Tuesday, May 30, 2006

A morte da fé

Da infância nasceu o sonho. Como todo sonho, não era muito nítido, tampouco muito conexo. Para ele, estava tão distante da realidade que quase existia por si só. Não era querer, não era desejar ou uma vontade. Era tudo isso. Ele sonhava com todas as qualidades que esse verbo único implica. Começou quando era bem pequeno, no primeiro dia da primeira Copa do Mundo a que ele assistiu. Estava no colo de seu pai num bar de uma favela de cidade grande. Foi rodeado de homens e mulheres com ânimos exaltados que ele viu o goleiro agarrar a bola e sentiu os gritos, berros e a comoção geral fazerem vibrar todo seu interior. O pai levantou-o num impulso de felicidade e foi lá em cima mesmo que ele teve certeza de que queria ser herói. Seu destino era ser jogador de futebol e nada além.

Da vontade nasceu a tentativa. Ninguém que é vivo o bastante é capaz de querer e não fazer nada para ter. A vontade é o próprio ânimo imanente à vida. Vive quem tem vontade e tem vontade quem vive. Ela está sempre um passo a frente, apesar das nossas estratégias para alcançá-la, saciá-la. Pois bem, ele começou treinando no campo de terra batida com o professor de educação física que de vez em quando ia visitar o morro. Nos treinos recebia bastante incentivo desse homem que por sua vez também sonhava em salvar o mundo com uma bola. O aluno dedicado ouvia muitos elogios sinceros. Convenceu-se de que ali ele era o melhor e, feliz, contava isso todo dia para os pais na hora da janta.

Da equação sonho e mundo surgiu a ilusão. A princípio, como toda ilusão, não tinha nenhum aspecto que a denunciasse. Apenas o sonho gerava uma presunção não verificável de que ela pudesse existir. Isso porque todo sonho é capaz de virar realidade e, até que se chega no momento de sua impossibilidade, nunca se pode afirmar com certeza de que se trata de uma ilusão. Então aconteceu que o pai morreu num tiroteio e a mãe não teve tempo de derramar uma lágrima, preocupada que estava em terminar de criar os filhos. Logo arranjou mais um emprego. Não foi suficiente e, desesperada, mandou os filhos arrumarem um emprego. Não conseguiram e, nos seus doze e quatorze anos, começaram a vender balas nos ônibus. Assim que o embrionário jogador de futebol passou a ficar cansado, não tinha a mesma disposição de antes e os treinos foram ficando escassos. As coisas pareciam caminhar dentro de uma espiral que se afundava mais e mais na desesperança, num giro de tristeza muda e ensurdecedora.

Da existência veio a compreensão. Saber que algo que se espera não vai chegar é deparar-se com a ilusão. Uma vez que a encontramos, parece que ela sempre existiu e que durante todo o tempo havíamos vivido em negação. Trabalhou em outros empregos que nem sequer se aproximavam da salubridade, quanto mais da dignidade. Futebol passou a existir só na televisão do bar, momento em que descansava e tinha saudade dos velhos tempos. Um dia arrumou um emprego de carteira assinada e começou a fazer planos novamente. Mas parece que estavam gastando muito com ele, porque lhe disseram que seria demitido para reduzir os custos da empresa. Após inúmeras tentativas de encontrar um emprego melhor, voltou a vender balas no ônibus e, numa tarde dessas, um velhinho que lá estava comprou uma bala e com um sorriso disse-lhe para ter esperança. Foi examente ali, sob aquele sol, ao pegar as moedas da mão trêmula, que ele caiu em si. Entendeu como aquele velhinho o via. Sua alma pareceu se levantar e analisá-lo do mesmo modo que o mundo inteiro fazia. Não respondeu porque a raiva que lhe inundava era muito grande e tinha medo de que, por uma abertura que fosse, ela explodisse.

Do sofrimento originou-se a resignação. Ninguém consegue sofrer por muito tempo. Alguns resistem mais, outros menos, mas todos param uma vez que a esperança não encontra mais sustentação. Aceitou-se e a vontade desapareceu. A inércia passou a mover-lhe. Eventualmente achou um emprego melhor, mas já não fazia diferença. Sua situação não era passageira. Continuava esperando esbarrar com o sonho em alguma esquina ou algum olhar estranho. Nunca mais em si mesmo.

