O menino e o mar
Pela primeira vez na vida, aos doze anos de idade, ele sentia-se velho. Sentado na areia, com os pés molhados das ondas que se atreviam a chegar mais perto, ele sentia o peso da solidão de deixar para trás uma vida inteira. Nenhum ambiente poderia ser mais simbólico do que este de estar diante da imensidão fria, densa e solitária do mar. Aquilo então era velhice: um momento de nostalgia intensa, no qual se sente que não faz mais parte dessa vida, e, no entanto, ainda o faz; e tudo que resta são lembranças que apenas fazem notar tudo aquilo que não há de ser, ou que não pode ser mais. Sentia-se velho. Estava embriagado pelo sentimento de não poder ter de novo tudo aquilo que já teve.
Seus pais se separaram e a vida havia perdido algo de sagrado. Não foi a separação em si, mas todas as brigas que levaram a ela que fizeram a vida parecer um mar de sofrimento. As refeições eram rituais diários de humilhação da mãe em frente à cozinha preparando a comida para um marido que parecia ser seu pior inimigo. As tardes de domingo eram pesadas cortinas que traziam um silêncio não de paz, mas de guerra. Carinho era uma palavra que perdia o significado em relação a duas pessoas que se conheciam muito bem e que pareciam se odiar e se maltratar por isso. E amor? Amor era simplesmente o primeiro nome da decepção, simplesmente um lugar por onde se passa para fortalecer o isolamento.
No entanto, ele amava e sabia que sofria agora porque amava. Amava os pais e amava a família que constituíam antes das coisas mudarem. Era difícil precisar quando elas mudaram ou o motivo pelo qual elas mudaram, mas ele certamente sabia que elas mudaram. Ele não só não entendeu o porquê da mudança, como também não compreendeu que durante um certo tempo os pais tentaram persistir numa relação que rejeitavam, por comodismo ou medo de uma solidão mais óbvia.
Agora se sentia como um resto inoperante de algo que foi destruído e não voltava mais; sentia que aquela vida não mais lhe pertencia e, ainda assim, ele estava por ali. Ele havia sobrevivido quando não deveria e por isto estava velho: havia passado a época em que sua existência fazia sentido. Assim como o mar, a solidão que sentia era grande demais para ser contida. Mal ele sabia, e com sorte ele teria forças para aprender, que o mar e a solidão eram o caminho para a própria liberdade para aqueles que tinham coragem de enfrentá-los e paciência para tanto. E que velhice é uma doença contagiosa do espírito que pode acometer qualquer pessoa, em qualquer tempo e qualquer lugar. E ainda, com sorte, logo a vida lhe ensinaria que o mar, assim como a solidão, é o próprio segredo da vida, algo que pode ligar ou dividir o mundo inteiro.

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