Sono
Poliana acordou, abriu um olho e depois dois. Estavam inchados de cansaço. A cada dia que passava parecia mais difícil despencar da cama. Levantou-se com o corpo doendo, nem parecia que havia dormido oito horas. A primeira coisa que pensou em fazer foi o café. Era preciso muito café para aturar o dia que se impunha novamente. Foi bom porque bastou apenas o cheiro para despertar-lhe o sentido. O costume já havia retirado o gosto do pão e a idéia de comprar um tipo diferente de comida não lhe ocorria. Não tinha dinheiro para tais regalias. O objetivo aqui, por enquanto, era a sobrevivência.
Abriu a porta do apartamento e desceu as escadas sem ao menos checar o elevador. Estava estragado havia dois anos, assim como havia dois anos que iriam arrumá-lo no mês que vêm. Ao sair do prédio veio o sol, que percorreu um caminho certeiro em direção a seus olhos. Piscou e sentiu a umidade pegajosa no ar. Sol de chuva. Sol de ir para debaixo de uma árvore e dormir o sonhado sono de quem trabalha demais pelos sonhos. Veio nessa hora a vontade de largar tudo, de ir embora para sempre. Vontade de ir passear ou mesmo de ir para casa, um lugar onde alguém pudesse cuidar dela. Estava cansada de sempre ter de cuidar de si mesma, olhando por cima dos ombros, olhando para a própria sombra, tomando cuidado com seus passos. Por pouco ela não pegou suas economias e foi para a praia viver de sei lá o quê. Foi por pouco, como todos os dias.
Engoliu a raiva, o choro e o cansaço para enfrentar o ônibus que já chegava. E dentro dele, dormiu sem nem ao menos sentir seu balanço nem ouvir seu barulho de lata batendo em lata. Um pouco depois acordou e quase perdeu o ponto de descida. O susto foi revigorante e logo já estava no shopping, pronta para trabalhar. Cumprimentou os colegas e foi bem recebida como sempre. Um dos seguranças olhou-a de cima em baixo e lançou uma de suas quatro cantadas engraçadinhas. A preguiça de responder traduziu-se num sorriso desdenhoso. Sentou-se logo no balcão de informações e preparou-se para estampar o sorriso no rosto durante o dia inteiro.
Abriu a porta do apartamento e desceu as escadas sem ao menos checar o elevador. Estava estragado havia dois anos, assim como havia dois anos que iriam arrumá-lo no mês que vêm. Ao sair do prédio veio o sol, que percorreu um caminho certeiro em direção a seus olhos. Piscou e sentiu a umidade pegajosa no ar. Sol de chuva. Sol de ir para debaixo de uma árvore e dormir o sonhado sono de quem trabalha demais pelos sonhos. Veio nessa hora a vontade de largar tudo, de ir embora para sempre. Vontade de ir passear ou mesmo de ir para casa, um lugar onde alguém pudesse cuidar dela. Estava cansada de sempre ter de cuidar de si mesma, olhando por cima dos ombros, olhando para a própria sombra, tomando cuidado com seus passos. Por pouco ela não pegou suas economias e foi para a praia viver de sei lá o quê. Foi por pouco, como todos os dias.
Engoliu a raiva, o choro e o cansaço para enfrentar o ônibus que já chegava. E dentro dele, dormiu sem nem ao menos sentir seu balanço nem ouvir seu barulho de lata batendo em lata. Um pouco depois acordou e quase perdeu o ponto de descida. O susto foi revigorante e logo já estava no shopping, pronta para trabalhar. Cumprimentou os colegas e foi bem recebida como sempre. Um dos seguranças olhou-a de cima em baixo e lançou uma de suas quatro cantadas engraçadinhas. A preguiça de responder traduziu-se num sorriso desdenhoso. Sentou-se logo no balcão de informações e preparou-se para estampar o sorriso no rosto durante o dia inteiro.
A hora veio, as lojas abriram e as primeiras pessoas começaram a chegar. Estava tranqüilo o movimento e talvez por isso seu supervisor aproveitou para fazer uma de suas visitas. Ela, que falava apenas quando requisitada e com muita educação, passava segurança e a imagem de uma pessoa ponderada. Assim que ele a escolheu para confidente e conselheira. Mas ela sabia com que tipo de pessoa tratava, um tipo de pessoa que não gosta de ouvir verdades apesar de sabê-las. Seus conselhos então se resumiam a deduzir o que ele queria fazer e dizer que o fizesse. Ele saía feliz e ela mais ainda, porque era um processo rápido. Um simples processo de sobrevivência.
