Saturday, July 02, 2005

O ano 2000

Quando é que acontece, eu não sei. Mas acontece. De repente, a vida que se apresenta como uma sucessão de acontecimentos e planos tão demorados, momentos tão inesquecíveis, dores tão inexoráveis, simplesmente passa. A gente, então, tem a impressão de que foi tudo muito rápido. Às vezes, até mesmo de que nada mudou. Doce ilusão, é só cavar um pouco mais fundo para poder achar um passado denso e em constante ebulição. Mas o que é que dá na gente outros dias em que estamos tão envolvidos no nosso presente e no nosso ser que pensamos que o futuro nunca vai vir? O que faz a gente acreditar que nossas rotinas e que o nosso tempo e espaço continuarão os mesmos?

Digo isso porque quando era criança, duvidava muito que o ano dois mil fosse chegar. E se algum dia fosse chegar, ia demorar muito! Eu costumava ir a um clube e lá eles diziam que havia um projeto de construção de um novo parque aquático no ano dois mil. Isso era motivo de riso entre meus irmãos e primos. Achávamos graça daquela tentativa conspiratória dos empresários do clube de nos enganar. Afinal, o ano dois mil era o ano das coisas impossíveis. Dizíamos felizes nos jogos de totó ou mesmo de vôlei: “Você só ganha de mim no ano dois mil”. Crianças têm certeza de que vão ser criança para sempre. O que você vai ser quando você crescer? A resposta é um sonho.

Mas não foi que o ano dois mil chegou? Contra todas as minhas expectativas da infância. Chegou e quando assim o fez eu já nem lembrava mais do seu caráter de sacralidade. A não ser pelas previsões apocalípticas, ele passou como mais um ano novo. Só mais tarde, quando voltamos ao clube aquático, numa conversa sem rumo com a minha irmã, foi que recordamos daquela época e admiramos com naturalidade nossa inocência. Não me deixo enganar, eu sei que essa inocência do presente eterno vai e volta, como num movimento dialético. Não poderia ser diferente.

Deve ser claro que a consciência da vida que não pára e dos dias que chegam e passam não veio pela primeira vez nesse dia, mas muito antes. Já me sobressaltou algumas vezes em períodos turbulentos, nos quais eu rezava para que o tempo parasse. Hoje não me ocorrem essas bobeiras. A vida segue e tem que seguir. Caso contrário, não seria vida.

E agora? O tempo que passou parece curto e, no entanto, minha infância parece longe. Sou obrigada a dizer que não me vejo adulta de maneira alguma. Mal posso acreditar nos meus dezenove anos. Até acho que deveria ter uma postura mais madura e não consigo. Digressões à parte, só acredito que sou adulta quando olho para dentro e admiro e amo a criança que fui. Quando conheço essa criança é que acredito que o ano dois mil pode chegar. Quando conheço a criança que fui é que percebo que não preciso temer o ano dois mil, pois quando ele chegar ele já pode nem ter mais o significado que tem agora.

Termino este texto sem saber exatamente sobre o que escrevi, pois me parece que escrevi sobre uma miscelânea de sensações e sentimentos. Um deles, que vem me acometendo esses dias, é que toda essa história de tempo não faz sentido algum. Mas delego isso aos físicos. Fico por aqui e deixo parte da música que considero a trilha sonora da minha infância: “Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená/ Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar/ Basta imaginar e ele está partindo, sereno e lindo/ e se a gente quiser ele vai pousar”.

2 Comments:

At 7:26 PM, July 02, 2005, Anonymous Anonymous said...

Nossa Lu, adorei esse texto.. Eu tambem nao me sinto adulta, nem tenho mais os antigos sonhos de crianca (infelizmente)... as vezes queria voltar no tempo e ficar la para sempre.. aonde a felicidade era palpavel e a vida, uma eterna aventura.. As coisas vem ficando monotonas e impossiveis ultimamnete.. espero q tudo passe.. Desabafei agora, ne? Eh isso q da ler seus textos.. rsrs.. faz a gente pensar em coisas importantes q as vezes ficam de lado..
Bjoks,
Lary

 
At 6:53 AM, July 06, 2005, Anonymous Anonymous said...

Oi Lu, so pra nao perder o costume: EU LI OS SEUS NOVOS TEXTOS!!!!!
Bem, concordo com vc, eu acreditava que quando fizesse dezoito anos aconteceria algo meio que "mágico" e eu ganharia confiança e segurança (não teria medo de nada nem de ninguem); seria uma pessoa seria e desinibida... -doce ilusão- agente quer tanto crescer e nem se da conta de como a infancia e prazeirosa. Tambem nao me sinto muito adulto, ainda tenho os mesmos temores de um garoto de 14 anos que fez algo de errado e espera pela bronca dos pais!
E isso!!
Beijos Neto...

 

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