Sunday, May 29, 2005

A louca normalidade

Ontem fui ao cinema ver "A Queda", um filme que retrata as últimas horas de Hitler. Senti medo. Não importa se as cenas específicas eram verídicas ou não. O essencial foi demonstrado: as pessoas envolvidas no regime nazista. Fiquei impressionada ao perceber como eles realmente acreditavam no que estavam fazendo. Loucura. Essa crença em algo tão errado e irreal se apresentou para mim como loucura.

Mas eram loucos sãos. Pessoas inteligentíssimas, cheias de sentimentos e emoções. Pessoas que amavam, riam, sofriam e choravam. Simplesmente humanas. Mas quem disse que a maldade se apresenta com dois chifres e um rabo? A Veja criticou o filme, dizendo que foi a tentativa de humanizar um monstro. Crítica pseudo-intelectual que apenas mostra que não o compreenderam. O que eu percebi foi justamente o contrário: esses vislumbres de humanidade só acentuavam a monstruosidade do todo. Dava medo pensar que eram "gente como a gente".

Perderam-se numa idéia completamente errada e se acreditavam certos. Mas parecia tão natural. Todo mundo fazia e todo mundo pensava assim. Matavam pelo chamado nacional-socialismo. Morriam se acreditando heróis na defesa de uma causa superior. É claro que muitos não tinham idéia da extensão do mal. Mas a própria secretária de Hitler, uma dessas pessoas, disse que a ignorância não era desculpa. Ser jovem não era desculpa. Sim, foram responsáveis por não procurar saber. Até hoje somos responsáveis por isso. Tratamos de produzir e manter nossa própria ignorância. É mais fácil assim.

Meus pensamentos não podem deixar de ligar o passado ao presente. Fico me perguntando se não estamos também nos perdendo por uma idéia ruim em sua natureza, mas que se apresenta da forma mais simples e ingênua. Nos rendemos a um sistema que divide a riqueza no mundo e inclusive em nosso próprio país. Um sistema cruel. Um sistema que mata. Mata de fome e também retira a liberdade.

Posso estar exagerando na comparação, mas digo sem cautela que fazemos apologia a uma forma da maldade. Devíamos reconsiderar nosso padrão de normalidade. Quando será que ele vai ser considerado um absurdo? Quanto tempo vai levar? Talvez quando esgotarmos os nossos recursos naturais. Quais são os nossos heróis? O acionista rico desta ou daquela multinacional? Ser jovem não é desculpa. Não saber também não é. Ignorância é escolha, ainda mais nos dias de hoje. Vamos parar e nos questionar. Questionar o mundo. O nazismo só foi possível com a contribuição de cada um. Afinal, o todo não existe sozinho, ele é formado de cada uma das partes. Talvez eu esteja errada, mas que ao menos tenhamos cuidado com nossas crenças e atitudes.

Obs.: Sim, eu sou radical, e eu também me perco nessas coisas, mas isso não é totalmente sem sentido.

Sem Consolo

Eu chorei. Chorei de desejo, de vontade. Chorei como uma criança que não ganha seu brinquedo. Quis demais. Quis naquela hora. Foi simplesmente a externalização de uma extrema vontade que não podia ser saciada. Então eu chorei. Chorei de impotência. Do decepcionante querer e não poder. Chorei porque não queria mais imaginar e sonhar. Porque queria o toque, o alcançar. Uma vez que fosse eu queria o real, mesmo que depois ele permanecesse numa viva lembrança. Chorei e as lágrimas, estas sim, foram palpáveis. Eu quis da forma mais pura e patética. Eu tive uma vontade insuprimível e irremediável. Acima de tudo, incontrolável e incontível. Mas eu não podia. Não podia. Então eu chorei.

Thursday, May 19, 2005

Trajeto - Parte 2

Ah não. Hoje não vou à aula. Não vai fazer falta. Só um dia. E está tão frio lá fora. Seis e meia. Melhor levantar. Nada na geladeira. Ah! Tem o pão que eu comprei ontem. Ele. Será que eu o vejo lá hoje? Nossa, a prova! Agora já não dá mais para estudar. Quando eu chegar tenho que lavar a louça. Também tenho que comprar manteiga. Tenho que me apressar. Roupa? Que roupa? A blusa rosa, já que hoje eu devo ver ele. Mas eu a usei na sexta. Então vou com a azul mesmo. Pensando bem, a azul não, estou meio gordinha. Melhor a preta. O telefone tocou ontem à noite. Será que era minha mãe? Ela não liga desde sábado. Que falta que faz, nem pensei que fosse ser assim. Sandália? Tudo bem. Tenho que me arrumar, certo? Mas pelo menos as mais confortáveis. Que água fria. Assim dá até preguiça de lavar o rosto. Sete horas. Se eu correr, pego carona. Chaves, cadê as chaves? Que bom, a Ju está saindo agora de casa. A mãe dela parece estar simpática hoje. Então ela também não estudou para a prova. Nenhum congestionamento. Realmente, também acho que a prova não vai estar muito difícil. As mesmas fofocas. Ai, mais um dia de aula. Chegamos cedo. Ué, cadê a Ju? Que desastre! Subir as escadas é uma coisa fácil para as pessoas normais. Por que eu tinha que derrubar tudo no chão? Essas mãos são de... Ele! Aposto que meu sorriso deve estar ridículo. Aliás, ridículo é tropeçar na escada. Meu obrigado não era para sair nesse tom. Meu telefone? Realmente meu telefone? Calma. Só falar os números calmamente. Finja naturalidade. Finja naturalidade. Pelo menos o restante da conversa foi normal. Só que me esqueci de perguntar o telefone dele. Agora tenho que esperar ele ligar. Ele me pediu meu telefone! Meu telefone! Será que ele não vai querer ligar porque eu não peguei o telefone dele? E agora? Corredor vazio. Estou atrasada. A professora não está com uma cara boa. Nossa! A prova!

