“Quem é você?”, eu me perguntava ao ouvir aquela voz estranha ao telefone. Não era a mesma pessoa, não podia ser. Ele era agora a personificação do triste efeito da morte sobre os vivos. Era puro sentimento de perplexidade diante do acontecimento inesperado e imutável. Tinha sido um acidente de carro, era o que a voz estranha me relatava ao telefone. Agora ele dormia chorando e se sentia melhor apenas por alguns poucos momentos logo depois de acordar; só até o acontecido retornar de forma veemente à memória. E assim padecia diariamente do choque de redescobrir a morte do irmão. Parecia que ele entraria a qualquer momento pela porta da sala. A família estava desestruturada, faltava ânimo para tudo que antes o motivava. Eu não o reconhecia mais e, nesse momento, por meio da empatia, da compaixão ou simplesmente daquela tristeza toda, a morte também fez seu efeito desalentador sobre mim. Momento da vida de sabor amargo. Consolo? Haveria lenitivo para aquela dor? Eu disse para ele que se desse o espaço e a oportunidade de sofrer o que tivesse que sofrer. Quem sabe com o tempo a dor não se tornaria menos presente, pensei. Disse que eu estava ali. Acabado tudo, desliguei o telefone e remanesceu, junto com gosto de morte na boca, a sensação de ter falado com um fantasma.
Eu sobrevoava. Eu voava sobre todas as formações rochosas lá no fundo. Grécia. Ilhas de origem vulcânica. Respirando por meio de um tubo, eu boiava na superfície com os olhos voltados para baixo, descobrindo uma paisagem completamente nova, outro ritmo, outros barulhos. De repente, um cardume de peixes a cinco palmos de distância. Foi uma hipnose instantânea. Eles nadavam como se estivessem presos em uma caixa imaginária, davam voltas ali dentro, se confundiam uns com os outros, e pareciam não notar minha presença ou não se incomodar com ela. Eles estavam a um braço de distância. Neste momento, eu já havia me esquecido de tudo, até mesmo do meu amigo loiro, alto e de olhos azuis, que nadava a alguns tantos metros de distância. Eles estavam tão perto. Nadavam, dançavam, com as escamas reluzindo ao som da luz refletida por debaixo d’água. Era um privilégio poder observar tão de perto essa natural interação caótica dentro de uma realidade tão longe da minha. Curiosidade. Eu quis tocar. Estendi meus braços. Num movimento só, havia dois corpos se movendo em direções contrárias. O cardume havia se assustado comigo e havia se dispersado pelas águas de seu ambiente natural. Eu, que inocentemente talvez esperasse outra reação, também me lancei para trás. Meu amigo loiro, alto e de olhos azuis, me disse mais tarde que ambos nos assustamos, eu e o cardume. Eu e minha velha mania de criar as expectativas erradas, de não saber ler os sinais, de ansiar, de querer tocar, e de ficar depois assustada olhando para o nada, tentando me lembrar do que tinha antes de querer segurar.