O Gato, o Sonho e a Liberdade
Então o gato que havia cruzado a estrada, de repente, resolveu uivar para a lua nascente. Aquela mesma que lembrava o sorriso do gato da Alice, mas o coelho nao passou correndo apressado para lhe lembrar das horas e ele perdeu a noção do tempo. Estava apaixonado pelo ar que respirava assim como o apaixonado se apaixona pela imagem do amor ideal. Ficou a uivar para a lua nascente até o amanhecer ou nascer do sol. Mas nascer do sol, daqueles que a gente vê no horizonte mesmo, ele não viu. Só viu os raios que chegavam mas não aqueciam, porque o vento era constante e a manhã na verdade é fria. Andou por sobre o orvalho dos poetas que jazia sobre a grama e lembrou-se novamente de que era um gato. Parou de uivar e seus pêlos se eriçaram como quem toma um choque elétrico. Subiu no muro com a graça de ninjas japoneses e sentou-se com o rabo em pé. Ficou a olhar o dia que clareava como Napoleão na batalha de Waterloo: o imperador perdia seu mundo, mas não perdia sua magestade. De repente, ele voltou e veio acordar o garotinho com as patas sujas e o pêlo úmido. Sei lá por onde ele andou, pensou. Ah, essa liberdade de ir e vir do gato, continuou. Também queria uma assim só para ele. Mal ele sabia que era o gato quem uivava nos seus sonhos. Mal ele sabia que o gato também só tinha meia liberdade, pois tinha que voltar para comer. Mal ele sabia que o reinado do gato terminava quando a noite resolvia ir viajar para o outro lado do mundo...

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