Tempo tempo tempo

Preciso de tempo, tempo, TEMPO! As coisas que quero fazer já não cabem no espaço de um dia. Fico imaginando se caberão no espaço de uma semana, de um mês, de um ano, de uma vida.

Procura-se

Aqui era o lugar da história. Mas ela se recusou a ficar. Fugiu. Foi para o pico de uma montanha nos Alpes suíços. Desceu elegante de esqui pela neve. Pegou carona nas águas de um rio até evaporar-se e atingir o céu. Choveu na Espanha, confortando os catalães de um sol escaldante.

Logo se cansou do hoje. Resolveu ir visitar o passado. Foi quando começou a entender o que se passava no presente. Mas depois de um tempo pensou ser tudo muito repetitivo e pouco original. Então viajou para o futuro. Gostou das novidades. Assustou-se com algumas. Vangloriou-se das coisas que já previra. Percebeu outras que nunca poderia ter imaginado. Admitiu seus erros e limitações. O futuro não era tão óbvio assim.

Abatida, voltou para o hoje, para o terreno das possibilidades. Encantou-se. Ficava feliz só de observá-lo. Entretanto, também viu as barbaridades que nele se passavam. Indignada, contou-as a quem quisesse ouvir. Entretanto, foi ficando triste. Ninguém prestava atenção.Resolveu tirar uma folga. Comprou as passagens e seguiu a estrada da imaginação. Infelizmente, esta se achava congestionada. Ficou presa entre a realidade e a ficção.

Corri para alcançá-la, mas ela se disfarçou de princesa e se escondeu num conto de fadas. De lá, não precisou andar muito para chegar no mundo dos sonhos. Estando em território conhecido, consegui encontrá-la. Mas eu me perdi no mesmo instante em que ela tomou o rumo dos seus olhos castanhos.

Quando voltei a mim, ela já estava longe. Tinha incorporado um índio num filme do faroeste. Chamei, gritei, mas ela não veio. Pedi com toda a educação. Tentei suborná-la e ela apenas me olhou com desdém. Decidi usar da força. Lacei-a e prendi-a na ponta do lápis. Humilhada, ela não quis colaborar. Então fizemos um trato. Ela me ajudaria se eu a libertasse. Que ingenuidade a minha. Esqueci o quanto ela era volúvel e inconstante. Traiu-me. Agora tenho tentado em vão procurá-la. Mas não acho. Não acho.

Friday, May 06, 2005

Calorias

O que eu como não são calorias vazias, são calorias cheias de gosto!

Thursday, May 05, 2005

Por uma causa perdida

Às vezes eu me esqueço. Uma pessoa é um mundo inteiro. Mas uma pessoa não é o mundo inteiro. Sempre que estudo História me dou conta de como nosso conhecimento e entendimento da vida está limitado ao nosso contexto. Algumas obras escrevem forte no livro do mundo, de modo a marcar várias páginas pela frente. Pois é isso que nós fazemos e que somos. Somos trechos, somos vírgulas da história do mundo e da humanidade. Acrescentamos nossa parte e contribuímos para escrever um texto no qual não consigo visualizar um ponto final.

Somos partes inteiras de um todo infinito. Somos também partes inacabadas, visto que estamos sempre mudando. Apenas pelo prazer de brincar com as palavras eu poderia dizer que somos mudanças que mudam o mundo. E somos. Existimos. Lutamos, aprendemos e conhecemos. Amamos e odiamos esta vida na qual às vezes falta um sentido, uma coerência. Mesmo quem tem uma religião na qual acredita e que explica esse jogo sem regras, não pode deixar de notar a passagem do tempo e o fim da vida do jeito que a conhece. Por mais que elas expliquem, ainda existe um enigma. E o enigma está aí para vir brincar com a gente numa noite sem sono, ou mesmo numa noite sem sonhos.

Colaboramos num projeto maior que nós e no qual não há perspectiva de conclusão. O enigma é parte dele e ele é parte do enigma. Às vezes parece que ele avança, às vezes que retrocede. Talvez esses termos nem mesmo se apliquem. Entretanto, queiramos ou não, somos sua mão-de-obra. Criamos. Inovamos. Destruímos. Fazemos parte dele e ele faz parte de nós.

E então continuamos. Uns por fé, alguns por prazer, outros por instinto ou até mesmo por curiosidade. Seguimos escrevendo nossa história que, mesmo que acabe para nós, deixa seu rastro no mundo. Lutamos como se não fôssemos perder. Vivemos como se não fôssemos morrer. Temos nosso valor como pessoa e nosso valor como história. Todos nós acreditamos na vida de um jeito ou de outro. Vivemos, seja como for. Aí reside o nosso mais puro ato de fé. Vivemos pela vida. Vivemos por uma causa perdida.

Obs.: Para quem não entendeu o espírito do texto, tenho que dizer que não acho a conclusão de modo algum negativa, muito pelo contrário.