Relato
Penso nele durante todos os cinco dias da semana. É uma vida dura, sabe? Sonho com ele, acordo e mando minhas filhas pra escola. Nunca sei se o dinheiro vai dar, ou se vai ter dinheiro mês que vem. Todo final de semana a gente vai às festas e ganha de trezentos a quatrocentos reais. É melhor do que pegar no batente, porque eu não gosto dessa vida dura não. Trabalhar o mês inteiro para ganhar lá seus trezentos reais. Num é justo não. O problema é que esse dinheiro de barraqueiro é pesado, sabe? E eu não preocupo muito em juntar dinheiro não. Eu ganho, pago minhas contas e tudo. Só que fico preocupada com minhas filhas. A mais velha parece não ter jeito para ser camelô como eu. Outro dia ela chegou falando sobre cidadania. Disse que a professora ensinou isso pra ela no colégio. O problema é que esses professores ficam metendo idéias sem fundamento na cabeça dos meninos. Como é que cidadania vai fazer ela ter o dinheirinho dela? Isso num deve encher a barriga não. Ela tem que aprender que tem que trabalhar. Estudar pra não ser passada pra trás, você sabe. Mas tem que trabalhar que essa vida não é fácil não! E quando acaba a semana nem dá pra beber. Parei com o álcool porque não tinha mais dinheiro pra dar pras crianças. Parei mesmo, nem uma gota mais. Eu sou boa mãe sim. O problema é que eu nunca sei como vai ser mês que vem. Se vai entrar dinheiro. Se o dinheiro vai dar. Você pelo menos tem o emprego garantido, num tem? Pois é. No fim do mês você sabe que pelo menos o salário vai ta lá. Nem isso eu sei. No último show eu vendi muito. Igual eu nunca tinha vendido na vida. Tem que aproveitar enquanto tem festa, você sabe. Aproveitar enquanto tem festa para poder trabalhar, sabe?

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