Saturday, February 19, 2005

Quinze Minutos

Quinze minutos, ele disse. Olhou decidido para a mala e depois para a porta. Pelo menos tentou. Não só os olhos fugidios como também as sobrancelhas arqueadas transmitiam um ar perdido e triste. Mas definitivamente estava decidido. Não, ele não ia mais agüentar aquela tortura de ter de satisfazer cada desejo dela, não mesmo. Ele não ia agüentar mais aquela ânsia de ter que se provar de novo e de novo que estava à altura dela. Ela tinha quinze minutos para dar um motivo, um motivo sequer pelo qual ele devia ficar. Lembrou de quando foi na padaria mais cedo. Sentia mais prazer em comprar o bolo inglês que ela tanto gostava do que qualquer coisa para ele. Esse simples pensamento o colocou de volta sentado no sofá. Passou a mão pela cabeça. Naquele momento se deu conta. Começou a ficar inquieto e bater os pés no chão. Não tinha jeito. Aquela tortura dava sentido à sua vida. Levantou-se. Foi quando realmente a viu. Sentada, os braços entrelaçavam as pernas. A boca muda semi-aberta dizia mais coisas do que os livros poderiam transmitir. Quando as lágrimas começaram a descer ele teve certeza. Ela estava tão perdida como ele. E muito mais perdida sem ele. Ali, sentada, ela fazia um pedido. E ele atendeu.

Friday, February 18, 2005

A arte de ser pela metade

Eu não quero. Eu não vou. Eu não fico. Eu não posso. Eu não agüento. Eu não consigo. Eu não entendo. Eu não suporto. Eu não supero. Eu não imagino. Eu não tolero. Eu não sinto. Eu não acredito. Eu não penso. Eu não raciocino. Eu não esqueço. Eu não lembro. Eu não me importo. Eu não desejo. Eu não luto. Eu não ouço. Eu não vejo. Eu não me calo. Eu não falo. Eu não sonho. Eu não...
Eu me nego.

De volta pra casa

Entrei no ônibus e sentei do lado de uma mulher, dessas que a gente vê na rua. O motorista, normalmente um louco que pensa que dirige uma montanha-russa, estava estranhamente calmo. Talvez fosse a música. O ônibus ia tranqüilo, como se esperasse pela chuva. A mulher do meu lado cantava, acho que estava apaixonada. Talvez o morotorista também estivesse apaixonado. Vai saber.
Eu fiquei lembrando de você. Gosto de pensar que estou deitada no seu colo e adormeço, e você cuida de mim. Espero que nenhum psicólogo leia isto aqui. Custo a escrever um texto mais íntimo e alguém treinado em ler segredos chega aqui e revela todos os meus?
Mas eu não sou reservada, acho. Só acho que dividir problemas não é encontrar a solução. Hoje não foi o que posso chamar de um dia bom. Quase me afoguei em superficialidades e autopiedade. Isso vem de más decisões. E complexos... e defeitos... Arrogância, por que eu não posso admitir que também tenho defeitos?
A mulher não cantava bem, mas eu gostava de ouvir ela cantar. Não me lembro mais que música era, mas o que importa.
Continuando, um amigo meu me disse uma vez que eu sou perfeccionista. Falou que tenho medo de errar e que minha timidez vinha disso, dessa arrogância. Hum. Minha timidez faz o meu perfeccionismo ou o meu perfeccionismo faz a minha timidez?
Mas minha irmã disse que os tímidos pensam que são o centro das atenções. Egocêntricos. Olha só, sou arrogante duas vezes. E amanhã não devo fazer o que pretendo, impedida por minha arrogância e auto-piedade. Ah. Chamem um psicólogo, por favor.

Friday, February 11, 2005

Sobre essa arte

Preciso dizer que há uma bonita e intrigante cumplicidade entre as mulheres. Isto é, quando elas se descobrem mulheres apenas e deixam toda aquela competitividade boba de lado. Uma vez, um amigo meu me perguntou se eu concordava com Vinícius de Moraes quando ele dizia da tristeza de se saber mulher, feita apenas para amar.

