Através
Entrou no ônibus procurando a poltrona na qual ficaria. Quinze, dezesseis, dezessete... Dezoito. Ao lado, na poltrona dezessete, havia um jovem de uns... Vinte anos? Tinha um ar tranqüilo e ao mesmo tempo ensimesmado. Pareceu não notá-la até que se sentou ao seu lado.
- Boa noite.
- Boa noite.
- Você se incomoda se eu fechar as cortinas?
- Preferiria que você as deixasse abertas.
- Por favor, é uma viagem longa e eu não consigo dormir com as luzes da cidade. Assim que a gente atingir a estrada, você abre de novo.
- Desculpe, mas eu gosto das cortinas abertas.
- Desculpe-me você - disse ela ficando brava, mas isso é uma atitude muito egoísta da sua parte. Eu estou pedindo que você deixe elas fechadas por apenas uma hora.
- Sinto muito - e ao falar ele tinha os olhos fixos na poltrona do outro lado do corredor do ônibus.
Confusa, a garota olhou para a outra poltrona e depois para os olhos dele.
- Com quem você está falando?
- Com quem parece? Com você, ué!
- Então por que não olha para mim?
- Desculpe, minha visão não me deixa encontrar seus olhos.
Sentiu-se terrível. Então ele era cego.
- Mil perdões.
O motorista deu a partida no ônibus e logo já estavam saindo da rodoviária. Permaneceram em silêncio por cinco minutos inteiros. Durante esse tempo, ele se afogou na profusão de cheiros que emanava dela. O mais forte era o do xampu. Imaginou os cabelos ainda molhados. Depois vinha um cheiro doce, mais suave. Era o perfume. A voz ainda ecoava em sua cabeça e mostrava um misto de força e fragilidade. Sorriu. A garota, que se sentia imensamente envergonhada e um pouco culpada, imaginava o porquê do querer a cortina aberta. Olhava-o com espanto e curiosidade quando viu o sorriso.
- Você está rindo de mim? - perguntou com indignada espontaneidade.
- Não. Estou imaginando a minha sorte de passar a viagem inteira ao lado de uma garota tão bonita.
- Escute aqui, eu sei que você é cego, mas nem por isso pode ficar me insultando e rindo de mim desse jeito.
- Eu fiz um elogio!
- Mas...
- Você me é bastante atraente. Pronto.
Sem saber o que responder, ficou calada. Refletiu um pouco sobre as últimas palavras trocadas e decidiu que tinha sido ofendida:
- Não dei a liberdade para você falar assim comigo.
- Desculpe, disse ele com um sorriso debochado.
- Tudo bem, respondeu já se sentindo ridícula.
Passaram mais quinze minutos em um silêncio aparentemente confortável. Ela não conseguia dormir. Olhava o rapaz ao seu lado e analisava-o. Estava intrigada. Ele tinha uma atitude de quem não devia nada a ninguém e, mais do que respeitar, sentia-se atraída por isso. Entretanto, também ficava um pouco inquieta. Não podia evitar um sentimento de pena pelo fato de ele ser cego. Será que era cego de nascença? Ou será que foi doença? Acidente...? Não sabia como quebrar o silêncio. Abriu uma barra de chocolate.
- Aceita um pouco de...
- Talvez um pedaço.
- Chocolate. Como você sabia?
- Não me olhe com essa cara de espanto. Chocolate tem um cheiro forte.
Quebrou um pedaço da barra e colocou na mão que se estendia em sua direção.
- Obrigado.
- De nada.
Passaram, então, a conversar sobre trivialidades. Sobre o tempo, sobre a viagem e sobre as últimas bandas de música que faziam sucesso. Mal perceberam que já estavam adquirindo uma certa intimidade. Saciavam aos poucos o desejo que tinham de se conhecer mais. Ele gostava de provocá-la, principalmente porque ela aprendeu a não se intimidar pela condição dele. Respondia à altura e entendia todas as brincadeiras. Lá pelas tantas, quando o assunto começou a rarear, ela lembrou-se da pergunta que queria fazer. E a fez com uma naturalidade que impressionou a si mesma. Com a mesma naturalidade ele respondeu.
- Por que você queria as cortinas abertas?
- Eu gosto de imaginar o caminho.
- Mas você nem iria saber se elas estavam abertas ou não.
- Eu não sabia até você me perguntar. Antes eu podia imaginar que estavam.
Ficou pensativa por um momento.
- Você pode imaginar o mundo do jeito que quiser e não tem uma realidade para atrapalhar.