Naquele dia ele havia brigado com a namorada, e Poliana fez com que ele tivesse certeza de que estava certo. Certas também estavam todas as pessoas que vinham transformar o balcão de informações num balcão de reclamações. Estavam certas e ouviam isso com um sorriso dos lábios dela. Desse modo as horas passearam pelo ponteiro do relógio. Pessoas iam e vinham, todas sem muito rumo. Havia espaços de tempo em que ficava sem ter o que fazer e sua cabeça se esvaía num mundo de pensamentos. Sonhava acordada. Pensava em que fazer da vida. Não sabia se casava ou se comprava uma bicicleta. Nesses casos gostaria de ter seu próprio balcão de informações.
Porém, como toda hora que se espera, o fim do expediente veio. Passou o ônibus para ir para casa, mas nesse ela não foi. Subiu no que ia para a faculdade e ali também dormiu. Sonhou que caía e acordou-se levantando de espanto. Perdeu o ponto e teve de andar mais três quarteirões. Chegou atrasada na aula e assistiu pacientemente o professor contar as histórias da vida dele. O intervalo chegou junto com a conversa com os amigos. Estava feliz durante aqueles vinte minutos. Perguntaram como foi o dia dela e toda a imundície impregnada durante ele foi se limpando mediante reclamações e piadinhas carregadas de revolta. No final das contas, já estava rindo dela mesma e da própria vida. Simplesmente estava com seus amigos, que impulsionaram-na para a segunda aula.
Aquela sim estava interessante, mas o corpo então reclamou cama e o sono atrapalhou seu entendimento. Foi embora e naquele ônibus não dormiu. O medo de andar sozinha a essas horas da noite deixava-a alerta. De repente viu-se em frente ao prédio novamente. Aquilo que estava mais próximo de chamar de casa. Deu de cara com as escadas e subiu corajosamente os oito andares. No apartamento entrou logo para o banho e suas costas agradeceram a água quente do chuveiro. Foi irresistível a vontade de molhar também os cabelos. Queria ficar ali para sempre. Não podia, mas quando saiu já estava um pouco anestesiada. Um cheiro bom exalava de seu corpo e deitou-se na cama com uma sensação boa sobre si mesma.
Naquele momento sentiu uma pequena dor da coluna se encaixando no colchão. Os ossos descansavam da gravidade. A cabeça já não absorvia mais nada, mas lembrou-se de estudar. Tudo, menos aquilo. Relutante, fez café e ainda pegou um refrigerante à base de cafeína na geladeira. Escolheu um livro e lutou com ele durante três longas horas. Fechou-o satisfeita. Divagou um pouco no pensamento de ser uma grande jornalista. Não foi por muito tempo, pois logo voltou a si e olhou o relógio. Podia ser mesmo que já eram três horas da manhã? Sim, mas é claro que sim. Não havia motivo para ficar surpresa, pois ontem havia sido domingo, o dia de dormir oito horas. Evitou pensar no amanhã e logo mergulhou em poucas e profundas horas de sono.
Acordou novamente cansada e quando deu por si já fazia seu café. Desceu as escadas novamente sem olhar o elevador. Ao sair foi pega de surpresa pelo sol e fechou os olhos. Lembrou-se da praia. Gostaria de ir vender coco na praia. Nada de ser jornalista, outra vida corrida. Essa vida em que até o simples fato de estar acordado é artificial. Não queria mais viver nos intervalos. Queria tudo e por inteiro. Duvidou de seus sonhos, de seu futuro desejado cheio de sono. Tomou a direção da rodoviária. O destino era o litoral, não sabia qual cidade ao certo. Quando chegasse pensava nisso. Estava feliz. Dormiria muito por lá. Podia sentir a liberdade do tamanho do mundo. Corria dos seus sonhos, do mundo com sono, do mundo corrido. Corria do viver para trabalhar. Vivia! Mas o despertador logo interrompeu o sonho. Não o sono, é claro. E como ela acreditou num sonho daqueles? Ela sabia que não fugiria nunca. Não perderia a luta, era só parar de duvidar do prêmio. Foi tomar seu café como usualmente. Ele espantou a vontade de dormir, mas dessa vez o sonho lhe havia conferido um gosto insalubre de realidade.
