Thursday, September 29, 2005

Bossa Nova

Aquele que parecia ser um dos vocalistas ajeitou-se no palco do bar logo após arrumar todos os instrumentos. Enquanto esperava as últimas preparações, fazia brincadeiras animadas com o resto do grupo. Terminadas, pegou o violão e arrumou o microfone como se tratasse velhos conhecidos. Cumprimentou o público com alguma piadinha e foi bem recebido.
Apenas uma mulher em pé ao lado do balcão ao fundo permaneceu quieta. Olhava-o com uma curiosidade desinteressada. Não era tão bonita, mas o cabelo loiro-escuro comprido e o jeito calmo em relação ao seu redor transmitiam uma sensação intensa. Achou interessante, mas ela, ao perceber que ele a observava, passou a percorrer os olhos pelo resto do palco como quem não quer nada. Ele, por sua vez, não se intimidou e não retirou o olhar. Desse modo pôde notar as maçãs do rosto ficando vermelhas naquela pele branca.
O momento não durou muito e logo começou a dedilhar. Seu toque e sua voz deslizaram por todo o ambiente. Ganhou companhia do resto da banda e fez-se a música. Alguns que por ela esperavam levantaram-se imediatamente. Outros, mesmo sentados, também se deixavam embalar. Mas ela, a moça, continuava imóvel, intocada pela música-poema. “Dia de luz, festa do sol”, ele continuou a cantar. Aos poucos, ela foi ficando mais leve, carregada pelo ritmo agradável. O ritmo que foi entrando e alguma coisa dentro dela foi pedindo movimento. Pernas e mãos formigavam, queriam seguí-lo. Desejo que se manifestou em um pé que iniciou uma batida leve no chão.
Divertido pela reação, o cantor sorriu e propositadamente iniciou uma música para ela. O resultado veio sob a forma da garota de Ipanema que lhe tomou o corpo. Ombros ganharam sensualidade e a cintura passou a usar seus contornos de forma adequada. As músicas sucediam-se no tempo e viajavam no ar impregnando a pele clara. Fechou os olhos e a mente desligou-se do seu entorno. Sentiu todos os outros olhos nela, apesar de não saber se isso era bem verdade. Sentiu-se atraente e gostou. Era só ouvido e dançava. E ao dançar, já sorria. O ritmo ligava a mente e o corpo.
Ele gargalhou de felicidade diante da cena. Encantou-se pela falta de jeito dela e ao mesmo tempo pela naturalidade que ele sabia inerente a toda mulher. Quando ela abriu novamente os olhos, foi neles que ele olhou sorrindo, apaixonado. Ela pensou em baixá-los como normalmente faria. Sentiu-se envergonhada ao descobrir que ele compreendia o algo despertado nela. Mas não o fez, pois esse algo havia ganhado liberdade. Impressionada consigo mesma, agradeceu com outro sorriso. Estava apaixonada pelo cantor e fora seduzida pela música.

Um nós sem um eu

A gente se mata aos poucos.
Em dia de manhã feia ou bonita.
Ser suicida é quase natural
Quando em casa tem visita.

Nesse jogo de esconde-esconde,
Qual é a verdade que se mostra?
Sob os pés as pontes se racham
E no abismo a solidão se esboça.

Nós sofremos de nossa infidelidade,
Dessa nossa traição a quem se é,
Num simples consentir mentiroso
Nos damos a um conhecido qualquer.

Assim faz-se o perder-se de si,
Com a cabeça oca; a vida vazia.
E então já nem podemos dispor
Da nossa própria companhia.

Nosso interpretar a realidade
Constitui uma errata constante.
Ilusão e omissão vão construindo
Uma alegoria mirabolante.

Um segue o outro, e o outro?
O outro também segue o um.
Você mais você é igual a nós.
Não há eu em lugar algum.

Thursday, September 15, 2005

Muito obrigada

Às vezes algumas atitudes das pessoas em relação a nós são verdadeiros elogios.

Relato

Penso nele durante todos os cinco dias da semana. É uma vida dura, sabe? Sonho com ele, acordo e mando minhas filhas pra escola. Nunca sei se o dinheiro vai dar, ou se vai ter dinheiro mês que vem. Todo final de semana a gente vai às festas e ganha de trezentos a quatrocentos reais. É melhor do que pegar no batente, porque eu não gosto dessa vida dura não. Trabalhar o mês inteiro para ganhar lá seus trezentos reais. Num é justo não. O problema é que esse dinheiro de barraqueiro é pesado, sabe? E eu não preocupo muito em juntar dinheiro não. Eu ganho, pago minhas contas e tudo. Só que fico preocupada com minhas filhas. A mais velha parece não ter jeito para ser camelô como eu. Outro dia ela chegou falando sobre cidadania. Disse que a professora ensinou isso pra ela no colégio. O problema é que esses professores ficam metendo idéias sem fundamento na cabeça dos meninos. Como é que cidadania vai fazer ela ter o dinheirinho dela? Isso num deve encher a barriga não. Ela tem que aprender que tem que trabalhar. Estudar pra não ser passada pra trás, você sabe. Mas tem que trabalhar que essa vida não é fácil não! E quando acaba a semana nem dá pra beber. Parei com o álcool porque não tinha mais dinheiro pra dar pras crianças. Parei mesmo, nem uma gota mais. Eu sou boa mãe sim. O problema é que eu nunca sei como vai ser mês que vem. Se vai entrar dinheiro. Se o dinheiro vai dar. Você pelo menos tem o emprego garantido, num tem? Pois é. No fim do mês você sabe que pelo menos o salário vai ta lá. Nem isso eu sei. No último show eu vendi muito. Igual eu nunca tinha vendido na vida. Tem que aproveitar enquanto tem festa, você sabe. Aproveitar enquanto tem festa para poder trabalhar, sabe?