- Verdade, só que de vez em quando a realidade chega e me pede para fechar as cortinas – disse ele sorrindo e depois, assumindo um tom sério, continuou – mas não se engane. Minha vida é limitada de um jeito que eu espero que você não vivencie. Nunca soube nem vou saber o que são as cores, por exemplo.
- As cores...
- Sim.
- As cores são como as formas. Elas também expressam o jeito que as coisas são – falou com ares de professora.
- Como assim?
- Por exemplo, o azul. É a cor do céu. O azul é infinito.
- Do céu? Mas como é o céu? - perguntou com uma voz de menino.
- O céu é infinito. É o teto do mundo - respondeu em tom de confidência.
- Então não acaba mais? Isso é grande, né? – disse sentindo-se um pouco bobo pela inocência das perguntas.
- Muito grande. Mas nem sempre o céu é azul.
- Ah não?
- Não. De vez em quando ele é cinza. O cinza é aquela cor que deixa você parado de um jeito ruim.
- Sem vontade de fazer as coisas?
- Isso mesmo.
- O mar também é azul, num é?
- É sim.
- Ele é grande?
- É.
- Do tamanho do céu?
- Dá a sensação de ser.
- Infinito...
- Isso. Deixa a gente parado de um jeito bom. Quieto como se estivesse satisfeito.
- Então esse é o azul. E o verde? É mesmo a cor da esperança?
- Não. Verde é o cheiro do eucalipto. É a cor da natureza, das plantas!
- Do cheiro de terra molhada?
- Não. Esse é marrom! A terra é marrom!
- Mas como é o marrom?
- O marrom é uma cor sem graça. Só fica legal perto do verde!
- E o amarelo?
- Amarelo é quando você sente a luz do sol esquentando o rosto. Ou mesmo uma lâmpada.
- Uma vela também?
- Não! A vela é vermelha!
- Mas vermelha?
- É, vermelho é o fogo. É quente.
- Mas o sol também é quente.
- O sol, a princípio, é amarelo. Mas se você ficar muito tempo debaixo dele, ele fica vermelho. O sol ilumina as coisas.
- Então o amarelo ilumina?
- Bem, o branco ilumina mais que o amarelo.
- Então o sol também pode ser branco?
- É...
- Acho que você não enxerga - disse com um tom gozador.
- É que o branco ilumina, mas não esquenta como o amarelo. Também dá uma tranqüilidade e uma calma. Os médicos só usam roupas brancas. Dizem que é a cor da paz. E é melhor do que o azul, porque é um infinito que está dentro de você. O branco é o contrário do preto, na verdade!
- Mas e o preto?
- O preto é o que você vê.
Silêncio. Ela logo percebeu a besteira:
- Desculpa.
- Não é culpa sua. Eu me dei conta de que nunca vou saber o que é iluminar - disse ele com uma voz de choro engasgado.
- Não chora! Vou tentar explicar! A gente só enxerga quando está tudo iluminado, entende?
Silêncio. Ela se xingava por dentro. Por que tinha usado a palavra enxergar? Pensou um pouco.
- Desculpa - disse ela colocando uma moeda em suas mãos.
- Você quer comprar minhas desculpas?
- Não!
- Então por que você me deu dinheiro?
- Exato. Como você sabe que é dinheiro?
- Porque você me deu uma moeda!
- Pois é. Você enxergou minha moeda.
Ele deu um sorriso tímido. A garota sentiu-se feliz ao perceber aquela felicidade contida e recém-descoberta. Ainda mais porque ela tinha sido parte causadora. Mal percebeu as palavras saindo descontroladas de sua boca:
- Seu sorriso tem gosto de chocolate.
Silêncio desconfortável. Ambas bochechas queimavam de constrangimento. Aparentemente se tornaram frios e distantes. Assim permaneceram por longos três minutos. Foi ele quem quebrou o gelo.
- E o rosa?
Percebendo a brecha, ela desandou a falar como se as palavras fossem apagar os últimos acontecimentos.
- Rosa é a cor do amor romântico. É a cor do vestido da menininha que sonha em se casar com seu príncipe encantado. Rosa é a cor dos contos de fadas. É feminino, mas isso não quer dizer que só serve para as mulheres. Os homens também usam. Eu diria até que tem que ser muito homem para usar rosa. E quando é, fica bonito. É lógico que não pode ser rosa choque. Rosa choque é cor que chama atenção. Não chega a ser um vermelho que também é a cor da paixão, é diferente. Tenta ser uma paixão misturada com amor. Rosa com vermelho. Mas não consegue, sabe? Acaba que rosa choque fica sendo um amor falso, corrompido. O rosa choque tenta ser amor vibrante, pulsando de paixão e não consegue. Assim mesmo pode ser bonito, por tentar com tanta força.