Naquele dia ele havia brigado com a namorada, e Poliana fez com que ele tivesse certeza de que estava certo. Certas também estavam todas as pessoas que vinham transformar o balcão de informações num balcão de reclamações. Estavam certas e ouviam isso com um sorriso dos lábios dela. Desse modo as horas passearam pelo ponteiro do relógio. Pessoas iam e vinham, todas sem muito rumo. Havia espaços de tempo em que ficava sem ter o que fazer e sua cabeça se esvaía num mundo de pensamentos. Sonhava acordada. Pensava em que fazer da vida. Não sabia se casava ou se comprava uma bicicleta. Nesses casos gostaria de ter seu próprio balcão de informações.
Porém, como toda hora que se espera, o fim do expediente veio. Passou o ônibus para ir para casa, mas nesse ela não foi. Subiu no que ia para a faculdade e ali também dormiu. Sonhou que caía e acordou-se levantando de espanto. Perdeu o ponto e teve de andar mais três quarteirões. Chegou atrasada na aula e assistiu pacientemente o professor contar as histórias da vida dele. O intervalo chegou junto com a conversa com os amigos. Estava feliz durante aqueles vinte minutos. Perguntaram como foi o dia dela e toda a imundície impregnada durante ele foi se limpando mediante reclamações e piadinhas carregadas de revolta. No final das contas, já estava rindo dela mesma e da própria vida. Simplesmente estava com seus amigos, que impulsionaram-na para a segunda aula.
Aquela sim estava interessante, mas o corpo então reclamou cama e o sono atrapalhou seu entendimento. Foi embora e naquele ônibus não dormiu. O medo de andar sozinha a essas horas da noite deixava-a alerta. De repente viu-se em frente ao prédio novamente. Aquilo que estava mais próximo de chamar de casa. Deu de cara com as escadas e subiu corajosamente os oito andares. No apartamento entrou logo para o banho e suas costas agradeceram a água quente do chuveiro. Foi irresistível a vontade de molhar também os cabelos. Queria ficar ali para sempre. Não podia, mas quando saiu já estava um pouco anestesiada. Um cheiro bom exalava de seu corpo e deitou-se na cama com uma sensação boa sobre si mesma.
Naquele momento sentiu uma pequena dor da coluna se encaixando no colchão. Os ossos descansavam da gravidade. A cabeça já não absorvia mais nada, mas lembrou-se de estudar. Tudo, menos aquilo. Relutante, fez café e ainda pegou um refrigerante à base de cafeína na geladeira. Escolheu um livro e lutou com ele durante três longas horas. Fechou-o satisfeita. Divagou um pouco no pensamento de ser uma grande jornalista. Não foi por muito tempo, pois logo voltou a si e olhou o relógio. Podia ser mesmo que já eram três horas da manhã? Sim, mas é claro que sim. Não havia motivo para ficar surpresa, pois ontem havia sido domingo, o dia de dormir oito horas. Evitou pensar no amanhã e logo mergulhou em poucas e profundas horas de sono.
Acordou novamente cansada e quando deu por si já fazia seu café. Desceu as escadas novamente sem olhar o elevador. Ao sair foi pega de surpresa pelo sol e fechou os olhos. Lembrou-se da praia. Gostaria de ir vender coco na praia. Nada de ser jornalista, outra vida corrida. Essa vida em que até o simples fato de estar acordado é artificial. Não queria mais viver nos intervalos. Queria tudo e por inteiro. Duvidou de seus sonhos, de seu futuro desejado cheio de sono. Tomou a direção da rodoviária. O destino era o litoral, não sabia qual cidade ao certo. Quando chegasse pensava nisso. Estava feliz. Dormiria muito por lá. Podia sentir a liberdade do tamanho do mundo. Corria dos seus sonhos, do mundo com sono, do mundo corrido. Corria do viver para trabalhar. Vivia! Mas o despertador logo interrompeu o sonho. Não o sono, é claro. E como ela acreditou num sonho daqueles? Ela sabia que não fugiria nunca. Não perderia a luta, era só parar de duvidar do prêmio. Foi tomar seu café como usualmente. Ele espantou a vontade de dormir, mas dessa vez o sonho lhe havia conferido um gosto insalubre de realidade.

1 Comments:
Nos-sa... P E R F E I T O!!!
Muuuuito, muuuuito bom msm!!!
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