Pequeno mapa
Antes de começar a ler, cuidado: texto completamente egocêntrico.
Não faço mais promessas. Quem sou o eu de agora para fazê-las? Já nem se passa meia-hora e outra pessoa diferente ocupa meu lugar. Lugar que lhe é de direito. Quem sou eu para deixar expectativas? Limitar a liberdade do próximo eu que já chega sem que eu possa colocar aqui um simples ponto final. Não serei mais guarda-costas de mim mesma.
Vou escrevendo estas palavras, que vão me desvendando e criando labirintos. Códigos que traduzem uma tentativa lastimável de ultrapassar o meu próprio limite. Ser decifrada não cabe a mim. Cansei-me da velha tentativa de puxar meus cabelos para me alçar do chão. Loucura.
No entanto, essa próxima pessoa incorpora-se e consegue esse feito em parte. Eu mudo. Aquela que me torno interpreta aquela que fui. Não totalmente porque algo permanece. Com esse tempo todo de vida, já são várias que ficaram em mim. Restos que formam um todo incongruente. Eu não me encaixo nunca porque adquiri várias peças.
Talvez por isso é que sempre tenho tentado dar coerência às minhas ações. Tenho me tornado uma eterna servidora das minhas próprias palavras. Adicione-se a isto o cuidado com os sentimentos alheios e descubro que virei uma vigilante de mim mesma. Porque? Porque eu já feri pessoas e peço desculpas. Não foi minha a culpa. Foi do meu outro eu que se esqueceu que eu vinha por aí ou que eu ali coabitava. Às vezes eu aviso.
A minha verdade? O meu gostar? O nosso conhecer? E o escolher? Eu gosto de verdade do que conheço? Posso escolher o que conhecer? Dá para escolher quem gostar de verdade? Será que é permitido conhecer e gostar de verdade? E isso, eu posso escolher? É preciso conhecer? Pois eu nem me conheço.
Saudade de mim de vez em quando. Saudades de você de vez em quando. Por agora, por exemplo, vontade de você. Vontade de escolher a felicidade com o dedo indicador. Mas o outro eu não deixa. Fala junto comigo. Caio na minha própria armadilha. Não faço mais promessas e por isso não posso escolher aquele tipo de felicidade que se encontra ao alcance dos dedos e na ponta da língua. Não sou capaz de arriscar a esperança alheia.
O meu eu são vários e eles brigam. Brigam pela verdade, pela escolha, pelo conhecimento e pelo gostar. Constituem uma pessoa sem forma e por isso com um formato muito específico. Como todo mundo, é claro. Como eu. Mas não sou como outros, não consigo manter apenas partes. Só posso oferecer tudo: a variedade de mim mesma. As minhas verdades, as minhas formas de gostar, meus conhecimentos paradoxais e principalmente minhas escolhas cambiantes. Não posso ter restrições.
Só aceito na minha companhia a felicidade por inteiro. Por maioria simples, pois ainda há discordâncias, hoje eu escolhi a felicidade que anda com a liberdade. Aquela mesmo. A felicidade incondicional.

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