- Imagino que você não esteja usando rosa choque.
Ela não pôde conter uma risada. Sabia que tinha exagerado.
- Sua risada é rosa.
- São seus olhos – disse ela com uma voz carinhosa, mostrando que gostava do modo como ele a via.
Ambos sorriram de um jeito muito sem jeito. Ela pensava na maneira como ele conseguia enxergar através dela, no seu interior. Ele pensava em como conseguia enxergar através dela, pelos olhos e visão de mundo que ela lhe emprestava. Ela olhou para as mãos dele e viu que ele deslizava a moeda por entre os dedos. Teve uma idéia. Abriu suas duas mãos e colocou mais uma moeda na outra. Depois as arrumou de modo que elas ficavam no centro da palma de cada uma das mãos. Ele, silencioso, esperava uma explicação.
- Sabe o que você tem aí?
- Sim, duas moedas. O que você quer comprar agora? – disse brincando.
- Não são duas moedas.
- São sim.
- Não, quero dizer, não são apenas duas moedas. Aí você tem um espelho. Uma mão mostra exatamente o que se passa na outra!
A expressão dele converteu-se de um tédio curioso para a de uma criança que acabava de descobrir uma caixa de bombons escondida no armário da mãe. Ela sorriu e não pôde fazer nada quanto à lágrima que traçava um caminho na sua face. Foi aí que ela sentiu medo.
- Para onde você vai?
- Para a capital. Lá vou poder estudar. E você?
- Eu desço antes, na metade do caminho.
Neste momento se deram conta que iriam se separar. Sentiram-se um pouco abatidos. Sabiam que alguma coisa acontecera. Um pintor descuidado havia feito misturas que não se fazem numa aquarela. Agora se perguntavam que cor era aquela que nascia ali.
- Boa noite.
- Boa noite.
- Você se incomoda se eu fechar as cortinas?
- Preferiria que você as deixasse abertas.
- Por favor, é uma viagem longa e eu não consigo dormir com as luzes da cidade. Assim que a gente atingir a estrada, você abre de novo.
- Desculpe, mas eu gosto das cortinas abertas.
- Desculpe-me você - disse ela ficando brava, mas isso é uma atitude muito egoísta da sua parte. Eu estou pedindo que você deixe elas fechadas por apenas uma hora.
- Sinto muito - e ao falar ele tinha os olhos fixos na poltrona do outro lado do corredor do ônibus.
Confusa, a garota olhou para a outra poltrona e depois para os olhos dele.
- Com quem você está falando?
- Com quem parece? Com você, ué!
- Então por que não olha para mim?
- Desculpe, minha visão não me deixa encontrar seus olhos.
Sentiu-se terrível. Então ele era cego.
- Mil perdões.
O motorista deu a partida no ônibus e logo já estavam saindo da rodoviária. Permaneceram em silêncio por cinco minutos inteiros. Durante esse tempo, ele se afogou na profusão de cheiros que emanava dela. O mais forte era o do xampu. Imaginou os cabelos ainda molhados. Depois vinha um cheiro doce, mais suave. Era o perfume. A voz ainda ecoava em sua cabeça e mostrava um misto de força e fragilidade. Sorriu. A garota, que se sentia imensamente envergonhada e um pouco culpada, imaginava o porquê do querer a cortina aberta. Olhava-o com espanto e curiosidade quando viu o sorriso.
- Você está rindo de mim? - perguntou com indignada espontaneidade.
- Não. Estou imaginando a minha sorte de passar a viagem inteira ao lado de uma garota tão bonita.
- Escute aqui, eu sei que você é cego, mas nem por isso pode ficar me insultando e rindo de mim desse jeito.
- Eu fiz um elogio!
- Mas...
- Você me é bastante atraente. Pronto.
Sem saber o que responder, ficou calada. Refletiu um pouco sobre as últimas palavras trocadas e decidiu que tinha sido ofendida:
- Não dei a liberdade para você falar assim comigo.
- Desculpe, disse ele com um sorriso debochado.
- Tudo bem, respondeu já se sentindo ridícula.
