Sono e Vigília
Sunday, October 08, 2006
A Fuga
- Não consigo achar onde eles colocaram nossos suprimentos dessa vez. – outra voz respondeu agitada.
- Não faz tanto barulho! Desse jeito não vamos conseguir fugir. E cuidado! Da outro vez eles nos acharam quando você derrubou aquela jarra de vidro. – falou a primeira voz num misto de comando e experiência.
- Será que nós devemos mesmo fazer isso? Eles vão ficar bravos e pode ser pior. -interrompeu uma terceira voz.
- Agora não é hora de dar para trás! É a nossa chance! – voltou a se fazer ouvir a primeira voz. – Foi muita sorte achar o esconderijo das chaves...
- Achei! – interrompeu a segunda voz tentando conter a emoção. – Andem, antes que eles acordem! Está tudo pronto?
- Sim! – foi a resposta em uníssono.
- Então vamos! – e podia-se ouvir a euforia nos passos que se seguiram.
Meia hora depois uma mulher se levantava da cama pra tomar um copo d’água. Estava com dificuldades de dormir, atrapalhavam-na o calor e o pensamento de que talvez tivesse sido rigorosa demais. Quando voltou da cozinha, reparou que a porta de um dos quartos não estava completamente fechada. Terminou de abri-la apenas para achar uma cama vazia. Verificou os outros cômodos e seu instinto levou-a a verificar a dispensa da cozinha. Em seguida voltou ao seu quarto, beliscou o pé do marido e anunciou com resignação:
- Meu bem, os meninos fugiram para o quarto da piscina de novo. Eu disse que essa história de castigo de ir dormir cedo não funciona mais... Ah! E descobriram onde colocamos os pacotes de biscoito.
As possibilidades
O fato de as pessoas serem contraditórias por natureza é uma afirmativa recorrente, acompanhada muitas vezes de elogios ou decepções. Um número infinito de vontades convergentes e divergentes se insere em corpos que são a um só tempo frágeis e fortes, gerando os impasses mais interessantes. Muitas dúvidas surgem quando se contrapõe aquilo que deve ser feito e o que se quer que seja feito. Neste ponto surge o questionamento se aquilo que deve ser feito deve realmente ser, já que a natureza e os sentimentos indicam o caminho oposto, ou o atalho fora do caminho. Impõe-se, assim, o momento solitário e necessário da decisão entre os desejos de ordem subjetiva e os de ordem objetiva. Tudo se torna ainda mais complicado quando se percebe que é um desejo individual fazer parte da ordem objetiva. Nada mais bonito do que descobrir que o chamado dever ser acontece com o reconhecimento do próximo, com o encontro de dois mundos, com a percepção da própria sociedade. Esse momento de escolha pode então mudar o próprio dever ser caso se opte por ignorá-lo e, na medida em que isto se faz, o indivíduo também molda o coletivo da mesma maneira em que este provoca e altera o indivíduo. O mundo muda os homens e os homens mudam o mundo. A contradição, dessa maneira, não é ruim por si mesma, faz parte dessa interação constante. No entanto, o convívio do homem na sociedade ou mesmo com ela é ainda mais complexo do que isso, tendo em vista que viver é um eterno posicionamento diante ou dentro dela. A vida toda é uma escolha, mesmo que se escolha o conformismo. Daí a procura pelo porto seguro no nacionalismo, no conservadorismo e na tradição. Tentam se ver livres do processo arriscado e cansativo da interação com mundo por meio da definição. Nesse vai e vem, tentamos nos localizar dentro de um mundo inconstante, que gera tanta insegurança. A pergunta quem sou eu geralmente termina com uma definição pelo que não se é. Isto por sua vez corresponde a não se definir de modo algum, pois ainda se está ridiculamente aberto a um mar de possibilidades. No entanto, as pessoas tentam. Querem circunscrever sua existência pelo fato de serem nacionais de um certo país, pelo gênero, idade, opção sexual, por serem civis, militares, por serem cultos, por serem burros, inteligentes, estudiosos ou não, sérios ou de sorriso fácil, pobres ou ricos. Acabam por escravizar-se por exclusão ao invés de se libertar na semelhança e num caminho de escolhas em aberto. As pessoas são contraditórias.
