A Hora de Voltar
Ele já havia se esquecido de como tudo aquilo havia começado. Enquanto as mãos se movimentavam frias em cima do teclado, ele ficava imaginando como seria sua vida se, ao invés de letras, ele possuísse ali, ao alcance do toque, o poder de criar música. No entanto, durante a faculdade, havia trocado as aulas de piano por mais algumas horas de estudo. Trocou um sonho por outro, pelo desejo de mudar o mundo por meio do sucesso na carreira. Seria um jornalista importante e deixaria uma marca igualmente importante no mundo. Afinal, as pessoas precisam estabelecer prioridades em suas vidas e ele precisava crescer, ser responsável e enfrentar a realidade. Havia chegado a hora de fazer sacrifícios.
Desta forma, as notas das provas, que estavam medíocres, melhoraram. Apaixonado pelo jornalismo, logo se envolveu em outras atividades. E foi nessa mesma época que suas obrigações criaram vida própria e, além de tudo, foram concebendo filhotes. Estes, por sua vez, acabavam crescendo e superando os progenitores, impregnando como parasitas aquilo que ele ainda chamava de vida. Suas notas voltaram a cair. Ele soube o motivo, ou pensou saber: ainda não estava se dedicando o suficiente. Desde então, tomar café e acordar com sono passou a fazer parte da rotina. Acabava por fazer pactos consigo mesmo e estabelecer metas que culminavam num nível de exigibilidade maior do que poderia corresponder. Afazeres é uma palavra que descreve muito bem a maneira pela qual ia preenchendo seu futuro com atividades, como se fosse um vício. Nunca estava satisfeito e às vezes tinha a impressão de que nunca estaria. Sempre havia algo a fazer.
A princípio, sentia falta de sair com os amigos. Olhava com inveja aqueles que sabiam levar a vida de maneira simples. Aos poucos, foi isolando esses sentimentos, de modo que sofria cada vez menos com a saudade deles. Nos finais de semana, de qualquer maneira, faltava disposição para sair devido ao monte de coisas por fazer e ao cansaço acumulado. Uma vez ou outra, na fila do banco, ou no ponto de ônibus, ele se questionava se aquilo era necessidade de eterna insatisfação ou auto-sabotagem. Não sabia bem se era vida a cada passo ou se era morte a cada passo.

6 Comments:
Sem comentarios!!! vc tem as manhaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!!!
Simplesmente fantástica! Que bom que vc voltou a escrever...
Thiago.
Tem mesmo as manhas, Lu! Lindo o texto. E alguns parágrafos aí são bem minha cara também...
bjos
(...)necessidade de eterna insatisfação ou auto-sabotagem.(..)
Sem comentários. Bom d+.
Bjos.
ps: Decidi que ia ler o seu blog hj.
Um texto mto bem escrito, nada superficial, mas fácil de o leitor se identificar. Bjos irmã! :-)
não sabia de mais este talento seu, Lari...excelente o texto...conheci hj seu blog e gostei muito. bjos, Roberto M. (isto mesmo, lá da FDUFMG, que você deve estar se perguntando "o que veio fazer aqui.."...rsrsrs...)
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