Num dia útil qualquer, ou inútil, depende da perspectiva, eu, desocupada, desempregada, sentei-me na Praça da Liberdade às 14:00 para ler um livro, esperando dar a hora de um compromisso. Arrumei um banco meio ao sol, meio à sombra, esperando que as coisas se ajeitassem com o passar da tarde. Mais ou menos como a gente faz com a vida. Mal havia me sentado, e passou um homem gritando que ela - não me perguntem quem - havia se matado sozinha e que ele não tinha nada a ver com isso. Ele deu várias voltas na praça, se insentando da culpa, ou parecendo mais suspeito - isso também depende da perspectiva. Ninguém parecia se importar muito, mas acho que é bastante normal que a loucura corra solta, sem causar constrangimento, nem reação.
Comecei a ler, até ser abordada por um grupo de meninos gentis, de uma escola pública. Sim, gentis. Eles me deram uma flor de papel e uma bala, com o intuito expresso, nesses termos, de distribuir gentileza. Pensando se tratar de alguma forma de pedir doações, eu questionei: "mas é só isso?". E eles me explicaram, felizes, até porque estavam na praça, às 14:00, assim como eu, que pequenos gestos possuem grande impacto. Eu agradeci a eles e a todos os outros que, gentilmente, interrompiam minha leitura. Acho que a inocência, geralmente, é gentil. Ou isso, ou meu coração está mais duro.
Continuei a ler meu livro, até que um menino, que, como vim a saber, luta muai-tai, sentar-se ao me lado e perguntar-me as horas. E contou que vinha caminhando desde a rodoviária, perguntou se eu sabia onde ficava a rodoviária, se eu era daqui mesmo e outras coisas mais, dessas que se perguntam na Praça da Liberdade. Falou que estava com uma dor na coxa, que só melhorava quando ele começava a andar. Eu falei para ele ir ao médico e, quando ele disse que iria, perguntei, maternal, quando seria isso, afinal, é melhor prevenir do que remediar. A conversa deu algumas voltas, e ele voltou a caminhar, para aliviar a dor. E talvez estivesse certo, não é caminhando que a gente deixa o sofrimento para trás?
Retomei a leitura... até que - mais uma vez a expressão que limita ou amplia, depende da perspectiva - uma menina se sentou ao meu lado e me perguntou as horas. Ela perguntou também se eu gostava de ler, e eu, se ela estava na escola. Se ela não estivesse, eu ia mandá-la estudar, assim como minha mãe me mandou e assim como mandei o menino ir ao médico. Ela disse que não e, depois de algumas perguntas investigatórias (eu já tinha entrado no espírito de me imiscuir na vida alheia), ela disse que estava com câncer de útero. Ela tem 15 anos. O pai e o irmão cuidam dela e, dia sim, dia não, ela acha que vai sobreviver. Conversamos durante algum tempo. Eu disse que nossos pais são, às vezes, mais imaturos que a gente. Afinal de contas, não consegui nenhuma outra explicação para o fato de a mãe dela não desempenhar a função que o universo lhe imputou. Se não mãe, ela poderia ao menos ser gentil. Afinal, gentileza pode não dar conta de todo o sofrimento desse mundo, mas certamente o alivia.
Capítulos vão se entrelaçando em versos, dando origem a eventos sem rima que nos são perceptíveis apenas nos detalhes. A matemática do colégio ajuda: é como olhar de perto algo que se acredita ser uma reta, mas que não é nada menos do que uma circunferência imensa. Não tem começo. E, por se tratar de uma circunferência, é redundante dizer que não tem fim.
Tudo isso para dizer que, a meu ver – curto e deturpado, porque parcial – essa histórica começa com a moça que deu faxina lá em casa quando eu era mais nova. Tão nova, que eu nem tenho memória dessa época. As únicas lembranças que possuo, ainda em construção, são dos sorrisos dela que, mais tarde, voltou a trabalhar lá em casa e que me olha com a intimidade de quem cuidou de mim e me viu crescer.
