Friday, February 10, 2006

Sobre essas tragédias cotidianas

Nada dá mais raiva do que o agir inexorável do destino, dos acasos e circunstâncias que se fundem num azar de ocasião. Explico melhor. Fazem ebulir o sangue aquelas situações em que não se pode achar um culpado. Pode-se encontrar, no máximo, um bode expiatório. São acontecimentos de pura falta de sorte que acabam por se tornar ainda piores por não ter algo ou alguém a que se possa direcionar sua raiva.

Você tinha acabado de sair do salão com o cabelo lindo quando começou a chuva. Você precisava imprimir seu trabalho da faculdade numa bela manhã, mas infelizmente a impressora resolveu engolir esfomeada todos os papéis. Aquela era a festa do ano! No entanto, foi no mesmo dia que seus padrinhos que moram em Manaus escolheram para te visitar. Um passarinho voou feliz e deixou sua marca numa camisa limpa e passada nos exatos quinze minutos anteriores à sua entrevista de emprego. Você era o próximo na fila do caixa do supermercado, mas de repente a mulher na sua frente começou a reclamar e xingar criando o que chamaremos aqui de pequeno contratempo. Finalmente, você estava atrasado e resolveu ir de carro naquele compromisso justo no Dia dos Estagiários Descontentes de Direito e - imagine só – eles, inspirados pelo simbolismo da data, tinham organizado uma passeata pelo mesmo trajeto que você necessariamente tinha que fazer.

Esses são exemplos inofensivos. A moral da história, entretanto, é sempre a mesma: xingue quem quiser, mas de nada vai adiantar. Você sabe que ninguém em particular é responsável pelo seu infortúnio. Talvez seja até você que numa falta de cuidado simplesmente desencadeou aquele fato imprevisível. O que fazer? Rir desse mundo que junta as peças do quebra-cabeça de forma irracional. Ou isso ou implodir de inconformismo. O que nos leva ao próximo passo em tais situações: conforme-se. Porém só o faça se elas forem incontornáveis e inevitáveis.

Essas reais tragédias cotidianas chegam para formar nosso mau-humor, que será passado para frente e para frente até culminar na guerra do Iraque. Afinal, toda ação tem que ter uma reação, certo?* E é mais certo ainda que você não vai ficar com toda aquela injustiça para você, pois é preciso dividi-la com o próximo. Coitado do próximo, que sofre a com injustiça do outro, o qual foi vítima da única árvore que caiu em cima do carro do colega de trabalho naquele dia de chuva torrencial.

Cuidado! Se você for o alvo do mau-humor alheio, ainda mais se este for resultado de injustiças aleatórias mais provavelmente causadas pela atuação das Leis de Murphy, por favor, reaja. Devolva o ataque sem dó e dê um fim à contaminação ali mesmo. Não seja bode expiatório. Você, vítima, seja feliz pensando que milhares de outros seres vivos sofrem do seu mesmo problema, quem sabe neste mesmo instante. Você tem companhia! E controle-se, ou então não se controle, mas sem jamais esquecer do respeito aos subordinados, atendentes de telemarketing, animais e todos aqueles que têm necessariamente que agüentar você nos seus piores momentos. Não abuse do seu poder nessas situações e deixe os amigos fora disso. Como já dito antes, dê uma risada. Ou um soco na parede.

*Inclusive uma afirmação tão estúpida, você deve ter pensado. Não que eu não concorde com você... No entanto, este texto está calcado em profundas investigações científicas. A qualquer um cabe o ônus de me provar o contrário.

1 Comments:

At 1:30 PM, February 10, 2006, Anonymous Anonymous said...

Oi Lu!
Se vc publicasse um livro com todas essas histórias, eu seria a primeira a comprar! Beijo!
Debs (amiga da Gra)

 

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