Thursday, June 02, 2005

Mãe

Acordou com o frio. Estava com fome. Olhou os meninos que desciam de uniforme do ônibus. O estômago doía. Talvez fosse a água da fonte que havia tomado na noite passada. Levantou-se e começou a andar sem um rumo certo. Pensou em pedir dinheiro para comprar comida, solução a que já tinha se acostumado. Sua mãe dizia que saco vazio não pára em pé.

Aproximou-se de um dos garotos que descia do ônibus. Assustou-se com o olhar assustado do outro, que, percebendo a aproximação, já começava a recuar e procurar outro caminho. Ficou triste. Sentiu-se humilhado. A humilhação logo se tornou uma raiva que não pôde conter. Quando menos esperava, já estava repetindo as palavras que ouvia todos os dias na rua saindo da boca de outros como ele: Passa tudo. Sobressaltou-se com a própria atitude. Ficou com medo de si mesmo e da reação do outro. Ficou mais violento: Rápido, rápido.

O outro garoto, cujas lágrimas de raiva e medo começavam a se precipitar, dizia que não tinha nada de valor. Num impulso, jogou sua mochila no chão e correu em direção ao colégio. Mecanicamente, o mais novo assaltante pegou a mochila no chão e também correu, mas no sentido oposto. Quando julgou estar longe o suficiente, parou. Respirava ofegante. Estava desacreditado. Havia quebrado uma barreira. O que diria sua mãe? Mas a adrenalina havia passado e agora seu estômago chamava novamente. Olhou a mochila. Buscou dinheiro e comida naquele objeto que lhe parecia uma conquista profana. Achou uma maçã e comeu satisfeito.

Notou alguns cadernos que lá estavam. Abriu um qualquer. Lia letra por letra e não entendia nada. Viu alguns números e tentou se lembrar do que tinha começado a aprender. Seu vizinho de rua, um velhinho louco, apareceu batendo sua lata velha e suja. Ainda estava vazia. Passou-lhe a mão na cabeça e abriu um sorriso desdentado. Apenas um louco para ser feliz nessas condições, pensou o menino. Entretanto, gostou do toque e sentiu-se tocado. Mãe.

Voltou ao caderno. Continuava sem entender e por isso ia ficando impaciente. Impotência. Fechou-o com raiva. Já ia largando tudo no chão, até que se recordou dos olhos assustados do garoto de uniforme. Mãe. Não seria o monstro que aqueles olhos enxergavam. O que fazer agora? Mãe. Um pouco relutante, dirigiu-se à escola. Devolveria aquilo que não era seu.

No meio do caminho passou por uma tenda mística, da qual uma mulher gritava que resolvia qualquer problema e fazia qualquer trabalho. E ainda trazia de volta a pessoa amada. Mãe. Mas logo seus pensamentos deram um sorriso de escárnio. Não acreditava nisso. Nem rezar ele rezava mais: estava cansado de decepções e não queria brigar também com Deus.

Chegando à porta do colégio, reparou uma movimentação. Havia alguns policiais e, atrás deles, o garoto de uniforme apontava acovardado para ele. Deixou-se levar pelas mãos duras. Sabia que um dia isso ia acontecer. Sentiu-se melhor quando os olhos do garoto de uniforme deram lugar a uma expressão de piedade pura. Havia entendido que ele afinal não era um monstro. As duas crianças viram uma na outra o espelho daquilo que poderiam ser ou ter sido. Voltou à realidade pelo bater de portas do carro. Mãe? Mãe! Imaginou seu olhar de decepção. Pelo menos isso ela não teria que ver.

1 Comments:

At 3:34 PM, June 15, 2005, Anonymous Anonymous said...

Todas as crianças são iguais, têm sonhos e acreditam em papai noel, mesmo que para alguns o bem velhinho não traga presentes.
Hoje eu tava voltando de onibus e vi um grupo de crianças fazendo malabarismo no sinal. Na sua brincadeira elas estavam felizes, pareciam comigo quando criança (faziam de um brinquedo toda a finalidade dos seus momentos). Contudo, eu me perguntava: Qual o futuro lhes estará reservado! A sorte delas será tao boa quanto a minha!
Perguntas que não tem resposta ou que as respostas me desagradam deixam-me deprimido.
Beijos Neto

 

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