Entre o repouso e o movimento
Cai na real. Essa era a expressão que retumbava em seus ouvidos, enquanto sentia a pressão enorme do céu em cima dele e das mãos que seguravam as suas. Já estava anoitecendo e ele se perguntava quanto tempo ainda resistiria àquela situação ou, para ser mais claro e coerente, por quanto tempo ainda teria coragem de criar aquela situação e acreditar que aquilo valia qualquer coisa que seja. Por um longo momento duvidou que aquelas mãos estivessem realmente entrelaçadas nas suas, que soubessem o que estavam fazendo ou que compreendessem a realidade da situação que criavam e que se colocava agora diante delas. Não seriam mãos ingênuas demais?
No entanto, ainda sim, lá estava ele de mãos dadas, formando uma corrente com outras, que acreditavam proteger seu meio-ambiente se abraçando a uma árvore. A decisão de servir de escudo humano não surgiu logo que souberam que a administração da cidade havia expedido a ordem para derrubar a árvore e construir um centro de compras no lugar. Tentou-se primeiro o judiciário, o qual ainda estava analisando o pedido, quando as obras começaram. O prefeito, ignorando o processo que corria na justiça, mandou que se iniciasse a construção. Foi preciso, assim, tomar medidas urgentes e, portanto, drásticas: abraçaram-se à árvore.
O representante escolhido democraticamente pelo povo, assim que soube, irritou-se com tamanha falta de bom-senso e, na entrevista para os jornais locais, vangloriava-se de seu ato de gestão pública, declamando a promoção da economia local e do bem-estar dos queridos concidadãos. O grupo de defesa ao meio-ambiente, por sua vez, em entrevista aos mesmos jornais, revoltava-se diante de tamanha falta de bom senso por parte da administração local.
Pois não era verdade que a árvore tinha mais de duzentos anos? Em resposta a essa pergunta, argumentou-se que a raiz quebrava o passeio, que havia uma grande dificuldade na manutenção de tamanho monumento no centro da cidade, que a árvore ultimamente não havia feito muitas coisas para a promoção do turismo e, por fim, que se localizava em um lugar estratégico para o comércio. Desta forma, a árvore não tinha mais utilidade. Era, outrossim, mais um sinal dos tempos antigos e não combinava com as estruturas arquitetônicas contemporâneas dos novos prédios e daquilo que eles chamavam de inclusão da cidade no mundo globalizado.
O chefe da empreitada estava visivelmente descontente com a situação. Era impossível começar as obras sem derrubar a árvore e, em claro impedimento, lá estavam aquelas pessoas loucas querendo salvar o mundo e, ao tentar fazê-lo, adiando cada vez mais sua hora de almoço. Não adiantava xingar, não adiantava gritar e, pelo visto, nem mesmo jogar água. Permaneciam imutáveis e pareciam inamovíveis. Só abriam a boca para falar com a imprensa e só mudavam de expressão para demonstrar a revolta diante das câmeras.
A mídia local era eficiente e, ajudada pela característica nada agitada da cidade, conseguiu chamar atenção da população local de curiosos. Uma multidão se reuniu para presenciar o evento. Alguns levavam cartazes, enquanto outros levavam faixas que não se sabia como conseguiram produzir em tão pouco tempo. Ainda havia outros que criticavam, com palavras bonitas ou não, aquela atitude que certamente não teria um final feliz. Entretanto, a grande maioria, sem opinião, apenas queria ver que fim levaria aquele causo.
Não havia ainda anoitecido quando os carros da polícia chegaram. Foi neste momento que as mãos do nosso herói começaram a suar frio, em visível demonstração de medo. Ele se perguntava se o medo advinha da falta de confiança no meio adotado para resolver a causa, se era da pequena desconfiança da utilidade da própria causa ou se o medo existiria de qualquer maneira. Como resposta, as outras mãos apertaram-se ainda mais fortes em volta da sua. No entanto, o pequeno movimento foi capaz de demonstrar como todas elas estavam escorregadias. Neste acanhado impulso, as mãos duvidosas voltavam-se umas para as outras em busca de convicção.
E foi neste mesmo momento que ele imaginou os vários desfeches que aquela história poderia ter. Imaginou-se o herói na foto do jornal, o preso numa cela insalubre, o bobo da corte de que todos riam e, por fim, apenas mais um na multidão no dia seguinte, quando todas as pessoas ocupassem suas cabeças com um episódio mais recente. Descobriu-se covarde. Quis largar tudo, quis ir embora, desistir da causa. No entanto, permaneceu. Naquele momento ele não soube o porquê, imaginou ser inércia. Talvez fosse sim essa inércia, essa força interna que faz com que as pessoas mantenham seus hábitos, suas atitudes, seu jeito de ser. Essa inércia da personalidade. Talvez ele tenha permanecido porque havia se acostumado a acreditar que podia fazer algo pelas causas nobre. Mas talvez não. Talvez ele tenha tomado a mesma decisão que ele tomava todos os dias de sua vida. Talvez ele tenha permanecido porque aquela atitude definia quem ele era, sua personalidade. Talvez, sim, ele ficasse porque não importava o desfecho da história, o rumo que sua vida tomasse a partir dali, ele teria escolhido acreditar em si mesmo e seguir acreditando em tudo que vinha acreditando até então, mesmo contra todas as forças que diziam que não, que mandavam que ele parasse. Isto é, talvez ele tenha escolhido não ser inerte.
Não se sabe se foi por um novo impulso, ou se foi por um contínuo estado de repouso, mas as mãos continuaram trêmulas e unidas.

6 Comments:
Luuuuuu!!! Sem comentários, neh... como sempre! Parabéns! Amei! Dá gosto vir aki... =)
Olá, hum, belo texto. Resolvi te responder por aqui, pagar com a mesma moeda. Que bom que gosotu do poema, na verdade ele ja esta ultrapassado, to escrevendo muito. So não tenho postado. Te mando por e-mail essa semana. Engraçado, desde setembro que não posto mesmo. Te mando, depois me fala o que achou, ok? Até mais...
Luuuuuu!!! C naum vai acreditar!!! Sonhei q vc tava me mostranu um conto novo q vc tinha escrito, credita??? Pior eh q tô pelejanu pra lembrar sobre o q era e naum consigo... achu q tõ carente de ler seus textos... atualiza aki!!!
Nem todos os amores são tristes. a felicidade também é bela.... Hum, comentario interessante, concordo com você. Me dê um exemplo de felicidade. Se não for pedir muito.
Lu! por acaso vc viu essa cena em algum lugar? Sem noção!!!
Lindo lindo lindo!!!
Beeeju!
... morreu???
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