Thursday, May 05, 2005

Por uma causa perdida

Às vezes eu me esqueço. Uma pessoa é um mundo inteiro. Mas uma pessoa não é o mundo inteiro. Sempre que estudo História me dou conta de como nosso conhecimento e entendimento da vida está limitado ao nosso contexto. Algumas obras escrevem forte no livro do mundo, de modo a marcar várias páginas pela frente. Pois é isso que nós fazemos e que somos. Somos trechos, somos vírgulas da história do mundo e da humanidade. Acrescentamos nossa parte e contribuímos para escrever um texto no qual não consigo visualizar um ponto final.

Somos partes inteiras de um todo infinito. Somos também partes inacabadas, visto que estamos sempre mudando. Apenas pelo prazer de brincar com as palavras eu poderia dizer que somos mudanças que mudam o mundo. E somos. Existimos. Lutamos, aprendemos e conhecemos. Amamos e odiamos esta vida na qual às vezes falta um sentido, uma coerência. Mesmo quem tem uma religião na qual acredita e que explica esse jogo sem regras, não pode deixar de notar a passagem do tempo e o fim da vida do jeito que a conhece. Por mais que elas expliquem, ainda existe um enigma. E o enigma está aí para vir brincar com a gente numa noite sem sono, ou mesmo numa noite sem sonhos.

Colaboramos num projeto maior que nós e no qual não há perspectiva de conclusão. O enigma é parte dele e ele é parte do enigma. Às vezes parece que ele avança, às vezes que retrocede. Talvez esses termos nem mesmo se apliquem. Entretanto, queiramos ou não, somos sua mão-de-obra. Criamos. Inovamos. Destruímos. Fazemos parte dele e ele faz parte de nós.

E então continuamos. Uns por fé, alguns por prazer, outros por instinto ou até mesmo por curiosidade. Seguimos escrevendo nossa história que, mesmo que acabe para nós, deixa seu rastro no mundo. Lutamos como se não fôssemos perder. Vivemos como se não fôssemos morrer. Temos nosso valor como pessoa e nosso valor como história. Todos nós acreditamos na vida de um jeito ou de outro. Vivemos, seja como for. Aí reside o nosso mais puro ato de fé. Vivemos pela vida. Vivemos por uma causa perdida.

Obs.: Para quem não entendeu o espírito do texto, tenho que dizer que não acho a conclusão de modo algum negativa, muito pelo contrário.

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