Apresentação
Paulo parou o carro tentando controlar a nostalgia que lhe acompanhava desde sua entrada na cidade. Ela agora crescia de forma desproporcional diante da casa que observava atentamente. O tempo se fazia notar nas pinturas desgastadas pelo sol e pela arquitetura já um pouco ultrapassada, mas fora isso tudo continuava do jeito que ele se lembrava. O jardim bem cuidado, as janelas abertas e o barulho que vinha de dentro mostravam que a vida ali não havia parado e, sem anunciar-se, o conforto daqueles que regressam se misturou com a sensação de não pertencimento dos forasteiros.
Desceu do carro distraído, pois seus esforços se concentravam em ignorar a importância que aquele momento merecia. Retornava à sua cidade depois de vários anos de estudo, de construir a vida que nunca quis na capital. Fora diferente dos outros jovens, pois não buscava os sonhos do grande espaço urbano. Edificar a carreira para ele significava servir no inferno ao invés de reinar no céu da cidadezinha que chamava de lar. Apesar disso, fez o que diziam que tinha de ser feito e agora podia gabar-se do topo dos arranha-céus. Até o presente dia apenas havia se comunicado com sua família através de cartas e mais tarde de telefonemas, quando o dinheiro começou a aparecer. A hesitação e a as ocupações do dia-a-dia o mantiveram lá por mais algum tempo até o seu atual retorno. Já estava abrindo o portão que se introduzia no meio de muros baixos, próprios dessas construções daqueles dias em que as pessoas não tentavam ou não precisavam se esconder do mundo lá fora, quando ouviu alguém lhe chamar:
- Filho!
O impacto daquela palavra o deteve no mesmo instante. Passou depois a procurar a origem daquela voz. Procurava seu pai e quando o achou do seu lado, tão próximo, assustou-se por tê-lo confundido com um transeunte qualquer. Estava mudado, é claro. Mas será que era mesmo claro? Os cabelos brancos não combinavam com a imagem que ele guardava na sua mente. Apenas sua mania de achar que seus pais nunca iriam envelhecer é que não mudava nunca. Lembrou-se da primeira vez em que a vida lhe sacudiu mostrando que os anos também passavam para eles. Não foi quando começaram a precisar de mais remédios nem quando começaram a repetir suas proezas de novo e de novo. Era ainda adolescente quando, ao entrar numa loja procurando por sua mãe, a vendedora lhe apontou-a perguntando se era aquela senhora ali. Senhora? Mas sua mãe não era nenhuma senhora. Era sua mãe, simplesmente muito jovem para ser chamada de senhora. Assustado, olhou não só para sua eterna mãe, como também para a senhora que ali se encontrava.
Riu da ironia que seu modo de ser havia tramado com a vida, pois acreditava que normalmente são os pais que nunca mudam a imagem que possuem dos filhos. Ainda estava absorvendo toda a confusão que nele se instalava quando deparou-se com o abraço do pai de um jeito que nunca havia experimentado antes. Não tinha esquecido a chantagem paterna que podia ser evocada naquela hora pelo terno caro que usava. Tudo bem que ser alguém na vida não era tão ruim no final das contas, porém entristecia-se pensando que as coisas poderiam ter sido diferentes. O orgulho dos pais pelos filhos às vezes custava caro demais. Naquele abraço, entretanto, conseguiu comungar daquele orgulho através da saudade melancólica que os dois sentiam.
A despedida no dia em que saiu de casa para fazer sua vida tinha até então soado como um adeus. Adeus que tinha sido a resolução inegociável de brigas e discussões intermináveis sobre o curso de sua própria realidade. Ele foi construir seu arranha-céu porque lhe impunham que aquele era o lugar mais próximo do sol. Felizmente, o rancor gerado naquele adeus agora era interrompido por um abraço indicativo de uma compreensão daquele mal-entendido que agora se confundia com amor. Um bem-querer embaralhado com egoísmos de desejos não realizados de uma forma apenas mais perfeitamente denominada humana.
Arrependimentos de ambas as partes não deixavam de existir no abraço que se desfez no mesmo impulso em que havia surgido. Concordavam, e se não concordavam, entendiam, e se não entendiam, queriam superar as diferenças das posições colocadas por um frente ao outro até aquele momento. O tempo perdido precisava ser recuperado. Acima de tudo, importava era o regresso Paulo e isso foi traduzido no grito de seu pai:
- Beatriz, o caçula está de volta!
Essa declaração chocou-o mais do que poderia prever. Simplesmente soava falsa. O caçula não estava de volta, havia ficado para trás no chão de terra batida. Mesmo se estivesse, não voltaria jamais. Apenas pode-se voltar a onde já se esteve e o lugar no qual tinha estado não existia mais. Pressentia a imensidão de mudanças a serem encontradas. A vida fazia traços no papel de contornos inesperados e voltas surpreendentes, mas não girava em círculos. O caçula asisstia de longe, havia ficado para trás, vislumbrando sem nunca apreender o que poderia ter sido caso a relação de forças e de força de vontade fossem outras. Doutor Paulo era uma pessoa nova num lugar novo, mas familiar. Chegava para reconhecer uma família saudosa e ser reconhecido por ela, a sua saudosa família.

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