Saturday, November 11, 2006

Imperfeito

Apesar dos pesares, da pressa cotidiana e do chefe que normalmente já estava nervoso no escritório, ela insistia em levar a filha ao colégio todas as manhãs. Mãe solteira e órfã aos quarenta e cinco anos, ela possuía um conceito de família muito restrito. Divorciada uma vez e abandonada pelo marido na outra, cansou das brincadeiras do amor e dos hormônios e voltou logo a morar com a mãe em busca do afeto sincero, de modo que três gerações já haviam habitado aquela casa azul da esquina. No entanto, como já dito, agora apenas restavam mãe e filha. Estas possuíam um relacionamento peculiar e, se não fosse pela condição humana da necessidade de trabalhar pela sobrevivência, poder-se-ia dizer que ali havia um contexto auto-suficiente. O mundo da mãe era a filha e o mundo da filha era a mãe. Com a intenção de ser redundante, digo que se bastavam.

Suas rotinas entrelaçadas iam completando seus ciclos diários de maneira incrivelmente enriquecedora. A mãe, que trabalhava oito horas por dia no outro lado da cidade, via-se impossibilitada de buscar sua filha na mesma escola para a qual a levava todas as manhãs. Chegava em casa às seis, horário em que fazia janta e ambas assistiam à novela. A filha, por sua vez, de natureza tímida e reservada, não vinha lhe receber com um abraço e um beijo. Contudo, sua ansiedade podia ser percebida no apontar da cabeça pela janela quando caía o sol, hora em que ficava atenta a qualquer sinal da chegada da mãe. O entusiasmo era claro na conversa ininterrupta que mantinha com ela desde o momento em que adentrava a casa. Aquilo sim nos olhos e no sorriso de ambas era saudade. Não era saudade dessas que precisam ser cantadas aos quatro ventos, mas daquelas contidas que se sabem recíprocas.

As relações com a vizinhança eram boas: a mãe ajudava nas missas da Igreja e a filha brincava sempre com as outras crianças do bairro. Ainda sim, aquilo que possuíam entre si era diferente. Era um vínculo de sangue, de necessidade, de amor, de sofrimento e de convivência habitual.

Num dia desses, porém, um porém aconteceu. Não foi um desses comuns que acometem dia a dia nossas vidas, mas sim um que veio para surpreender qualquer tipo de expectativa. Um dia a filha não foi olhar pela janela para ver se a mãe já vinha. Foi esse o mesmo dia em que a mãe chegou em casa e não a encontrou esperando. Na escola, apenas sabiam que tinha ido para casa. No bairro, apenas sabiam que saíra da escola. Uma hora depois já estava conversando com os policias, mas ninguém parecia entender o quanto aquela situação era fora do comum e todos, por se tratar de um caso recente, simplesmente esperavam que ela retornasse logo. Voltou para casa desanimada com a resposta de que tomariam providências.

No entanto, de fato as tomaram. Não só eles, como também uma rede enorme de pessoas solidárias que faziam parte das mais diversas organizações. A foto sorridente da menina passou a figurar na Internet, nos ônibus e nas embalagens de diversos produtos. Passou então a pairar no ar a dúvida se agora aqueles seriam os únicos registros de sua existência. A mãe virou alvo de várias palavras de consolo que só faziam aumentar seu desespero. Sua filha havia desaparecido e desde então se sentia perdida no mundo. As horas não faziam sentido, tendo em vista que o tempo parou num momento de espera contínua. Cada nova tentativa de encontrá-la testava sua fé. Seu andar agora era um eterno pisar num mundo sem chão e seu olhar apenas se voltava para os rostos de crianças que encontrava no caminho. Era uma morto-viva à procura da própria alma. Da esperança só ia ficando mesmo a espera. Agora, nada mais se dirá ao leitor, porque algumas histórias são assim mesmo: não se beneficiam desse luxo de possuir uma conclusão.

6 Comments:

At 7:43 AM, November 12, 2006, Anonymous Anonymous said...

Humanamente preciso.
Acho que descreveu muito bem, desde a luta feminina ao desfecho, que com poucas palavras resumiu bem a vida.
"...nem todas historias de o luxo da conclusão..."

 
At 11:30 AM, November 16, 2006, Anonymous Anonymous said...

Lu, é simplesmente perfeita... A história é ótima, envolvente. Mas o desfecho é muito melhor. A conclusão que dei é tão inesperada. Depois eu te conto. Fico imaginando como leitor vai terminar a sua...

 
At 3:39 PM, November 16, 2006, Anonymous Anonymous said...

De imperfeito só o título, neh!
Naum preciso dizer mais nada...

 
At 4:53 PM, November 16, 2006, Anonymous Anonymous said...

Aff... fui tentar pegar uns trechos do seu texto, pra mostrar quais foram mais fortes pra mim, jah q naum consigo postar um comentário a altura... mas eh impossível!!! kse copiei o texto todo pra cá... fikou bom dimaaaaaaaaaais!!! Parabéns, ow...

 
At 1:10 AM, November 17, 2006, Anonymous Anonymous said...

Vc devia levar suas histórias pra alguma editora. Impressionante como elas são boas e impressionante o tanto que elas fazem a gente pensar, elas realmente educam. Parabéns!

 
At 4:03 PM, September 27, 2007, Anonymous Anonymous said...

Nem preciso dizer q concordo c a Debs ne...
vc eh uma escritora talentosíssima Lu!!!
vamos lançar a campanha "publica lu!!!"
bjim!

 

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