Tuesday, December 27, 2005

Um passeio no mundo da dúvida e do medo

Durante todo o jantar ela permaneceu quase muda. Já não fazia nem o menor esforço de disfarçar o seu estado, pois as coisas estavam simplesmente muito confusas na cabeça dela. Os pais não perceberam porque estavam absortos em seus próprios problemas, e os irmãos mais novos estavam muito ocupados brincando com a comida. Ela, por sua vez, não conseguia pensar em mais nada. Dormia, sonhava e acordava com aquele peso enorme na consciência. Passava e repassava as cenas mil vezes como um filme que ia se desgastando em sua mente. Tentava se lembrar do que se passara. Mas a cada vez que o fazia, perdia-se mais e mais, de modo que já não se recordava corretamente do acontecido e não podia confiar em sua memória.

Era o medo que distorcia os fatos, brincava com as evidências e jogava com as probabilidades. O medo de ficar grávida esmagava-lhe os ombros e paralisava qualquer de suas ações. Seriam necessários, no mínimo, mais cinco dias para a menstruação. Sabia que não adiantava sofrer por antecipação e tinha certeza de que só o tempo acabaria com a dúvida. No entanto, as conseqüências de ser mãe tão cedo para ela era tão grandes que a mínima possibilidade era responsável por um caos em seus pensamentos.

Ficava imaginando como um filho transformaria seu mundo, atrapalharia seus planos, e a simples idéia provocava-lhe um desespero silencioso que subia pelos pés e pernas fazendo as mãos tremerem e os olhos se arregalarem. E a vida antes disso tudo estava tão boa. Os estudos iam bem e a cada dia se via melhor no estágio. Sua família, com tios, avós e primos, acharia um absurdo. Logo depois, procurava esquecer e para conseguir se acalmar, já não cogitava tal fato, pois seria desastroso demais para acontecer justamente com ela. Aquilo era apenas um susto. No entanto, a maldita razão vinha contradizer-lhe e mostrava que não, ela não era especial e que essas coisas acontecem com qualquer pessoa, inclusive com ela.

O namorado estava tranqüilo, havia assegurado que não haviam tido problemas com a camisinha e lembrava-lhe que ela estava tomando anticoncepcional. Sim, tudo bem que um daqueles dias ela havia tido desarranjos intestinais um pouco depois de tomar a pílula, porém isso jamais era motivo para tamanha preocupação. As amigas faziam coro com o namorado, mas a verdade era que nenhum deles poderia ter certeza alguma, assim como não haveriam de carregar o bebê mais tarde. Por isso mesmo às vezes tinha raiva de todos eles. Ninguém a consolava, nem poderiam jamais entendê-la.

E o medo gerava mais dúvidas. Estas, por sua vez, aumentavam o medo. Havia horas em que a insegurança chegava para lhe subjugar e era dominada pela certeza da gravidez. A médica havia dito que uma diarréia poderia expelir a pílula do organismo. No entanto, não se lembrava muito bem se isso havia de fato se configurado. Agora tinha enjôos freqüentes, logo pela manhã, e já estava tendo dificuldades de encobri-los. Sim, estava grávida. O medo outra vez vinha e corroborava a conclusão. Todos diziam que os enjôos eram fruto da preocupação e que todos os sintomas que ela sentia eram psicológicos. Mas nenhum argumento, nem a mais clara prova dos fatos conseguia convencê-la do contrário. A aflição era tanta que nem lhe alcançava chorar. Sem esboçar maior reação do que uma boca entreaberta calando um grito engasgado, entregava-se inerte a um destino sem consolo.

Não conseguiu engolir o resto do prato. Começava a se sentir mal apenas de olhá-lo. Murmurou alguma coisa sobre haver comido na faculdade e foi se deitar. Sentia-se sozinha com seu problema opressor e sua dúvida esmagadora. Sofria o peso de um futuro indesejado e de um tempo que se arrastava lento quase que propositadamente. A palavra aborto não saía de sua cabeça e tal solução trazia-lhe um misto de culpa e alívio. Havia buscado clínicas até em outros países, onde era legalizado, sem antes saber se teria dinheiro para tanto. Sabia que se o fizesse nunca mais seria a mesma. Parou de julgar quem já havia recorrido a essa operação. Só a gente sabe o que se passa, pensou. Lágrimas eram inevitáveis quando pensava que a decisão, em última instância, era dela e só dela.

Ligou a televisão e para seu horror estava no ar seu programa favorito. De um choro silencioso começaram os soluços. Aquilo era mais uma das alegrias bobas e felicidades inocentes que perderia. Não seria mais uma estudante a pegar o ônibus pela manhã para ir à faculdade. Seria uma grávida a pegar o ônibus pela manhã para ir à faculdade. Tudo vai mudar, pensava alto. A responsabilidade começava a crescer como uma sombra criada pela luz do medo e da perda. Perdia a vida de menina por uma vida precoce de mulher. Não queria aquela maturidade invasora.

Então isso era enfrentar um problema de verdade. Estava crescendo, mas contra sua vontade. E que vontade de voltar no tempo para fazer as coisas de modo diferente! Foi um descuido dela. Não se pode ser assim de relapsa ao tomar um remédio. Talvez não devesse ter feito amor com ele. Mas isso foi irresistível. Apaixonada, deixou-se levar desde o primeiro toque. Depois de tudo consumado não olharam a camisinha direito. Será que estava furada? E quando haviam começado os enjôos? Havia tido mesmo uma diarréia? Não sabia. Até barganhava com Deus: prometia nunca mais repetir o pecado caso estivesse livre dessa vez.

Mas agora não adianta mais, dizia-se logo depois. E lá vinha o desespero de novo para encontrá-la na solidão de sua dúvida. Desligou a televisão e fechou os olhos. Queria dormir. De manhã bem cedo iria à médica de novo e ela lhe diria que estava tudo bem. Com este pensamento, ajeitou-se numa posição mais confortável na cama. De vez em quando os abria de novo assustada e ficava a fitar o teto ou as paredes como se neles visse seus fantasmas. Mais tarde, cansada de navegar as realidades do medo, caiu nos braços de Orfeu, adiantando o tempo, fazendo correr as horas e, quando conseguia escapar dos pesadelos, deixando aliviada de habitar sua própria pele.

Esclarecendo passadas, futuras e presentes dúvidas: Não sou personagem dos meus contos, não sou personagem dos meus contos...

2 Comments:

At 8:45 PM, January 05, 2006, Anonymous Anonymous said...

Hum... Vamos lá... Naum tenhu o poder da escrita como minha amiga aí, mas vamu lá...

Lu!!! Mto bom seu texto!!! Impressionante como vc consegue colocar sentimento no q vc escreve... consegue sentir as coisas e passar pra gente direitinho o sentimento, msm nunca tendo experimentado tal sensação... nunca passei por isso, mas lendo seu texto pude sentir direitinho a angústia da menina, o medo, como se eu pudesse viver isso... nossa... sem palavras...

 
At 2:10 PM, January 06, 2006, Anonymous Anonymous said...

Oi Lu, aqui é a Dé, amiga da Gra... hahahha ok, Debs, amiga da Grazi. Nossa! Vc é muito boa na escrita! Adoro ler seus textos! A gra me passou o blog e já vim direto ler! Parabens pelo seu talento!

 

Post a Comment

<< Home