Saturday, April 16, 2005

Duas Paralelas

Começou a caminhada com passos lentos, mas firmes. Acelerou à medida em que a pele foi pedindo maior contato com o vento frio que a envolvia.

Sentou-se no banco da praça com o livro e o pacote de balas em mãos. Estava alheia a tudo a sua volta, como se participasse sozinha de uma cena num cinema mudo.

O impacto ritmado dos pés no chão duro aos poucos levava-o para outro mundo, no qual nem mesmo os pensamentos habitavam. Aos poucos o corpo se esquentava e a mente ia se desligando.

Abriu o pacote de balas como quem abre um livro e o livro, como quem abre um pacote de balas. Um gosto novo na boca e as mesmas e decoradas palavras na mente lhe conferiam um olhar infantil e um sorriso quase incontido.

Completou a terceira volta sem se dar conta. O sangue já circulava apressado e o coração pedia num tom primitivo e musical: mais rápido. Era extrema a sensação de não se achar limitado por quatro rodas.

As palavras entravam e idéias se formavam. Os pensamentos começavam a pulsar e circular, desenvolvendo os caminhos mais estranhos e desbravando outros novos. Se os carros buzinavam, ela jamais iria saber.

Estavam tão contidos e libertos em si, que não perceberam as nuvens se formando, chamando os trovões e fazendo a chuva cair de uma pancada. Quando os pingos começaram a reanimar o tato, procurou abrigo em uma árvore, debaixo da qual havia um banco e em cima do qual estava ela. Percebeu-a. Uma gota infiltrou-se pela copa da árvore, percorreu um caminho difícil entre as folhas e foi achar seu lugar nos cílios dela. Levantou os olhos do livro. Percebeu-o. Sua respiração ganhou uma pressa inesperada e ele foi inundado de pensamentos desordenados. Em pouco tempo já estavam em igualdade de condições e de desejos. Dois mundos tão completos agora queriam uma extensão. Duas paralelas queriam alcançar o infinito.

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