E eu disse que ela dava faxina? Eu ando assim, enxergando pouco mesmo.
Ela fez bem mais que isso. Ela ajudou a criar a mim e a meus irmãos. Ela sofreu muito na vida, e sofreu de um jeito que eu, filha da classe média burguesa, nunca vou conseguir entender. Tinha dois filhos. Um deles, sócio do meu pai, morreu há duas semanas na empresa deles, logo depois de chegar trazendo o lanche dos empregados.
E a história acaba aí, num semicírculo. Acaba porque eu não consigo entender por que alguém entraria no armazém naquele dia e daria dois tiros a queima roupa em um homem que agora estava começando a ajeitar a vida, que havia acabado de ficar noivo, que não vai mais ver o neto nascer e que morreu antes da mãe, fadada a ter que carregar mais essa cicatriz.
É circular o raciocínio: surge de um sentimento, segue um caminho, por vezes tortuoso, de trezentos e sessenta graus, e avança para o lugar de onde havia partido. E é aqui em que eu me desencontro: paralisada.
Qualquer gênio diria, num piscar de olhos e do alto de um irônico sorriso de marfim, para eliminar o sentimento. Afinal, é ele que me lança nessa busca irracional - ou racional, eu não sei. Mas, sem ele, o que me restaria?
Aconteceu a primeira guerra mundial, cujo desfecho levou à segunda, que antecedeu a guerra fria, que caiu com o muro, dando lugar a um certo otimismo, que se provou ingênuo antes mesmo da queda das torres.
Sob um céu risonho e límpido, eram os tempo da república velha, à qual se sucederam os primeiros anos vargas, que inventou um novo estado, o qual deu lugar a conturbadas democracias, que foram trocadas por uma ditadura, que não resistiu à redemocratização.
Sobre um chão muito mais tangível e mais denso, nasceu minha Vó, que se casou, teve nove filhos, ficou viúva, viu nascer incontáveis netos e bisnetos e morreu aos 96 anos de idade, deixando uma família de órfãos.
E eu sinto muito, com toda a literalidade da expressão e com toda a força de uma saudade que está aqui, a esperar uma nostalgia preste a me abalar, e que já me abate e me arremessa a um futuro em que eu posso dizer adeus aos meus tempos de menina.
Mas eu ainda me lembro de estar sentada com minha Vó, minhas mãos nas mãos dela, mãos estas que traziam tão nitidamente a passagem do tempo num corpo frágil de uma mulher que usou batom pela primeira vez em seu último ano de vida, no dia do casamento de um dos netos.
A Vó criou raízes profundas nesse bairro onde moram meus pais e na casa onde minhas primas e eu fazíamos bolos de terra com os ovos das galinhas criadas ali mesmo. A Vó fazia biscoitos, gostava do getúlio vargas e preferiu o cobertorzinho que minha mãe surrupiou do avião ao presente colorido que lhe trouxemos da viagem do México.
E eu vou sentir falta de ir pra casa da Vó e de gritar "ô de casa" já esperando como resposta um semblante de alegria. Uma alegria por vezes triste, né, Vó? Eu notei sim a tristeza nos Seus olhos úmidos, que talvez confundiam a alegria de ver a meu irmão e a mim com um medo da consulta médica que estava marcada para dali a uma hora e que poderia condenar a Senhora a mais uma temporada no hospital.
Depois de o telefone tocar de madrugada e de entregar a maldita notícia já esperada, eu rezei em despedida: "Bença, Vó, fica com Deus". Eu pedi honestamente ao Mundo para que a Senhora estivesse junto de todos os santos que a Senhora tanto admirava.
E agora eu olho para dentro e lá está a Senhora plantando em mim um atestado de vida e de óbito. É sim, eu tenho a impressão de que meus tempos de vida nesse mundo um dia vão me matar de saudades.