Algo entre a mediocridade e a anormalidade
Hoje a personagem sou eu mesma. Tudo bem que eu sou personagem que habita todos os textos que saem das minhas mãos para o papel ou para o computador, mas hoje é diferente. A madrugada já corre no relógio e nas estrelas. Apenas consigo ouvir a água que restou da chuva a correr por algum canto do prédio. E aqui estou eu a me esconder no papel encurralada por meus próprios medos. A insônia me fez pensar no curso da minha vida e isto acabou por me tirar de uma tentativa frustrada de uma noite de sono. A verdade é que estou cansada de me preocupar com problemas secundários. Estes são aqueles problemas operacionais, que nos trazem apenas um pouco mais de dificuldade no conduzir a vida. Aqui eu me encontro ansiosamente esperando a resolução de um destes problemas. Algo me diz que eu perco tempo me preocupando com a perda de tempo de que tal problema pode me trazer. Nem ouso dar nome a essa minha dor-de-cabeça, pois me envergonho. No entanto, aqui estou eu acordada com a plena certeza de que passarei notes em claro por coisas muito mais graves e me arrependerei dessa noite mal-dormida. Por tanto, peço desde já desculpas a mim mesma. Continuando, essa certeza vem das decisões que tenho feito para minha vida. Eu sei que é preciso mudar o mundo tal qual o vemos e isso me entristece muito. Vou sofrer muito por isso e vou ter muito medo correndo no meu sangue. Fico imaginando se não posso voltar atrás e viver o mundo sem deixar que ele viva em mim. Viver sem tentar procurar o que há de melhor em mim e sem confundir o melhor com o bom e o certo. Não sei se sou assim tão boazinha. Pode ser que eu seja motivada por um motivo nada altruísta: provar minha própria humanidade. Essa tem sido minha escolha, mas por vezes espreito outros caminhos. Será que estou errada?Vai que tudo isso são tolices e o certo está em levar a vida como nos comerciais da televisão. Eva então estivera correta e apenas seguira sua natureza. Comera a maçã. Logo me surge então outra pergunta: inventamos o agir certo e errado ou as maçãs existem de verdade? Gostaria tanto que alguém me dissesse. Será que minha meta é ilógica e minha tentativa de superação uma causa perdida? Já estou me perdendo nos meus devaneios que começaram com o medo do medo. Isso me remete à coragem. É preciso coragem para abalar as estruturas, pois elas sustentam o poder. Não sei se a possuo e gostaria de não querer possuí-la. Mas a vida sem ela parece medíocre, inútil, fútil e vulgar. O viver sem ela não faz sentido. Engraçado é que o viver pode até ter sentido dependendo de como se pratica o verbo, mas a vida, por outro lado, talvez nunca o tenha. Apenas é vida que vem e que vai, não é mesmo? Talvez por isso seja difícil conciliar o viver e a vida. Em respeito ao meu viver, eu tenho escolhido a luta. Em respeito à minha vida, tenho escolhido vivenciar o mundo. Isso significa gozar de seus prazeres, conhecer suas dores e ignorar os problemas operacionais. Batalhar os males que a distorcem e mais um bando de coisas que não quero mais colocar no papel. Cansei de dar palpites. O que eu gostaria de fato era de tomar as rédeas da vida sem a menor pretensão de conduzi-la. Tomar emprestado as dores do mundo e colocá-las em perspectiva com as minhas sabendo respeitar ambas. Aproveitar o passeio, sem me preocupar com problemas operacionais. Mudar o jeito com que as coisas têm sido feitas. Duvido que possa, duvido que o faça, duvido até que o queira. Porém, não duvido que tento e deste modo eu consolo meus questionamentos e agora vou dormir.

3 Comments:
Ótimo!!!!!
Não falo isso porque eu goste de vc, mas há coisas realemente poéticas no seu texto. Tipo:
"Pode ser que eu seja motivada por um motivo nada altruísta: provar minha própria humanidade."
Quando eu li essa frase senti como se algo dentro de mim tivesse encontrado uma resposta, mesmo que seja pra uma pergunta que eu não conheca.
Legal D++++++.
Não deixe morrer seus sonhos
Antigas certezas vívidas e vontades inocentes
Persista errando certo. Grite alto.
Seja ouvido, e que suas palavras brotem simples para outros
E que seus sonhos sejam sonhos, para outros
Para outros
Serviria esse começo, que termina mesmo sem final
No frio das horas viciadas
Em amores doentes
Na preguiça banal
Para outros
Que venha a pressa, sem sentido, essencial
O almoço em pé
A batida das pernas
Os mesmos erros, vida igual
Para outros
Valeria ser eu
Meio Raul, gritando da cobertura
Mas meus valores incertos, minha moral sem graça
É louca, nata
E, apesar do esforço, dos elogios do clero,
é escrota e não vale nada
Meus escritos são das árvores e do tempo
Das folhas caindo
Das nuvens correndo
Esqueço dos carros, câmeras, luzes
Quieto, sinto o cheiro da chuva
E sonho com os bolinhos que um dia comi
Longe, em uma cozinha modesta e confortável
Estudo motores
Plantas em cortes, seções separadas do real
Busco o brilho que sei que tenho
Busco a poesia, o encontro mágico das palavras com a realidade
Uma realidade breve e pacata
Que tudo mude, que o mundo gire
E me lance longe
Minha força e meus pensamentos, meu viver e meus momentos
Estarão de pé quando eu cair
E serei, um pouco eles, um pouco vida
Um pouco antes
Meio caído, meio feliz
Nirvana por breves instantes
Ganha um doce se adivinhar quem postou
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