Da resignação não se principiou nada. Agora ele anda pelas ruas se desviando naturalmente das pessoas e, como sempre, sem notar qualquer face, roupa ou estilo. Ele vai pensando em que? No fazer, nunca no existir, na bebida, não naquela horrível sobriedade, nas meninas sem nome que ele havia ficado no dia anterior, num agora sem sentido e sem futuro. Em suma, no viver por viver, nas coisas com eram e não como deviam ser. Para por um momento no sinal, sem se preocupar com a espera. Vai assistir à Copa do Mundo de novo, mas sem ressentimentos, porque não acredita mais nos heróis dela. Heróis não existem, ele raciocina. Heróis mudam o mundo, mas se o mundo não muda, então não faz sentido essa história de herói. No sinal, ele espera. Tem todo o tempo do mundo. Vai assistir a bola rolando no campo sabendo que aquilo não quer dizer nada mais do que uma bola rolando no campo. Ele espera. Não precisa correr, não tem mais vontade.

2 Comments:

At 10:12 PM, June 10, 2006, Anonymous Anonymous said...

Nossa... antes d durmi tinha q vir aki, neh! Saudades d ler seus textos... fazia muito q vinha aki e ia embora decepcionada por naum encontrar um novo, como estava procuranu... ia té comentar, maaas... sem palavras... depois d uma análise dessa sobre tudo... sim, sou pequena dimais pra conseguir fazer um comentário à altura... o q posso dizer é: simplesmente perfeito!!! Q isso ow... nunca ouvi definições taum boas de sonho, vontade, ilusão... nunca vi uma gradação taum perfeita e real... é exatamente isso o q acontece... é exatamente de um q vai nascenu o outro e é exatamente esse o caminho dos sonhos q só podem nascer msm da mente ingênua d uma criança... infelizmente as coisas acontecem assim... naum é pra ser perfeito, mas real, e a realidade é essa msm... "Da infância nasceu o sonho. Como todo sonho, não era muito nítido, tampouco muito conexo" "Da vontade nasceu a tentativa. Ninguém que é vivo o bastante é capaz de querer e não fazer nada para ter" "Da equação sonho e mundo surgiu a ilusão. A princípio, como toda ilusão, não tinha nenhum aspecto que a denunciasse. Apenas o sonho gerava uma presunção não verificável de que ela pudesse existir. Isso porque todo sonho é capaz de virar realidade e, até que se chega no momento de sua impossibilidade, nunca se pode afirmar com certeza de que se trata de uma ilusão" "Da existência veio a compreensão. Saber que algo que se espera não vai chegar é deparar-se com a ilusão. Uma vez que a encontramos, parece que ela sempre existiu e que durante todo o tempo havíamos vivido em negação" "Do sofrimento originou-se a resignação. Ninguém consegue sofrer por muito tempo. Alguns resistem mais, outros menos, mas todos param uma vez que a esperança não encontra mais sustentação. Aceitou-se e a vontade desapareceu. A inércia passou a mover-lhe" "Da resignação não se principiou nada... No fazer, nunca no existir, na bebida, não naquela horrível sobriedade, nas meninas sem nome que ele havia ficado no dia anterior, num agora sem sentido e sem futuro. Em suma, no viver por viver, nas coisas com eram e não como deviam ser... Heróis não existem, ele raciocina. Heróis mudam o mundo, mas se o mundo não muda, então não faz sentido essa história de herói... Vai assistir a bola rolando no campo sabendo que aquilo não quer dizer nada mais do que uma bola rolando no campo. Ele espera. Não precisa correr, não tem mais vontade"... desculpa eu praticamente copiar seu texto pra cá... mas é q foi perfeito dimais pra mim preu deixar d ressaltar... nossa... "Heróis mudam o mundo, mas se o mundo não muda, então não faz sentido essa história de herói...". Lu... preciso repetir: per-fei-to!

 
At 3:03 PM, June 22, 2006, Anonymous Anonymous said...

pois eh...
o q dizer...
ontem ouvi vc reclamar e vim aki pra ler de novo essa perfeicao e marcar presenca...
c ta no curso errado Lu... c ia dar uma bela duma filósofa isso sim...
de onde q c tira isso?
ta bom ta bom...
nao vou repetir a palavra PERFEITO nao... a grazi ja disse... e ja ta ficando chato isso d babar tanto ne...
tento bolar algum comentario pertinente aki mas quase sempre xego à conclusao q a reação q mais se adequa aos seus textos eh o silencio mesmo... a reflexao....
parabens lu...
Bju

 

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