Talvez eu concorde com ele agora. Somos criadas para sentir, de um modo que desperta e incentiva a nossa sensibilidade. Temos o costume de nos apaixonar em grupo. De contar para as amigas cada detalhe, cada sensação que ele despertou hoje quando estava vestido com aquela blusa branca horrorosa que ele também usou na quinta-feira à tarde da semana passada.

Possuímos certas peculiaridades, comuns a todas mulheres e fonte de uma conexão meio subliminar. Aquela coisa que não aparece e que não precisa ser dita, mas que podemos entender com um olhar ou um simples comentário.

Como outro dia, entrei no elevador com a minha mãe e logo após entrou uma mulher de sua idade, talvez um pouco mais nova. Logo ela começou a falar do calor que estava sentindo. A ascensorista comentou que o dia estava quente mesmo. Mas a mulher continuou falando, num tom bem-humorado, de como a sua filha não entendia alguns dias em que ela sentia esse calor que quase nada refrescava. Então, minha mãe e a ascensorista comentaram rindo: “Ah, desse calor nós sabemos!”. Para as pessoas perdidas e mal-informadas: estou falando da menopausa.

A gente também se entende quando vê aquelas supermulheres na televisão, sem um defeito à vista. A gente se entende quando vê a passagem do tempo deixando marcas no rosto da mãe ou a amiga ganhando uns quilinhos a mais nesse mundo que valoriza tanto(às vezes parece que somente) a juventude e a beleza, principalmente a feminina. A gente sente.

Nós sabemos como controlar mesmo tendo uma posição mais submissa. Sabemos o poder da auto-estima e como ele influi na sensualidade. Sabemos como somos complicadas de lidar apesar de termos desejos tão simples. Nós choramos junto com a mocinha do cinema quando ela descobre que estava sendo traída. Sabemos o quanto podemos ser grandes e o quanto podemos ser destrutivas. Precisamos de respeito e chocolate. E acima de tudo, não estou sendo romântica nem ingênua ao afirmar, que temos necessidade de amar.

Thursday, February 10, 2005

Mais um dia

Escândalo. Que outra palavra seria mais adequada para uma cena como aquela? Escândalo. Era isso que todos tinham na cabeça. De bocas abertas e olhos atentos cada pessoa se transformava no mais cruel e inflexível dos juízes. Grandes atores, com certeza. Inatos. Todos sabiam muito bem o que aparentar para disfarçar a alegria incontida de se sentir moralmente superior. Sorriam por dentro diante da obscenidade repugnante da cena. Entretanto, por mais que tentassem, jamais conseguiriam enganar uns aos outros. Como seres humanos, podiam detectar o que o próximo sentia.
Uma boa história para contar e fingir indignação mais tarde, durante o jantar com a família. Para onde vai este país, diriam. Ou suas variações: o mundo está um caos, não se pode mais confiar nas pessoas e os bandidos estão soltos. Daí a conversa partiria para incompetência da política. Logo logo, já estariam falando das notícias do telejornal. Comentariam a entrevista daquela atriz famosa da novela das oito. Com o corpo dela na memória, muitas pessoas evitariam a sobremesa – finalmente uma atitude. Iriam dormir se sentindo bem em relação à vida que levavam. Meio temerosos, agradeceriam.
Enquanto isso não acontecia e o tempo não passava, o corpo do garoto jazia praticamente nu sobre a calçada, com cinco cortes no peito. Os policiais chegariam logo e limpariam aquele incômodo da rua e das mentes das pessoas. Ah. Durante a noite, antes de dormir, os grandes juízes também se sentiriam um pouco desconfortáveis. Que fina agulha era aquela debaixo de todos os colchões e almofadas? Talvez fosse a consciência da culpada satisfação. Ou a tristeza de uma natureza humana que se achava tão fraca.