Thursday, May 19, 2005

Procura-se

Aqui era o lugar da história. Mas ela se recusou a ficar. Fugiu. Foi para o pico de uma montanha nos Alpes suíços. Desceu elegante de esqui pela neve. Pegou carona nas águas de um rio até evaporar-se e atingir o céu. Choveu na Espanha, confortando os catalães de um sol escaldante.

Logo se cansou do hoje. Resolveu ir visitar o passado. Foi quando começou a entender o que se passava no presente. Mas depois de um tempo pensou ser tudo muito repetitivo e pouco original. Então viajou para o futuro. Gostou das novidades. Assustou-se com algumas. Vangloriou-se das coisas que já previra. Percebeu outras que nunca poderia ter imaginado. Admitiu seus erros e limitações. O futuro não era tão óbvio assim.

Abatida, voltou para o hoje, para o terreno das possibilidades. Encantou-se. Ficava feliz só de observá-lo. Entretanto, também viu as barbaridades que nele se passavam. Indignada, contou-as a quem quisesse ouvir. Entretanto, foi ficando triste. Ninguém prestava atenção.Resolveu tirar uma folga. Comprou as passagens e seguiu a estrada da imaginação. Infelizmente, esta se achava congestionada. Ficou presa entre a realidade e a ficção.

Corri para alcançá-la, mas ela se disfarçou de princesa e se escondeu num conto de fadas. De lá, não precisou andar muito para chegar no mundo dos sonhos. Estando em território conhecido, consegui encontrá-la. Mas eu me perdi no mesmo instante em que ela tomou o rumo dos seus olhos castanhos.

Quando voltei a mim, ela já estava longe. Tinha incorporado um índio num filme do faroeste. Chamei, gritei, mas ela não veio. Pedi com toda a educação. Tentei suborná-la e ela apenas me olhou com desdém. Decidi usar da força. Lacei-a e prendi-a na ponta do lápis. Humilhada, ela não quis colaborar. Então fizemos um trato. Ela me ajudaria se eu a libertasse. Que ingenuidade a minha. Esqueci o quanto ela era volúvel e inconstante. Traiu-me. Agora tenho tentado em vão procurá-la. Mas não acho. Não acho.

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