Friday, June 03, 2005

As suas verdades

Mas que verdade foi essa? Se eu pudesse voltar no tempo, será que eu escolheria saber? E o que escolher agora? Essa verdade ou todas as outras? Tenho dormido como nunca. É o meu único consolo. Quando acordo, tenho uma sensação de ter sido anestesiada. Mas aí volta tudo de novo. Sua imagem. Seus olhos fixos no chão. Não conseguiam encontrar os meus. E então vejo como um filme sua boca descrente se abrindo e fechando, como num movimento involuntário. As palavras, que não pareciam pertencer a esse mundo, ainda ecoam na minha mente. Vão e voltam para me atormentar durante à tarde, a manhã e também no jantar, no almoço, no banho e no travesseiro.

Então ela era bonita. E você disse que ela parecia te completar de um jeito diferente. O beijo em si, a princípio, não me importou nem um pouco. O que me mais me torturou foi imaginar você brincando com ela do mesmo jeito que brincava comigo. Imaginar que você lhe concedia um sorriso que era só meu. Vocês foram cúmplices. Não, não quero mais pensar nisso. Pensar no que me faltou, que não fui bastante. Será que a culpa foi minha? Ela te tentou, te atraiu. E você me traiu. Já está feito agora, não está? Aconteceu e agora eu sei. Fico com raiva, choro muito, choro escondido e depois esqueço.

Apenas para mais tarde lembrar da sua ilógica razão que dizia que não deixou de me amar por um só momento. Apresentava suas lágrimas como prova. Dizia ainda mais: que foi um erro, que tudo só serviu para mostrar que eu era a única. Encenação. Eu via tudo como uma encenação, não só suas lágrimas, como também toda a nossa história. Os lábios dela sentiram os seus lábios, lábios que me contaram essa verdade que você não conseguia mais esconder. Se não confio mais nos seus lábios, por que confiaria em seus olhos e lágrimas?

A sua verdade me revelou a mentira que vivemos. A sua verdade apagou toda a verdade por trás da mentira. Apagou todos os seus beijos de boa noite. Colocou uma sombra naqueles dias em que você atravessava a cidade só para vir almoçar comigo. Deu um gosto amargo aos sorvetes que a gente tomava na praia enquanto eu reclamava que estava ficando gorda e você me dizia para eu não me preocupar, pois eu era a mais linda do mundo. Eu nem duvidava, porque esse tinha que ser o motivo pelo qual você me agüentava falar horas e horas sobre astrologia, signos e estrelas.

Então eu me confundo e começo a desconfiar dessa sua verdade, que me faz dissecar nossa amizade e nossa paixão em busca de falhas, erros e indícios de que não era mesmo para ser. Que verdade egoísta é essa que não consegue conviver com a verdade de que você foi o único dentre muitos que teve a paciência de me tirar de dentro de mim mesma? De que você foi aquele que lutou por mim? Uma luta que eu esperava há muito tempo que alguém achasse digna de tentar.

Você disse e repetiu que a sua verdade não escondia a sinceridade do seu amor. Será que sou eu a errada de achar que um amor sincero tem que ser perfeito? Mas será que foi amor? Sua verdade me diz que foi mentira. Sua verdade ofuscou todas as outras que você mesmo criou. O que foi de verdade? Não sei. O que fazer para apagar essa verdade autoritária e indelével dos seus lábios? Ela era bonita. Você também fez ela rir. Angustiada, julgo se você foi infiel ou apenas humano. Nesses dias cheios de noites vazias, fico eu aqui sem saber em qual das suas verdades acreditar.

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