Tempestade
Eu disse que ia colocar e coloquei pra todo mundo poder ler. É o texto do Neto. Demorei uns dois meses para arrancar dele. Num sei porquê, adorei a expressão "pensamentos descontínuos". Explica tão bem quando a gente tá caindo no sono. Meus outros comentários já te falei pessoalmente né... Mas taí o texto, sem vergonha, hein Neto?
Chegou em casa tão atrapalhado que se esqueceu de fechar a porta. Tirou a camisa e jogou sobre o velho sofá caqui desbotado. Descalçou os sapatos com os próprios pés e nem se preocupou em ordená-los como sempre fazia. O toque de seus pés com o piso frio produziu-lhe pequenos tremores que subiam pelo seu corpo. Talvez ficasse doente, pensou. Dirigiu-se ao banheiro através do longo corredor mal iluminado. Na penumbra, ele pôde ver aquele menino na foto, com os cabelos desarrumados, com a roupa suja de terra, sentado com as pernas cruzadas na caixa de areia. O menino tinha um olhar percustrador de quem não se assustava com história de fantasmas e queria encontrar a verdade das coisas, nem que fosse da própria vida. Meio perplexo, continuou andando. Entrou no banheiro, girou a maçaneta e fechou a porta atrás de si. Parou diante do espelho oval iluminado por uma única lâmpada. Empurrou seus artigos de higiene de lado, derrubando perfumes e loções, o que fez com que o lugar se enchesse de uma aura intensamente perfumada, aguçando-lhe os sentidos. Colocou os cotovelos sobre o lavabo, inclinou-se para frente e ficou a contemplar os próprios olhos, procurando encontrar algum vestígio daquele brilho interior tão peculiar. Sem perceber seu rosto vagarosamente aproximou-se de si mesmo refletido no espelho. As pupilas, cada vez dilatando-se mais. A cabeça levemente movendo-se em direção a outro simétrico, como se quisesse penetrar através da superfície cristalina, mergulhando numa realidade inversa da qual vivia. Talvez nesse outro mundo, mundo do contrário, as coisas tivessem ocorrido de outra maneira. Voltou a ficar ereto, olhou para o relógio redondo pendurado na parede ao lado. Marcava vinte e duas horas. Tentou se lembrar do motivo pelo qual havia um relógio no banheiro; não se lembrava. Olhou para o próprio relógio de pulso, que marcava exatamente as mesmas vinte e duas horas. Estou preso ao tempo, murmurou. O tempo me conduz para um diferente estado das coisas onde eu não quero estar. Empurra-me para o amanhã em que tudo é incerto e apenas resta-me nos lábios a saudade de momentos perdidos, num passado idealizado. Tão idealizado quanto o futuro, que se mostra como uma recompensa para além do abismo do desconhecido. Começou a ficar confuso. Pressionou as mãos contra o rosto. Ainda não passava aquela sensação que lhe embrulhava o estômago. Terminou de se despir. Porque estava nu, uma leve brisa da janela aberta arrepiou-lhe todo o corpo. Ligou o chuveiro, sentou-se no chão e deixou que a água quente batesse-lhe nas costas. O vapor do banho misturou-se com as essências que ainda gotejavam dos vidros tombados, o que colaborou para tornar a atmosfera ainda mais inebriantemente densa. Ficou assim, nessa posição durante um longo tempo. Não pensava em nada, somente ouvia o barulho da água a escorrer-lhe pelo corpo inclinado.
Num átimo de segundo uma centelha de pensamento faiscou-lhe na mente. Uma imagem feminina surgiu como num relâmpago. Lembrou-se da primeira vez que a viu, de como sua voz era macia, de como seu perfume era doce. Mais um raio transpassou a escuridão e descortinou frente a seus olhos o momento em que ele sentiu o toque da pela dela em contato com a sua. “Havia química entre eles” – ela dissera. Como numa tempestade, os relâmpagos tornaram-se mais intensos e, nos clarões de cada rajada, a relação entre os dois ficava progressivamente mais visceral. De subto tudo se convulcionou e a chuva desabou abafadoramente. Agora tudo era silêncio. Ouvia apenas o bater da água em suas costas. Indagou-se se também chovia lá fora.
A tepidez do ambiente aos poucos lhe produziu aquela irresistível sensação de dormência. Seus pensamentos ficaram vagos e descontínuos. Distanciava-se progressivamente da realidade. Tudo estava longe... Distante... Adormeceu.
José Afonso Neto
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