Passaram mais quinze minutos em um silêncio aparentemente confortável. Ela não conseguia dormir. Olhava o rapaz ao seu lado e analisava-o. Estava intrigada. Ele tinha uma atitude de quem não devia nada a ninguém e, mais do que respeitar, sentia-se atraída por isso. Entretanto, também ficava um pouco inquieta. Não podia evitar um sentimento de pena pelo fato de ele ser cego. Será que era cego de nascença? Ou será que foi doença? Acidente...? Não sabia como quebrar o silêncio. Abriu uma barra de chocolate.
- Aceita um pouco de...
- Talvez um pedaço.
- Chocolate. Como você sabia?
- Não me olhe com essa cara de espanto. Chocolate tem um cheiro forte.
Quebrou um pedaço da barra e colocou na mão que se estendia em sua direção.
- Obrigado.
- De nada.
Passaram, então, a conversar sobre trivialidades. Sobre o tempo, sobre a viagem e sobre as últimas bandas de música que faziam sucesso. Mal perceberam que já estavam adquirindo uma certa intimidade. Saciavam aos poucos o desejo que tinham de se conhecer mais. Ele gostava de provocá-la, principalmente porque ela aprendeu a não se intimidar pela condição dele. Respondia à altura e entendia todas as brincadeiras. Lá pelas tantas, quando o assunto começou a rarear, ela lembrou-se da pergunta que queria fazer. E a fez com uma naturalidade que impressionou a si mesma. Com a mesma naturalidade ele respondeu.
- Por que você queria as cortinas abertas?
- Eu gosto de imaginar o caminho.
- Mas você nem iria saber se elas estavam abertas ou não.
- Eu não sabia até você me perguntar. Antes eu podia imaginar que estavam.
Ficou pensativa por um momento.
- Você pode imaginar o mundo do jeito que quiser e não tem uma realidade para atrapalhar.
- Verdade, só que de vez em quando a realidade chega e me pede para fechar as cortinas – disse ele sorrindo e depois, assumindo um tom sério, continuou – mas não se engane. Minha vida é limitada de um jeito que eu espero que você não vivencie. Nunca soube nem vou saber o que são as cores, por exemplo.
- As cores...
- Sim.
- As cores são como as formas. Elas também expressam o jeito que as coisas são – falou com ares de professora.
- Como assim?
- Por exemplo, o azul. É a cor do céu. O azul é infinito.
- Do céu? Mas como é o céu? - perguntou com uma voz de menino.
- O céu é infinito. É o teto do mundo - respondeu em tom de confidência.
- Então não acaba mais? Isso é grande, né? – disse sentindo-se um pouco bobo pela inocência das perguntas.
- Muito grande. Mas nem sempre o céu é azul.
- Ah não?
- Não. De vez em quando ele é cinza. O cinza é aquela cor que deixa você parado de um jeito ruim.
- Sem vontade de fazer as coisas?
- Isso mesmo.
- O mar também é azul, num é?
- É sim.
- Ele é grande?
- É.
- Do tamanho do céu?
- Dá a sensação de ser.
- Infinito...
- Isso. Deixa a gente parado de um jeito bom. Quieto como se estivesse satisfeito.
- Então esse é o azul. E o verde? É mesmo a cor da esperança?
- Não. Verde é o cheiro do eucalipto. É a cor da natureza, das plantas!
- Do cheiro de terra molhada?
- Não. Esse é marrom! A terra é marrom!
- Mas como é o marrom?
- O marrom é uma cor sem graça. Só fica legal perto do verde!
- E o amarelo?
- Amarelo é quando você sente a luz do sol esquentando o rosto. Ou mesmo uma lâmpada.
- Uma vela também?
- Não! A vela é vermelha!
- Mas vermelha?
- É, vermelho é o fogo. É quente.
- Mas o sol também é quente.
- O sol, a princípio, é amarelo. Mas se você ficar muito tempo debaixo dele, ele fica vermelho. O sol ilumina as coisas.
- Então o amarelo ilumina?
- Bem, o branco ilumina mais que o amarelo.
- Então o sol também pode ser branco?
- É...
- Acho que você não enxerga - disse com um tom gozador.
- É que o branco ilumina, mas não esquenta como o amarelo. Também dá uma tranqüilidade e uma calma. Os médicos só usam roupas brancas. Dizem que é a cor da paz. E é melhor do que o azul, porque é um infinito que está dentro de você. O branco é o contrário do preto, na verdade!
- Mas e o preto?
- O preto é o que você vê.
Silêncio. Ela logo percebeu a besteira:
- Desculpa.
