O ano 2000
Quando é que acontece, eu não sei. Mas acontece. De repente, a vida que se apresenta como uma sucessão de acontecimentos e planos tão demorados, momentos tão inesquecíveis, dores tão inexoráveis, simplesmente passa. A gente, então, tem a impressão de que foi tudo muito rápido. Às vezes, até mesmo de que nada mudou. Doce ilusão, é só cavar um pouco mais fundo para poder achar um passado denso e em constante ebulição. Mas o que é que dá na gente outros dias em que estamos tão envolvidos no nosso presente e no nosso ser que pensamos que o futuro nunca vai vir? O que faz a gente acreditar que nossas rotinas e que o nosso tempo e espaço continuarão os mesmos?
Digo isso porque quando era criança, duvidava muito que o ano dois mil fosse chegar. E se algum dia fosse chegar, ia demorar muito! Eu costumava ir a um clube e lá eles diziam que havia um projeto de construção de um novo parque aquático no ano dois mil. Isso era motivo de riso entre meus irmãos e primos. Achávamos graça daquela tentativa conspiratória dos empresários do clube de nos enganar. Afinal, o ano dois mil era o ano das coisas impossíveis. Dizíamos felizes nos jogos de totó ou mesmo de vôlei: “Você só ganha de mim no ano dois mil”. Crianças têm certeza de que vão ser criança para sempre. O que você vai ser quando você crescer? A resposta é um sonho.
Mas não foi que o ano dois mil chegou? Contra todas as minhas expectativas da infância. Chegou e quando assim o fez eu já nem lembrava mais do seu caráter de sacralidade. A não ser pelas previsões apocalípticas, ele passou como mais um ano novo. Só mais tarde, quando voltamos ao clube aquático, numa conversa sem rumo com a minha irmã, foi que recordamos daquela época e admiramos com naturalidade nossa inocência. Não me deixo enganar, eu sei que essa inocência do presente eterno vai e volta, como num movimento dialético. Não poderia ser diferente.
Deve ser claro que a consciência da vida que não pára e dos dias que chegam e passam não veio pela primeira vez nesse dia, mas muito antes. Já me sobressaltou algumas vezes em períodos turbulentos, nos quais eu rezava para que o tempo parasse. Hoje não me ocorrem essas bobeiras. A vida segue e tem que seguir. Caso contrário, não seria vida.
E agora? O tempo que passou parece curto e, no entanto, minha infância parece longe. Sou obrigada a dizer que não me vejo adulta de maneira alguma. Mal posso acreditar nos meus dezenove anos. Até acho que deveria ter uma postura mais madura e não consigo. Digressões à parte, só acredito que sou adulta quando olho para dentro e admiro e amo a criança que fui. Quando conheço essa criança é que acredito que o ano dois mil pode chegar. Quando conheço a criança que fui é que percebo que não preciso temer o ano dois mil, pois quando ele chegar ele já pode nem ter mais o significado que tem agora.

2 Comments:
Nossa Lu, adorei esse texto.. Eu tambem nao me sinto adulta, nem tenho mais os antigos sonhos de crianca (infelizmente)... as vezes queria voltar no tempo e ficar la para sempre.. aonde a felicidade era palpavel e a vida, uma eterna aventura.. As coisas vem ficando monotonas e impossiveis ultimamnete.. espero q tudo passe.. Desabafei agora, ne? Eh isso q da ler seus textos.. rsrs.. faz a gente pensar em coisas importantes q as vezes ficam de lado..
Bjoks,
Lary
Oi Lu, so pra nao perder o costume: EU LI OS SEUS NOVOS TEXTOS!!!!!
Bem, concordo com vc, eu acreditava que quando fizesse dezoito anos aconteceria algo meio que "mágico" e eu ganharia confiança e segurança (não teria medo de nada nem de ninguem); seria uma pessoa seria e desinibida... -doce ilusão- agente quer tanto crescer e nem se da conta de como a infancia e prazeirosa. Tambem nao me sinto muito adulto, ainda tenho os mesmos temores de um garoto de 14 anos que fez algo de errado e espera pela bronca dos pais!
E isso!!
Beijos Neto...
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