Maria do Jorge
Aconteceu a primeira guerra mundial, cujo desfecho levou à segunda, que antecedeu a guerra fria, que caiu com o muro, dando lugar a um certo otimismo, que se provou ingênuo antes mesmo da queda das torres.
Sob um céu risonho e límpido, eram os tempo da república velha, à qual se sucederam os primeiros anos vargas, que inventou um novo estado, o qual deu lugar a conturbadas democracias, que foram trocadas por uma ditadura, que não resistiu à redemocratização.
Sobre um chão muito mais tangível e mais denso, nasceu minha Vó, que se casou, teve nove filhos, ficou viúva, viu nascer incontáveis netos e bisnetos e morreu aos 96 anos de idade, deixando uma família de órfãos.
E eu sinto muito, com toda a literalidade da expressão e com toda a força de uma saudade que está aqui, a esperar uma nostalgia preste a me abalar, e que já me abate e me arremessa a um futuro em que eu posso dizer adeus aos meus tempos de menina.
Mas eu ainda me lembro de estar sentada com minha Vó, minhas mãos nas mãos dela, mãos estas que traziam tão nitidamente a passagem do tempo num corpo frágil de uma mulher que usou batom pela primeira vez em seu último ano de vida, no dia do casamento de um dos netos.
A Vó criou raízes profundas nesse bairro onde moram meus pais e na casa onde minhas primas e eu fazíamos bolos de terra com os ovos das galinhas criadas ali mesmo. A Vó fazia biscoitos, gostava do getúlio vargas e preferiu o cobertorzinho que minha mãe surrupiou do avião ao presente colorido que lhe trouxemos da viagem do México.
E eu vou sentir falta de ir pra casa da Vó e de gritar "ô de casa" já esperando como resposta um semblante de alegria. Uma alegria por vezes triste, né, Vó? Eu notei sim a tristeza nos Seus olhos úmidos, que talvez confundiam a alegria de ver a meu irmão e a mim com um medo da consulta médica que estava marcada para dali a uma hora e que poderia condenar a Senhora a mais uma temporada no hospital.
Depois de o telefone tocar de madrugada e de entregar a maldita notícia já esperada, eu rezei em despedida: "Bença, Vó, fica com Deus". Eu pedi honestamente ao Mundo para que a Senhora estivesse junto de todos os santos que a Senhora tanto admirava.
E agora eu olho para dentro e lá está a Senhora plantando em mim um atestado de vida e de óbito. É sim, eu tenho a impressão de que meus tempos de vida nesse mundo um dia vão me matar de saudades.

3 Comments:
Lindo, Lu!
Lindo, Lu...
chorei por vc e por mim...
saudade! bjins!
Pati
Eu quase não me lembro da minha avó. Eu tinha quatro anos quando ela se foi. A única imagem que sobrou era dela sentada no rabo do fogão de lenha, esquentando fogo. Muitas vezes ela me tomava no colo. Eu preferia ficar revolvendo as brasas e, às vezes, minha mãe trazia alguns grãos de pipoca, que eu estourava e salvava das chamas. Tinham gosto de cinza, mas era bom.
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