promessas confusas. Promessas seladas. Promessas acidentais. Falsas promessas. Perguntava-se se haviam realmente existido ou apenas haviam sido imaginadas. Estava em conflito. Não sabia se podia escolher a raiva e não queria a dor.

Desculpa. A palavra, que ecoava na sua cabeça, parecia vinda de outro mundo. Aquilo não significava nada. Não consertava nada. Apenas concretizava: estava tudo acabado. Quis sair dali imediatamente ao dar-se conta de que estava parada em pé em frente ao apartamento de alguém que agora lhe parecia muito diferente. Não quis saber os motivos, nem como e nem quando. Talvez porque pensasse que já sabia. Mentiu e se espantou quando as palavras não saíram roucas de sua boca: “Tudo bem”. Ainda trocaram alguns convencionalismos, numa tentativa de andar com segurança em terra firme após um terremoto.

Ela virou-se para ir embora e não chorou. O corte profundo, que fora aberto ao poucos em episódios semelhantes, já estava tão grande que ela se recusava a enxergá-lo. Ele estava aliviado e decepcionado consigo mesmo. Então era assim que as pessoas acabavam se machucando. Não tinha sido por acaso que tentou evitar esse momento por tanto tempo. Porém, mesmo separados, ambos haviam sido jogados no mesmo sentido. Tinham pensamentos parecidos. Prometiam-se nunca mais acreditar em promessas ou mesmo fazê-las.

Filosofia de Vida(de Bar)

Jornal Estado de Minas - 05 de Abril de 2005. Antes de qualquer pessoa começar a ler esse texto, que ela saiba que até hoje eu me pergunto como eu tive coragem de publicar uma porcaria dessas. Coloquei ele aqui em homenagem à minha familia que fica toda orgulhosa dessas coisas e aos meus amigos lindus e maravilhosos que me apoiam até nessas coisas sem cabimento e que me fizeram pagar maior mico esse dia(eu perdoei)! Amo vocês!

A gente consegue definir apenas metade de nossa vida.Talvez nem isso.Acordamos e já somos arrastados por um monte de ações e reações de um mundo em constante movimento, que nos empurra para frente, leva para trás, joga de um lado, de outro e nos levanta para depois nos fazer cair ao chão.Em meio a isso tudo, tentamos viver essa vida tão comumente comparada a um caminho ou estrada. Muitas pessoas apenas sobrevivem como vegetais levadas pelo tumulto do dia-a-dia e pela multidão.Não gosto desse tipo de coletividade.Eu queria ver a esfera maciça se explodindo em várias direções e sentidos, sem sentido.E, depois, os pontos se juntando harmonicamente em formas irregulares, altamente inovadoras e não passíveis de qualquer análise ou estatística.As pessoas definiriam o mundo e não o mundo definiria as pessoas.
Enquanto isso não acontece, alguns tentam timidamente apontar aquele caminho da direita ou da esquerda: "Será que dá para voltar?" Às vezes, demorando horas numa encruzilhada ou nunca saindo de lá.Um sorriso vem ao rosto quando vejo raros tipos remando contra a maré.Dá vontade até de acompanhar, mas isso seria seguir o caminho deles e não o meu.Até mesmo esses, às vezes, não se dão conta de que são apenas sócios majoritários em suas vidas.São escolhas de um caminho que se impõem.
O pouco controle de cada um se confunde com o pouco controle de outros de uma maneira tão incompreensível que alguns até pensam que definem suas próprias vidas.Já no meio do caminho, de repente, o mundo nos empurra para descidas íngremes demais, morros muito altos ou curvas fechadas.Não se pode nem espiar e há de se escolher.
Bom é ter alguém para ir de mãos dadas, compartilhando o medo de mãos suadas e estômago sem gravidade: "Não larga da minha mão!" Às vezes, é preciso andar para frente mesmo quando as pessoas especiais ficam para trás, às vezes para nunca mais voltar.No final da estrada, as costas já estão curvadas e os calcanhares quebrados.Saudade pesa e a terra é dura.Um dia eu ainda fico assim.
Minha bagagem só aumenta, mas não dispenso nem as tralhas. Aí, quando ela estiver muita pesada ou quando já não houver chão para andar, eu volto meu sujeito para terceira pessoa e tento tirar algumas lições para aqueles que ainda têm uma alma inteira para preencher.

Thursday, August 04, 2005

O Mundo

Que medo.