Tuesday, June 27, 2006

Sono e Vigília I

A vida ia então se mostrando como um monte de acontecimentos sucessivos completamente sem-graça. Nada se relacionava com aquelas metáforas, alegorias, experiências que lia nos livros, via nos filmes ou ouvia nos relatos de outras pessoas. Será que não vivia intensamente o suficiente? Olhou mais uma vez para o professor sem saber do que ele falava. Ele olhou-a por um instante, como que percebendo que sua atenção há muito deixara aquela sala. Ela se perguntou se ele poderia entendê-la. Aquele desespero latente de ser e fazer algo mais a estar sentada naquela cadeira, dentro de uma sala de aula. As pálpebras não se mantinham abertas, porque afinal tudo era chato. O quadro era chato, a voz induzia ao sono, a luz incomodava as pupilas e o assunto de quem conversava ao seu redor não despertava interesse. O professor fitou-a novamente e, com medo da represália, ela tentou despertar-se. Endireitou-se na cadeira, levantou a cabeça e pegou o lápis. Foi uma luta intensa. Não conseguiu prestar atenção em uma palavra, pois toda sua concentração voltava-se para manter os olhos abertos. Eles pareciam automáticos, seres autônomos, independentes do seu cérebro, livres do seu comando. Ouviu o sinal. Espreguiçou, levantou-se e foi andando devagar até sair da sala de aula. Deu os primeiros passos em cima da grama. Aos poucos foi saindo da sombra, mas parecia que era o sol que vinha até ela. Vinha e ia quebrando as amarras, esquentando o corpo e reanimando as células. Sorriu. De repente estava já de vigília, plenamente desperta e de prontidão para a vida lá fora.
***
Ele me olhou da cama e seus olhos pareciam atravessar muros e portas de outro mundo. Focou-os diretamente sobre mim, mas não parecia me ver. Logo os fechou novamente, o que me fez voltar a observar seu rosto inchado pela medicação. Peguei o livro e comecei a ler. Não sabia se ele podia me ouvir. No entanto, seguia lendo e comentando as passagens. Por quem eu fazia isso? Por ele? Se ele estava consciente, estaria tão solitário. Quando os enfermeiros o chamavam ou lhe davam ordens, ele atravessa os vários planos da existência para responder ou para obedecer. Talvez não fosse por ele, talvez fosse por mim que eu lesse, numa simulação bem inverossímil da nossa antiga convivência. Enquanto isso o soro corria nas veias. A cada hora ele estava mais acordado. Abria mais freqüentemente os olhos, que por sua vez pareciam perceber um mundo muito estranho à sua volta. Quando finalmente voltou a si, estava sonolento. Tentava em vão reconhecer o aposento ou enquadrar a situação em seu raciocínio, mas logo voltava a dormir. Ele queria se manter desperto e atento para retomar o controle da situação. Imaginei que tudo lhe parecia um absurdo naquele momento e por isto expliquei-lhe do acidente, do desmaio, do pronto socorro e enfim do quarto no centro de tratamento intensivo. Arrependi-me em seguida, com medo de tê-lo assustado. Logo o medo mostrou-se infundado, pois quando ele começou a formular perguntas percebi que de nada se lembrava. Eu repetia as informações, mas estas se perdiam no limiar do sonho, do sono e da realidade. Onde ele estava agora? Ele transitava uma área cinza e por fim peguei sua mão no desejo de mostrar-lhe o caminho certo, o caminho de volta para mim.
***
Jogou mais um cobertor sobre os outros e logo se enfiou debaixo de todos eles. A noite estava gelada e parecia ficar ainda mais fria com a sensação da cama vazia. Incrível como ela era um pensamento recorrente naqueles minutos antes de dormir. Considerava uma benção o fato de estar cansado. Ela não incomodava mais, mas sempre vinha habitar seus pensamentos, logo também o sono, e depois os sonhos. Supérflua, pensava repudiando-a. “Você é supérflua. Você constitui tudo que é desnecessário, que vem habitar meus pensamentos quando mais nada o faz. Supérflua. Você flui acima de tudo, acima de todas as coisas. Você passa por elas e não as toca. É inútil”. Depois se questionava. A verdade é que ele queria que fosse ela fosse inútil porque agora já era perda de tempo pensar nela. Desejava da mesma maneira que ela não fosse capaz de tocar ninguém, porque impressionava como havia passado incólume ao término do noivado. No dia-a-dia ele nem se lembrava dela, mas era certo que, nessa tentativa de fuga, acabava por nem se lembrar de si. Já à noite, quando o mundo inteiro parava, era ela que fluía dos pensamentos ao sonho, traspassando consciente e subconsciente. Ela o sobrepujava quando ele não podia mais se dominar, vigiar seus próprios passos. Supérflua, acima de todas as coisas, nesses momentos ela o inundava por inteiro.
***
Há quanto tempo tentava dormir sem sucesso? Nem se atrevia a olhar o relógio, pois sabia que deveria estar no sétimo sono a essas horas para poder enfrentar o dia seguinte. Por mais uma dessas ironias da vida, a obrigação de dormir ia mantê-la acordada e assim tentava ignorar o fato de que os minutos estavam chegando e indo embora. O corpo inteiro parecia estar preparado para uma armadilha, com o cérebro disparado e os músculos rijos. Fechar os olhos era uma atitude sem resultado, posto que era instantâneo que toda a agenda dos dias, semanas e meses seguintes se formasse em sua cabeça. Possuía tantos compromissos que às vezes tinha vontade de chorar, assim preferia deixá-los aberto fitando o teto escuro. Pior era saber que ela mesma era a culpada. Talvez fosse falta de amor próprio submeter-se a essa correria louca, esgotando-se de tal forma a ponto de achar que seus sonhos não faziam mais sentido. Buscava às vezes responsabilizar o sistema capitalista, a força opressora da sociedade e a ditadura do relógio. No entanto, o sono não vinha e isso lhe permitia continuar seu raciocínio. Pois bem, não era ela que mandava e desmandava nos seus horários, não era ela que marcava e desmarcava novas atividades? Não era ela a senhora do seu destino? Nestes momentos de crise, a insônia vinha para ficar. Era patético ver um ser humano preso a seus sonhos, quando estes já significaram liberdade. A vigília, a prontidão e o medo de fracassar mantinham-na afastada do seu sono e às vezes virava a noite sonhando em dormir.

2 Comments:

At 3:21 PM, June 28, 2006, Anonymous Anonymous said...

Nossa, Lu q lindo... "A vigília, a prontidão e o medo de fracassar mantinham-na afastada do seu sono e às vezes virava a noite sonhando em dormir.".. perfeito!!! vc eh demais! :)
bjos

 
At 6:01 PM, June 28, 2006, Anonymous Anonymous said...

Nóooo... q doido! Até parecia q eu tinha lido seus textos hj qdo comentei q pensar era uma porkaria, q passei a noite inteira tentanu durmi, mas naum conseguia pq naum parava d pensar... huahauhaa... foi por isso q c me perguntou se eu tinha visto seu blog? muita coincidência!!! Ooooow... mas mto bom! Como sempre, vc e sua ótima percepção da realidade... mto real essa primeira parte e muito esclarecedora a segunda...

 

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