Friday, August 05, 2005

Promessas

“Vem, que hoje o dia está bonito”, disse ela eufórica mal a porta havia sido aberta. Mas ele nem se movimentou. E de repente, ela confirmou sua suspeita inicial de que o sorriso dele não fora tão solto como de costume. Nem tentou um beijo. “O que aconteceu?”, foi a pergunta que ela fez e que ele esperava que ela fizesse. Ele sabia que não podia adiar mais. Sentia um certo incômodo. Queria que ela percebesse logo que estava tudo acabado e já há algum tempo. O relacionamento continuava devido à sua indecisão e até mesmo covardia. Por um momento pensou que talvez não devesse ter alimentado tantas esperanças, pois ali, em pé, com uma expressão de dor antecipada no rosto, ela aguardava a resposta.

“Acho que nosso momento passou” e, percebendo que alguma lágrima pudesse se aventurar, continuou: “Foi muito bom enquanto estivemos juntos, vou levar lembranças suas sempre comigo”. Ela permaneceu parada, olhando-o nos olhos sem realmente vê-lo. Era como se houvesse levado um soco no rosto. Estava atordoada. Não sabia o que fazer diante das notícias, nem da razão que dizia toda orgulhosa um bem que eu avisei. Pensou em argumentar, insistir na persistência da relação. Entretanto, tudo que fez foi olhar para ele calada, atônita.

Diante dessa reação, ele não soube o que dizer a não ser: “Desculpa”. Não conseguindo quebrar aquele mutismo, reforçou: “Desculpa, desculpa, desculpa”. Havia perdido as palavras, nem sabia ao certo porque usava aquela entre tantas do dicionário. A verdade é que de algum modo ele entendia que quebrava expectativas, algumas até que havia cruelmente gerado. Pedia desculpas por não poder corresponder ao que ela esperava dele e por ter contribuído em certa quantidade na criação de um sofrimento desnecessário. Pedia desculpas a si mesmo por ser a razão do sofrimento de alguém.

Ela, por sua vez, lutava corajosamente contra a sensação de haver sido traída. Traída, pois o que para ele eram expectativas, para ela eram promessas. Promessas que misturavam sonho e realidade agora lhe eram arrancadas imperiosamente por fatos tão evidentes. Promessas tácitas. Promessas confusas. Promessas seladas. Promessas acidentais. Falsas promessas. Perguntava-se se haviam realmente existido ou apenas haviam sido imaginadas. Estava em conflito. Não sabia se podia escolher a raiva e não queria a dor.

Desculpa. A palavra, que ecoava na sua cabeça, parecia vinda de outro mundo. Aquilo não significava nada. Não consertava nada. Apenas concretizava: estava tudo acabado. Quis sair dali imediatamente ao dar-se conta de que estava parada em pé em frente ao apartamento de alguém que agora lhe parecia muito diferente. Não quis saber os motivos, nem como e nem quando. Talvez porque pensasse que já sabia. Mentiu e se espantou quando as palavras não saíram roucas de sua boca: “Tudo bem”. Ainda trocaram alguns convencionalismos, numa tentativa de andar com segurança em terra firme após um terremoto.

Ela virou-se para ir embora e não chorou. O corte profundo, que fora aberto ao poucos em episódios semelhantes, já estava tão grande que ela se recusava a enxergá-lo. Ele estava aliviado e decepcionado consigo mesmo. Então era assim que as pessoas acabavam se machucando. Não tinha sido por acaso que tentou evitar esse momento por tanto tempo. Porém, mesmo separados, ambos haviam sido jogados no mesmo sentido. Tinham pensamentos parecidos. Prometiam-se nunca mais acreditar em promessas ou mesmo fazê-las.

1 Comments:

At 10:52 PM, August 06, 2005, Anonymous Anonymous said...

Sere-chan, textos maravilhosos!! *_* Tô até agora sem palavras para descrevê-los, parabéns!! Estou com saudades, vê se não desaparece!

 

Post a Comment

<< Home