Monday, April 30, 2007

A Hora de Voltar

Meia-noite e um no relógio. Ele não podia se lembrar de hora mais solitária. Tinha todos os amigos a um telefonema de distância, tinha a família que com certeza não apenas estaria disposta a ouvi-lo, como também se preocuparia com ele e, por fim, tinha a namorada que neste momento dormia na cama. No entanto, parecia que era o mundo inteiro que se ausentava enquanto ele deslizava num tempo que não passava, naquela noite eterna e silenciosa em que ele temia acordar os vizinhos com seus pensamentos. Olhou para o lado para se certificar de que ela ainda dormia. Tinha um certo receio de ser pego naquele momento de fragilidade. As dúvidas que lhe possuíam eram proporcionais ao número de decisões que vinha tomando em sua vida. Os por quês se sucediam como numa avalanche. Começava por questionar seu estilo de vida, seus relacionamentos, as máscaras e sinceridades do dia-a-dia, sua própria vida, seu caminhar incessante.

Ele já havia se esquecido de como tudo aquilo havia começado. Enquanto as mãos se movimentavam frias em cima do teclado, ele ficava imaginando como seria sua vida se, ao invés de letras, ele possuísse ali, ao alcance do toque, o poder de criar música. No entanto, durante a faculdade, havia trocado as aulas de piano por mais algumas horas de estudo. Trocou um sonho por outro, pelo desejo de mudar o mundo por meio do sucesso na carreira. Seria um jornalista importante e deixaria uma marca igualmente importante no mundo. Afinal, as pessoas precisam estabelecer prioridades em suas vidas e ele precisava crescer, ser responsável e enfrentar a realidade. Havia chegado a hora de fazer sacrifícios.

Desta forma, as notas das provas, que estavam medíocres, melhoraram. Apaixonado pelo jornalismo, logo se envolveu em outras atividades. E foi nessa mesma época que suas obrigações criaram vida própria e, além de tudo, foram concebendo filhotes. Estes, por sua vez, acabavam crescendo e superando os progenitores, impregnando como parasitas aquilo que ele ainda chamava de vida. Suas notas voltaram a cair. Ele soube o motivo, ou pensou saber: ainda não estava se dedicando o suficiente. Desde então, tomar café e acordar com sono passou a fazer parte da rotina. Acabava por fazer pactos consigo mesmo e estabelecer metas que culminavam num nível de exigibilidade maior do que poderia corresponder. Afazeres é uma palavra que descreve muito bem a maneira pela qual ia preenchendo seu futuro com atividades, como se fosse um vício. Nunca estava satisfeito e às vezes tinha a impressão de que nunca estaria. Sempre havia algo a fazer.

A princípio, sentia falta de sair com os amigos. Olhava com inveja aqueles que sabiam levar a vida de maneira simples. Aos poucos, foi isolando esses sentimentos, de modo que sofria cada vez menos com a saudade deles. Nos finais de semana, de qualquer maneira, faltava disposição para sair devido ao monte de coisas por fazer e ao cansaço acumulado. Uma vez ou outra, na fila do banco, ou no ponto de ônibus, ele se questionava se aquilo era necessidade de eterna insatisfação ou auto-sabotagem. Não sabia bem se era vida a cada passo ou se era morte a cada passo.

Engraçado era a sensação de liberdade que sentia. Estranhamente, paradoxalmente, da maneira louca que só esses mamíferos especiais conseguem fazer, gostava do que fazia. Gostava do caminho e gostava do destino. Algo faltava, porém. Algo estava tornando seu sonho cada vez mais distante. Algo havia se perdido e agora as coisas estavam perdendo o sentido. Alguma coisa que tinha a ver com o abrir das janelas, o queimar os olhos com o sol, ouvir música e pensar que tem gente por aí que gosta de você. Era domingo e já havia amanhecido. Desejo e solidão tornaram seus pensamentos na direção dela, no seu sentido exatamente, no sentido que ela havia dado à palavra beijo desde o primeiro dia juntos. Quis então esquecer sua própria existência. Não queria mais saber o que estava acontecendo fora do seu quarto que não dissesse respeito a ela. O amarelo da luz do sol havia brincado na medida certa com o tom de pele dela. A vida cobrou. Ele se rendeu.