- Não é culpa sua. Eu me dei conta de que nunca vou saber o que é iluminar - disse ele com uma voz de choro engasgado.
- Não chora! Vou tentar explicar! A gente só enxerga quando está tudo iluminado, entende?
Silêncio. Ela se xingava por dentro. Por que tinha usado a palavra enxergar? Pensou um pouco.
- Desculpa - disse ela colocando uma moeda em suas mãos.
- Você quer comprar minhas desculpas?
- Não!
- Então por que você me deu dinheiro?
- Exato. Como você sabe que é dinheiro?
- Porque você me deu uma moeda!
- Pois é. Você enxergou minha moeda.
Ele deu um sorriso tímido. A garota sentiu-se feliz ao perceber aquela felicidade contida e recém-descoberta. Ainda mais porque ela tinha sido parte causadora. Mal percebeu as palavras saindo descontroladas de sua boca:
- Seu sorriso tem gosto de chocolate.
Silêncio desconfortável. Ambas bochechas queimavam de constrangimento. Aparentemente se tornaram frios e distantes. Assim permaneceram por longos três minutos. Foi ele quem quebrou o gelo.
- E o rosa?
Percebendo a brecha, ela desandou a falar como se as palavras fossem apagar os últimos acontecimentos.
- Rosa é a cor do amor romântico. É a cor do vestido da menininha que sonha em se casar com seu príncipe encantado. Rosa é a cor dos contos de fadas. É feminino, mas isso não quer dizer que só serve para as mulheres. Os homens também usam. Eu diria até que tem que ser muito homem para usar rosa. E quando é, fica bonito. É lógico que não pode ser rosa choque. Rosa choque é cor que chama atenção. Não chega a ser um vermelho que também é a cor da paixão, é diferente. Tenta ser uma paixão misturada com amor. Rosa com vermelho. Mas não consegue, sabe? Acaba que rosa choque fica sendo um amor falso, corrompido. O rosa choque tenta ser amor vibrante, pulsando de paixão e não consegue. Assim mesmo pode ser bonito, por tentar com tanta força.
- Imagino que você não esteja usando rosa choque.
Ela não pôde conter uma risada. Sabia que tinha exagerado.
- Sua risada é rosa.
- São seus olhos – disse ela com uma voz carinhosa, mostrando que gostava do modo como ele a via.
Ambos sorriram de um jeito muito sem jeito. Ela pensava na maneira como ele conseguia enxergar através dela, no seu interior. Ele pensava em como conseguia enxergar através dela, pelos olhos e visão de mundo que ela lhe emprestava. Ela olhou para as mãos dele e viu que ele deslizava a moeda por entre os dedos. Teve uma idéia. Abriu suas duas mãos e colocou mais uma moeda na outra. Depois as arrumou de modo que elas ficavam no centro da palma de cada uma das mãos. Ele, silencioso, esperava uma explicação.
- Sabe o que você tem aí?
- Sim, duas moedas. O que você quer comprar agora? – disse brincando.
- Não são duas moedas.
- São sim.
- Não, quero dizer, não são apenas duas moedas. Aí você tem um espelho. Uma mão mostra exatamente o que se passa na outra!
A expressão dele converteu-se de um tédio curioso para a de uma criança que acabava de descobrir uma caixa de bombons escondida no armário da mãe. Ela sorriu e não pôde fazer nada quanto à lágrima que traçava um caminho na sua face. Foi aí que ela sentiu medo.
- Para onde você vai?
- Para a capital. Lá vou poder estudar. E você?
- Eu desço antes, na metade do caminho.
Neste momento se deram conta que iriam se separar. Sentiram-se um pouco abatidos. Sabiam que alguma coisa acontecera. Um pintor descuidado havia feito misturas que não se fazem numa aquarela. Agora se perguntavam que cor era aquela que nascia ali.

3 Comments:
um rosa, talvez...
vem cá, dizem que azul, é também um pouco triste, e não sei, mas acho que já vi em algum lugar que azul é também a cor da saudade...
pois é, tô azul,viu?!
onde vc tá, como assim, viaja e nem um tchauzinho ou uma oportunidade de eu deseja boa viagem...tsc-tsc pra vc!
bjin (meio brava,viu!?)
Olhaaaa!!! Já deu o tempo pra postar!? Ainda bem! As pessoas naum podiam fikar sem um conto maravilhoso desse! Nossa... amei ler ele d novo! Mto bom! Mto lindo msm! =)
I've seen this before...
Esse texto mexe comigo de uma forma estranha... :p
andreavb
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