Infância
- Mentira.
- Mas por que é que você não quer acreditar que eu já estive lá com Deus, que eu lutei com São Jorge e que eu visitei os doentes com São Francisco de Assis?
- Porque você está confundindo tudo. São Francisco também já morreu.
A conversa fluía já há meia hora e não saíam desse impasse. A menininha estava vestida como uma boneca. Já o menino, parecia um homenzinho com sua roupa de missa.
- Mas eu fui.
- Foi nada.
- Você nem sabe para onde eu fui.
- Sei sim, você disse que foi para a Lua.
- Mas eu fui.
- Não foi.
- Fui sim, fui para o setor YZ.
- Como assim? Setor YZ?
- Sim, é a parte que tem água lá na Lua.
- Você está falando mentira e isso é pecado.
- Não é mentira e nem é pecado. Por acaso é pecado ir à Lua?
- Não, mas...
- Então! Fui à Lua e no setor YZ tudo é bonito. As pessoas andam com umas roupas estranhas. E a gente se sente leve, sabe? Acho que é o melhor lugar para fazer dieta. A comida de lá também é muito gostosa. Tem muita água também lá no setor YZ. Mais água que no nosso mar. Dizem por lá que ela veio das lágrimas do Dragão.
A bonequinha já começava a desconfiar de sua própria certeza. Ele fornecia tantos detalhes e afirmava tudo com tanta confiança. Será que ele tinha ido mesmo? Ficou calada, esperando para ouvir mais. Ele, percebendo que começava a convencer, continuou.
- As lágrimas vieram quando São Jorge o matou. Dizem que nessa hora ele se arrependeu das coisas malvadas que ele tinha feito e chorou. São Jorge estava feliz porque agora tinha paz na Lua.
- Aí você está mentindo – disse ela se levantando com um sorriso no rosto e um dedo em riste, havia pegado ele no flagra.
- Por que? – disse ele levantando-se também com os punhos cerrados.
- São Jorge não poderia estar feliz porque o Dragão morreu.
- Ah não? Por que não? Ele sempre quis matar o Dragão!
- Porque se o Dragão tivesse morrido, São Jorge ia ficar sem mais nada para fazer. Ia ficar tudo sem graça e ele ia ficar triste.
- Mas agora ninguém mais tem medo no setor YZ!
- Pode até ser, mas ele ia ficar triste.
- Como você sabe disso?
Sentou-se novamente no meio-fio abraçando os joelhos. Como ela ia dizer que também ficava triste quando ele ia embora e ela não tinha mais ninguém para brigar desse jeito.
- Porque eu sei, ué.
Ele continuou em pé e agora tinha os braços cruzados, que, juntamente com uma expressão de deboche, tornava-o irritante.
- Você precisa explicar.
- Ah, então como é que você chegou na Lua, hein?
- Muito simples.
- Ah é?
- Deus me levou lá.
- Pára de colocar Deus no meio das suas mentiras.
- São verdades.
- Não são e Ele não gosta.
- Quem disse?
Pensou um pouco. Aí resolveu jogar o mesmo jogo, levantou os olhos e disse sorrindo:
- Ele me disse.
- Mentira.
- Quem te disse?
Deu-se por vencido.
- Vamos tomar sorvete?
- De morango?
- Não, sorvete de morango é de menina.
- Por quê?
- Porque é cor-de-rosa.
- Nossa, mas você é tão bobo.
- Como você chama de bobo um homem que lutou com São Jorge?
- Mentira...
- Mas por que é que você não quer acreditar que eu já estive lá com Deus, que eu lutei com São Jorge e que eu visitei os doentes com São Francisco de Assis?
- Porque você está confundindo tudo. São Francisco também já morreu.
A conversa fluía já há meia hora e não saíam desse impasse. A menininha estava vestida como uma boneca. Já o menino, parecia um homenzinho com sua roupa de missa.
- Mas eu fui.
- Foi nada.
- Você nem sabe para onde eu fui.
- Sei sim, você disse que foi para a Lua.
- Mas eu fui.
- Não foi.
- Fui sim, fui para o setor YZ.
- Como assim? Setor YZ?
- Sim, é a parte que tem água lá na Lua.
- Você está falando mentira e isso é pecado.
- Não é mentira e nem é pecado. Por acaso é pecado ir à Lua?
- Não, mas...
- Então! Fui à Lua e no setor YZ tudo é bonito. As pessoas andam com umas roupas estranhas. E a gente se sente leve, sabe? Acho que é o melhor lugar para fazer dieta. A comida de lá também é muito gostosa. Tem muita água também lá no setor YZ. Mais água que no nosso mar. Dizem por lá que ela veio das lágrimas do Dragão.
A bonequinha já começava a desconfiar de sua própria certeza. Ele fornecia tantos detalhes e afirmava tudo com tanta confiança. Será que ele tinha ido mesmo? Ficou calada, esperando para ouvir mais. Ele, percebendo que começava a convencer, continuou.
- As lágrimas vieram quando São Jorge o matou. Dizem que nessa hora ele se arrependeu das coisas malvadas que ele tinha feito e chorou. São Jorge estava feliz porque agora tinha paz na Lua.
- Aí você está mentindo – disse ela se levantando com um sorriso no rosto e um dedo em riste, havia pegado ele no flagra.
- Por que? – disse ele levantando-se também com os punhos cerrados.
- São Jorge não poderia estar feliz porque o Dragão morreu.
- Ah não? Por que não? Ele sempre quis matar o Dragão!
- Porque se o Dragão tivesse morrido, São Jorge ia ficar sem mais nada para fazer. Ia ficar tudo sem graça e ele ia ficar triste.
- Mas agora ninguém mais tem medo no setor YZ!
- Pode até ser, mas ele ia ficar triste.
- Como você sabe disso?
Sentou-se novamente no meio-fio abraçando os joelhos. Como ela ia dizer que também ficava triste quando ele ia embora e ela não tinha mais ninguém para brigar desse jeito.
- Porque eu sei, ué.
Ele continuou em pé e agora tinha os braços cruzados, que, juntamente com uma expressão de deboche, tornava-o irritante.
- Você precisa explicar.
- Ah, então como é que você chegou na Lua, hein?
- Muito simples.
- Ah é?
- Deus me levou lá.
- Pára de colocar Deus no meio das suas mentiras.
- São verdades.
- Não são e Ele não gosta.
- Quem disse?
Pensou um pouco. Aí resolveu jogar o mesmo jogo, levantou os olhos e disse sorrindo:
- Ele me disse.
- Mentira.
- Quem te disse?
Deu-se por vencido.
- Vamos tomar sorvete?
- De morango?
- Não, sorvete de morango é de menina.
- Por quê?
- Porque é cor-de-rosa.
- Nossa, mas você é tão bobo.
- Como você chama de bobo um homem que lutou com São Jorge?
- Mentira...

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