Tuesday, September 06, 2005

Cansei

Simplesmente isso. Tô cansada inclusive da culpa que eu sinto toda vez que me canso.

Saturday, September 03, 2005

Palavras

Reparem só: monótono é uma palavra monótona.

Friday, September 02, 2005

O Discurso da Realidade

Estava no último botão do paletó quando o convidaram a entrar no auditório. Ao repassar o discurso na cabeça, lembrava-se dos olhos daquele pequeno menino sem um rumo certo na vida. Mais um refugiado que não acharia um lar em seu novo país nem poderia falar que teve um naquele onde nasceu. Lembrou-se dos olhos desolados de quem havia sido vítima das circunstâncias por tempo demais.
Entrou com passos lentos, ao mesmo tempo em que tentava reconhecer o público com o qual ia lidar. Analisou rostos e roupas daqueles que agora aplaudiam ansiosos. Estavam bem vestidos até demais. Eram estudantes de alguma coisa, já não se lembrava mais. Havia viajado para tantos lugares, divido suas palavras por tantos cantos, que agora estava confuso. Uma voz por dentro corrigiu-o e evitou fazer julgamentos prévios. Ali se encontravam simplesmente pessoas, ou seja, possibilidades.
Ajeitou o microfone com calma e havia tranqüilidade em suas expressões. Lembrou-se do pequeno menino e as palavras começaram a fluir, animadas pela experiência daquele momento que ia se misturando a tantos outros. Militava em organizações não governamentais internacionais desde que começara a trabalhar. Odiava ser chamado de idealista, pois dizia que suas idéias eram concretas e palpáveis. Precisava admitir, no entanto, que faltava uma dose de realidade em seu otimismo. Mas tudo bem, nunca havia sido muito de aceitar a realidade mesmo.
Vez ou outra olhava seus ouvintes nos olhos na busca de estabelecer um maior contato. Alguns balançavam suas cabeças em aprovação, como se reconhecessem verdades em seu rico vocabulário. Outros nem esboçavam reações, acostumados que estavam com aquele tipo de discurso. Era certo que a grande maioria se entusiasmava com sua palestra. Porém, sem saber o porquê, foi-se abatendo.
Afinal, aquilo era o que esperavam dele. Alguém para dizer que vamos salvar o mundo. Não fazia nada mais do que perpetrar a fantasia de que alguma coisa está sendo feita para que um dia as coisas fossem diferentes. Descobriu-se num palco e, portanto, diante de uma platéia. Representava seu papel numa ficção em que somente ele acreditava. Estava ali para sustentar uma ilusão e contribuir com o fingimento de quem já havia inclusive se resignado à sua resignação.
Seu discurso foi ficando oco e por vezes incoerente devido aos pensamentos que corriam a toda velocidade num caminho recém-descoberto. Uma tristeza louca e cheia de raiva tomou conta de seu corpo como se fosse autêntico cansaço. Ele precisava despertar aquelas pessoas, porque a farsa não podia continuar. Mas não sabia como. Aquilo que presenciava e já presenciara tantas vezes, mas nunca compreendera, se tratava de um absurdo.
E da compreensão do absurdo fez-se o desespero. Estava mostrando os dados de crianças africanas aidéticas quando as palavras saíram em gritos: “Elas estão morrendo! Agora! Hoje! Será que vocês estão me ouvindo? O que passa no jornal não é filme nem jogo. Seus hipócritas! Vocês não sabem o mal que fazem! Vocês aceitam! Vocês aceitam!”. As últimas frases ecoaram num auditório silencioso.
Pela ampliação do microfone, podiam ouvir seus murmúrios entre lágrimas. Seus gestos estavam contidos, porém descontrolados, e ele continuava baixinho: “Vocês aceitam, vocês aceitam”. Dois seguranças vieram retirá-lo do auditório e ele, em estado de choque, não ofereceu resistência. Mais tarde a notícia foi divulgada: tratava-se de uma crise de nervos, provavelmente devido ao stress. Nada que alguns tranqüilizantes não resolvessem.
Aconselharam-no a se afastar do trabalho por um tempo. Disseram que não se preocupasse, pois logo tudo voltaria ao normal. Diante dessa última informação, teve outra crise, dessa vez violenta, e tiveram de interná-lo. Houve rumores de que estivesse ficando louco. Parecia não entender a situação. Dizia que não queria voltar ao normal. Berrava pelos corredores do hospital que o normal não era bom.