Mais um dia
Escândalo. Que outra palavra seria mais adequada para uma cena como aquela? Escândalo. Era isso que todos tinham na cabeça. De bocas abertas e olhos atentos cada pessoa se transformava no mais cruel e inflexível dos juízes. Grandes atores, com certeza. Inatos. Todos sabiam muito bem o que aparentar para disfarçar a alegria incontida de se sentir moralmente superior. Sorriam por dentro diante da obscenidade repugnante da cena. Entretanto, por mais que tentassem, jamais conseguiriam enganar uns aos outros. Como seres humanos, podiam detectar o que o próximo sentia.
Uma boa história para contar e fingir indignação mais tarde, durante o jantar com a família. Para onde vai este país, diriam. Ou suas variações: o mundo está um caos, não se pode mais confiar nas pessoas e os bandidos estão soltos. Daí a conversa partiria para incompetência da política. Logo logo, já estariam falando das notícias do telejornal. Comentariam a entrevista daquela atriz famosa da novela das oito. Com o corpo dela na memória, muitas pessoas evitariam a sobremesa – finalmente uma atitude. Iriam dormir se sentindo bem em relação à vida que levavam. Meio temerosos, agradeceriam.
Enquanto isso não acontecia e o tempo não passava, o corpo do garoto jazia praticamente nu sobre a calçada, com cinco cortes no peito. Os policiais chegariam logo e limpariam aquele incômodo da rua e das mentes das pessoas. Ah. Durante a noite, antes de dormir, os grandes juízes também se sentiriam um pouco desconfortáveis. Que fina agulha era aquela debaixo de todos os colchões e almofadas? Talvez fosse a consciência da culpada satisfação. Ou a tristeza de uma natureza humana que se achava tão fraca.
Uma boa história para contar e fingir indignação mais tarde, durante o jantar com a família. Para onde vai este país, diriam. Ou suas variações: o mundo está um caos, não se pode mais confiar nas pessoas e os bandidos estão soltos. Daí a conversa partiria para incompetência da política. Logo logo, já estariam falando das notícias do telejornal. Comentariam a entrevista daquela atriz famosa da novela das oito. Com o corpo dela na memória, muitas pessoas evitariam a sobremesa – finalmente uma atitude. Iriam dormir se sentindo bem em relação à vida que levavam. Meio temerosos, agradeceriam.
Enquanto isso não acontecia e o tempo não passava, o corpo do garoto jazia praticamente nu sobre a calçada, com cinco cortes no peito. Os policiais chegariam logo e limpariam aquele incômodo da rua e das mentes das pessoas. Ah. Durante a noite, antes de dormir, os grandes juízes também se sentiriam um pouco desconfortáveis. Que fina agulha era aquela debaixo de todos os colchões e almofadas? Talvez fosse a consciência da culpada satisfação. Ou a tristeza de uma natureza humana que se achava tão fraca.

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