Lucidez
Ventava e seu cabelo fazia questão de acompanhar o vento. O barulho das folhas, dos galhos e o sopro em forma de uivo nas falésias enchiam a paisagem enorme. As ondas quebravam contra a terra compacta lá embaixo num trabalho contínuo de erosão. Ele não as via, estava de olhos cerrados, mas podia ouvi-las. Podia senti-las como impactos no peito.
Enquanto seus olhos descansavam da realidade, lembrou-se do seu sofrimento. Um vazio latente na alma que por vezes emprestava-lhe a dor do mundo inteiro. Não sabia descrever um sentimento tão denso. Ao mesmo tempo em que estava conectado com todas as pessoas sobre a face da Terra, encontrava-se a anos-luz de todas elas. Anos-luz porque o céu escuro com todas suas estrelas era dele e ele era dele e era delas.
Na beira do precipício ele sentava-se diante de uma tristeza solitária. A solidão era calma e desesperadora. Duas forças que se anulavam e acabavam por deixá-lo inerte a alguns passos da queda. Não chegara ali porque quisera pular, apesar de ter se sentido a atração do abismo algumas vezes. Não faltava vontade de viver. Apenas ficava indiferente a essa vida que corre no relógio, no asfalto e nas palavras.
Imaginava-se caindo sem nunca chegar ao chão, a pressão do vento gentil contra todo seu corpo. Imaginava-se livre. Uma sensação de intimidade entre o entorno e ele próprio era estabelecida na medida em que se distanciava da convencional realidade. Caía.
Lá fora de si mesmo o vento continuava a produzir seus ruídos assim como as ondas. No entanto, ele já estava surdo. Um silêncio vinha de dentro. A solidão agora embalava o seu ser, envolvendo-o cada vez mais em seus pensamentos. Estes, porém, pareciam haver fugido para outro plano. Não possuíam conhecimento acerca de sua própria existência.
Por um momento ele entendeu. Por um momento ele sentiu. Por um momento ele abraçou o mundo.
Mas então veio a claridade para alertar-lhe as pálpebras. A vida morta calou-se para dar lugar ao som dos pássaros. Suas bochechas foram se aquecendo com o calor que iniciava seu cotidiano de propagar-se pelo ambiente. Relutante, reanimou a visão já antecipando o nascer do sol. E algo no começar do dia parecia chamar-lhe. Algo pedia que ele desempenhasse a sua parte, o seu todo. Desempenhasse o seu agir. Levantou-se, quase gigante.
Havia sentido toda a falta de sentido. Havia sentido em toda aquela falta de sentido.

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