Sintomas do Medo
O silêncio era tão profundo que parecia conduzir o som das batidas do seu coração pelo mundo inteiro. Engoliu os pensamentos desesperados imaginando que talvez ele pudesse ouvi-los também. Os braços tremiam. As pernas tremiam. Pensou que se tentasse, não conseguiria colocar-se de pé. Não sabia nem como havia conseguido correr até ali. Uma força a impulsionara e, estranhamente, a mesma força agora a mantinha estática numa pesada escuridão. Desconsolada, estava a se perguntar se ele ainda a procurava. Bem que avisaram para ela não andar sozinha a essas horas da noite, principalmente por essas ruas. Tudo estava fechado. Havia se escondido nesse vão, sendo guiada mais pelo instinto do que qualquer outra coisa. Ouviu passos. Começaram rápidos e foram desacelerando à medida em que soavam mais próximos. Fechou os olhos, apenas para continuar a não enxergar. Escutou e estavam perto. Muito perto. Ele a iria descobrir. Seria agora. Pressionou a cabeça contra os joelhos e agarrou firme seus próprios tornozelos. Foi então que o som parou. Ele a havia encontrado. Por alguns momentos ainda não escutou nada. Esperou durante os piores e mais demorados segundos de sua vida. Talvez fosse possível que ele não houvesse encontrado e nem a encontrasse. Pediu com todas as forças que isso fosse verdade. Recorreu a toda esperança e fé que tinha e não tinha. Mas ele iria ouvi-la. Ela tinha certeza. Seus pensamentos estavam falando alto demais. Sua mente acelerou-se e num instante já não pensava ou raciocinava mais. Predominava apenas o desejo de que as coisas voltassem ao normal. Apenas queria estar bem longe dali, ou que ele fosse embora. Talvez ele realmente a tivesse ouvido, pois os passos recomeçaram. Baques no chão que ecoavam sob um céu sem luar foram se tornando menos espaçados e mais distantes. Quando o silêncio voltou, dessa vez trazendo boas novas, ela soltou um suspiro quase inaudível. Percebeu que havia prendido a respiração o tempo todo. Notou que as unhas machucavam a pele e relaxou um pouco as mãos que prendiam os tornozelos. Ainda encolhida, levantou a cabeça e abriu os olhos. Tomava cuidado para não fazer nenhum movimento brusco. Podia ser que ele voltasse. Não se mexeu mais. Ali permaneceria até o amanhecer. Ou mais: até que alguém a achasse. Permaneceria até quando se retirasse a ameaça do perigo que enrijecia cada centímetro do seu corpo .

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