Momentos - Segundo
“Quem é você?”, eu me perguntava ao ouvir aquela voz estranha ao telefone. Não era a mesma pessoa, não podia ser. Ele era agora a personificação do triste efeito da morte sobre os vivos. Era puro sentimento de perplexidade diante do acontecimento inesperado e imutável. Tinha sido um acidente de carro, era o que a voz estranha me relatava ao telefone. Agora ele dormia chorando e se sentia melhor apenas por alguns poucos momentos logo depois de acordar; só até o acontecido retornar de forma veemente à memória. E assim padecia diariamente do choque de redescobrir a morte do irmão. Parecia que ele entraria a qualquer momento pela porta da sala. A família estava desestruturada, faltava ânimo para tudo que antes o motivava. Eu não o reconhecia mais e, nesse momento, por meio da empatia, da compaixão ou simplesmente daquela tristeza toda, a morte também fez seu efeito desalentador sobre mim. Momento da vida de sabor amargo. Consolo? Haveria lenitivo para aquela dor? Eu disse para ele que se desse o espaço e a oportunidade de sofrer o que tivesse que sofrer. Quem sabe com o tempo a dor não se tornaria menos presente, pensei. Disse que eu estava ali. Acabado tudo, desliguei o telefone e remanesceu, junto com gosto de morte na boca, a sensação de ter falado com um fantasma.

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