O Discurso da Realidade
Estava no último botão do paletó quando o convidaram a entrar no auditório. Ao repassar o discurso na cabeça, lembrava-se dos olhos daquele pequeno menino sem um rumo certo na vida. Mais um refugiado que não acharia um lar em seu novo país nem poderia falar que teve um naquele onde nasceu. Lembrou-se dos olhos desolados de quem havia sido vítima das circunstâncias por tempo demais. Entrou com passos lentos, ao mesmo tempo em que tentava reconhecer o público com o qual ia lidar. Analisou rostos e roupas daqueles que agora aplaudiam ansiosos. Estavam bem vestidos até demais. Eram estudantes de alguma coisa, já não se lembrava mais. Havia viajado para tantos lugares, divido suas palavras por tantos cantos, que agora estava confuso. Uma voz por dentro corrigiu-o e evitou fazer julgamentos prévios. Ali se encontravam simplesmente pessoas, ou seja, possibilidades. Ajeitou o microfone com calma e havia tranqüilidade em suas expressões. Lembrou-se do pequeno menino e as palavras começaram a fluir, animadas pela experiência daquele momento que ia se misturando a tantos outros. Militava em organizações não governamentais internacionais desde que começara a trabalhar. Odiava ser chamado de idealista, pois dizia que suas idéias eram concretas e palpáveis. Precisava admitir, no entanto, que faltava uma dose de realidade em seu otimismo. Mas tudo bem, nunca havia sido muito de aceitar a realidade mesmo. Vez ou outra olhava seus ouvintes nos olhos na busca de estabelecer um maior contato. Alguns balançavam suas cabeças em aprovação, como se reconhecessem verdades em seu rico vocabulário. Outros nem esboçavam reações, acostumados que estavam com aquele tipo de discurso. Era certo que a grande maioria se entusiasmava com sua palestra. Porém, sem saber o porquê, foi-se abatendo. Afinal, aquilo era o que esperavam dele. Alguém para dizer que vamos salvar o mundo. Não fazia nada mais do que perpetrar a fantasia de que alguma coisa está sendo feita para que um dia as coisas fossem diferentes. Descobriu-se num palco e, portanto, diante de uma platéia. Representava seu papel numa ficção em que somente ele acreditava. Estava ali para sustentar uma ilusão e contribuir com o fingimento de quem já havia inclusive se resignado à sua resignação. Seu discurso foi ficando oco e por vezes incoerente devido aos pensamentos que corriam a toda velocidade num caminho recém-descoberto. Uma tristeza louca e cheia de raiva tomou conta de seu corpo como se fosse autêntico cansaço. Ele precisava despertar aquelas pessoas, porque a farsa não podia continuar. Mas não sabia como. Aquilo que presenciava e já presenciara tantas vezes, mas nunca compreendera, se tratava de um absurdo. E da compreensão do absurdo fez-se o desespero. Estava mostrando os dados de crianças africanas aidéticas quando as palavras saíram em gritos: “Elas estão morrendo! Agora! Hoje! Será que vocês estão me ouvindo? O que passa no jornal não é filme nem jogo. Seus hipócritas! Vocês não sabem o mal que fazem! Vocês aceitam! Vocês aceitam!”. As últimas frases ecoaram num auditório silencioso. Pela ampliação do microfone, podiam ouvir seus murmúrios entre lágrimas. Seus gestos estavam contidos, porém descontrolados, e ele continuava baixinho: “Vocês aceitam, vocês aceitam”. Dois seguranças vieram retirá-lo do auditório e ele, em estado de choque, não ofereceu resistência. Mais tarde a notícia foi divulgada: tratava-se de uma crise de nervos, provavelmente devido ao stress. Nada que alguns tranqüilizantes não resolvessem. Aconselharam-no a se afastar do trabalho por um tempo. Disseram que não se preocupasse, pois logo tudo voltaria ao normal. Diante dessa última informação, teve outra crise, dessa vez violenta, e tiveram de interná-lo. Houve rumores de que estivesse ficando louco. Parecia não entender a situação. Dizia que não queria voltar ao normal. Berrava pelos corredores do hospital que o normal não era bom.

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