Wednesday, February 22, 2006

Falsa Estática*

Tédio é a sensação estar prendendo momentos de vida num lugar de onde eles não poderão mais sair: no passado.

*A estática diz respeito a um estado de equilíbrio.

Friday, February 10, 2006

Dúvidas sobre a realidade da nossa verdade

"Copérnico havia tirado a humanidade do centro do cosmo; Descartes e Kant afastaram o homem do mundo físico; e agora Darwin sugeria que não passamos de animais."

Karen Armstrong, em Em Nome de Deus

Crenças. Nós acreditamos em tantas verdades, às vezes tão diferentes. Alguns acreditam em extraterrestres, outros acreditam que os ufólogos são uns loucos sem noção da realidade. Alguns acreditam que o homossexualismo é genético, outros já têm certeza de que isso é pecado. Alguns acreditam em Deus, outros são ateus. Alguns acreditam no amor, outros na sina solitária do ser humano. Alguns acreditam no altruísmo, outros acham que este é uma forma mais elaborada de egoísmo.

Há ainda quem desconfie de que não houve viagem à lua, do mesmo jeito que há quem acredita piamente em tudo se coloca num programa de televisão ou num livro. Há pessoas que vêem um sentido na vida, enquanto há outras que não lhe dão crédito e até mesmo renunciam a ela. Há quem pense que coca-light e uns quilos a menos proporcionam felicidade, do mesmo jeito que há gente que se sentiria miserável ao ter que fazer uma dieta.

Verdades. Escolhemos tantas e variadas verdades para nossa vida e assim nos pautamos por elas. Uma verdade vai sucedendo a outra em nosso quebra-cabeça de crenças e este último muitas vezes é um brinquedo que não se encaixa. Nossas crenças suportam nossas verdades e nossas verdades suportam nossas crenças construindo um castelo de cartas que parece formar a ilusão da nossa existência. Qual o peso da verdade no castelo de cada um? Qual verdade não depende do ponto de vista?

Cada um vive de acordo com aquilo em que acredita e de acordo com o que lhe parece fazer mais ou menos sentido. No entanto, essas crenças e essas verdades podem ser tão conflitantes que fazem imaginar não quem está certo, pois pode ser que ninguém esteja, mas qual o valor de uma vida inventada por nós mesmos. E não há como negar que cada um de nós está errado em algum ponto. Se não descobrirmos isso agora, um dia descobriremos ou quem sabe nosso legado descobrirá por nós.

Valores e princípios. Foram tantos que mudaram ao longo da história e são tantos que divergem até hoje. O que está certo? Viver dez anos a mil ou mil anos a dez? Ou será que nenhum dos dois e sim o caminho do meio? Fica a dúvida se algo muda de fato, se faz alguma diferença, se há uma estrela fixa pela qual possamos nos guiar ou se podemos escolher qualquer uma na imensidão da Via Láctea. Fica a dúvida se essa dúvida é pertinente.

A afirmação de que a verdade pode ser uma escolha é ousada e impressionante, mas não é sempre verdade. Talvez seja, há quem acredite que sim. Preocupar-se com essas questões é entrar de olhos vendados num labirinto. Este poderia nos levar a um lugar extraordinário ou nos deixar estáticos numa cruzada impossível. Então escolhemos outro caminho, seja lá para onde ele leve. E assim vamos contornando os grandes mistérios, ignorando a realidade que incomoda com uns cutucões, criando castelos de areia, querendo voar e quebrando o nariz no chão de asfalto, entretendo nossa mente com as mais variadas ocupações, crenças e verdades. Não se ousa ou não se quer encarar o labirinto de frente. Simplesmente vive-se algo que a gente combinou de chamar realidade.

Sobre essas tragédias cotidianas

Nada dá mais raiva do que o agir inexorável do destino, dos acasos e circunstâncias que se fundem num azar de ocasião. Explico melhor. Fazem ebulir o sangue aquelas situações em que não se pode achar um culpado. Pode-se encontrar, no máximo, um bode expiatório. São acontecimentos de pura falta de sorte que acabam por se tornar ainda piores por não ter algo ou alguém a que se possa direcionar sua raiva.

Você tinha acabado de sair do salão com o cabelo lindo quando começou a chuva. Você precisava imprimir seu trabalho da faculdade numa bela manhã, mas infelizmente a impressora resolveu engolir esfomeada todos os papéis. Aquela era a festa do ano! No entanto, foi no mesmo dia que seus padrinhos que moram em Manaus escolheram para te visitar. Um passarinho voou feliz e deixou sua marca numa camisa limpa e passada nos exatos quinze minutos anteriores à sua entrevista de emprego. Você era o próximo na fila do caixa do supermercado, mas de repente a mulher na sua frente começou a reclamar e xingar criando o que chamaremos aqui de pequeno contratempo. Finalmente, você estava atrasado e resolveu ir de carro naquele compromisso justo no Dia dos Estagiários Descontentes de Direito e - imagine só – eles, inspirados pelo simbolismo da data, tinham organizado uma passeata pelo mesmo trajeto que você necessariamente tinha que fazer.

Esses são exemplos inofensivos. A moral da história, entretanto, é sempre a mesma: xingue quem quiser, mas de nada vai adiantar. Você sabe que ninguém em particular é responsável pelo seu infortúnio. Talvez seja até você que numa falta de cuidado simplesmente desencadeou aquele fato imprevisível. O que fazer? Rir desse mundo que junta as peças do quebra-cabeça de forma irracional. Ou isso ou implodir de inconformismo. O que nos leva ao próximo passo em tais situações: conforme-se. Porém só o faça se elas forem incontornáveis e inevitáveis.

Essas reais tragédias cotidianas chegam para formar nosso mau-humor, que será passado para frente e para frente até culminar na guerra do Iraque. Afinal, toda ação tem que ter uma reação, certo?* E é mais certo ainda que você não vai ficar com toda aquela injustiça para você, pois é preciso dividi-la com o próximo. Coitado do próximo, que sofre a com injustiça do outro, o qual foi vítima da única árvore que caiu em cima do carro do colega de trabalho naquele dia de chuva torrencial.

Cuidado! Se você for o alvo do mau-humor alheio, ainda mais se este for resultado de injustiças aleatórias mais provavelmente causadas pela atuação das Leis de Murphy, por favor, reaja. Devolva o ataque sem dó e dê um fim à contaminação ali mesmo. Não seja bode expiatório. Você, vítima, seja feliz pensando que milhares de outros seres vivos sofrem do seu mesmo problema, quem sabe neste mesmo instante. Você tem companhia! E controle-se, ou então não se controle, mas sem jamais esquecer do respeito aos subordinados, atendentes de telemarketing, animais e todos aqueles que têm necessariamente que agüentar você nos seus piores momentos. Não abuse do seu poder nessas situações e deixe os amigos fora disso. Como já dito antes, dê uma risada. Ou um soco na parede.

*Inclusive uma afirmação tão estúpida, você deve ter pensado. Não que eu não concorde com você... No entanto, este texto está calcado em profundas investigações científicas. A qualquer um cabe o ônus de me provar o contrário.