Friday, December 03, 2004

Êta vida

Alguns sentimentos surgem não sei de onde e ficam não sei por quê. De repente, o mundo se mostra mais tranquilo e surge uma felicidade meio triste. Felicidade de sentir e de estar bem consigo mesmo. Tristeza de descobrir-se sozinho e preso em si mesmo. As pessoas ao redor parecem menos interessantes de se conviver do que de se imaginar. É o momento ideal para escrever e divagar. Desculpem, meus textos são mesmo medíocres, mas escrever é uma necessidade. O mundo parou e agora os acontecimentos vêm até mim...

Uma senhora de sessenta anos de idade todo dia senta-se no sofá do seu apartamento, liga a TV na novela que passa à tarde e começa seu bordado. Sim, TV, porque as casas com varandas que dão para as ruas sem asfalto já parecem surreais demais até para um texto que apenas se pretende medíocre. Vez e outra ela manda toalhas bordadas para os parentes, que aparecem aos domingos e feriados para visitar. Ela é fã do Sílvio Santos, moço tão simpático, e do bispo que toda manhã celebra a missa também pela TV. Ela repara que o neto está crescendo, a filha está brigando com o genro e a foto do falecido marido em cima do cômodo, para ser sincero, não desperta saudade. Todo dia ela borda. Passa o tempo. O tempo passa. Ela espera. Quando vai ser? Às vezes ela tem a impressão de que esperou a vida inteira. Jesus estará lá, mas às vezes ela sente medo quando ela vai dormir.

Primeiro ela quis. Assim, ela conseguiu. Depois ela pensou. Um bom marido, uma boa casa e bons filhos. A vida só podia ser boa dessa maneira. Mal ela sabia que dali a um bocado de anos o cheiro do marido estaria no limite do tolerável, a casa viraria uma prisão, e os filhos, uma fonte de ingratidão. Dedicada, sempre fora dedicada. Tanta dedicação fez ela abdicar de grande parte de si mesma e agora colocava tudo numa balança. Estava triste. Meio século se passara e agora questionava aquilo que quis em primeiro lugar. Pesou. Compreendeu. Os filhos e o marido não faziam parte da sua vida, eram vidas em si. Entristeceu-se e percebeu que estava numa realidade criada por ela mesma. Real, tocável e parcialmente mutável. Foi ser feliz do jeito que podia e sabia que isso não era resignação.

Os livros, o globo, os filósofos e os sentimentos. Grande, grande, grande, mundo imenso! Mas nunca imenso demais. Ela ia ser tão grande quanto, do tamanho do céu. Era especial de uma maneira que ninguém mais era. Cada canto, cada espaço, cada mente, cada coração. Ela ia e podia atingir tudo. Todos. Mas foi ficando difícil. Cada vez que ela tentava, um obstáculo se colocava. Cada vez que ela dava um passo, a Terra girava para o lado contrário. Então ela adiou. O grande ficou para depois. Um depois ao qual ela chegaria mais tarde. E agora o céu está longe. Ela armou o pára-quedas mas ela realmente precisava era de cordas.

1 Comments:

At 3:04 PM, October 31, 2006, Anonymous Anonymous said...

Nossa, esse é complexo... Mas o que é realmente grande? O que devemos fazer para que nossos nomes ecoem na eternidade? Nem sabemos o que é realmente importante para nós, como vamos saber oq é importante (ou grande) para o mundo, ou para todo mundo... E que mania é essa que temos de sermos eternamente insatisfeitos, descontentes com o reflexo do espelho? Será que o herói não chora todas as noites em seu túmulo por ter esgotado sua vida (talvez única vida!!!) sem ter a sua casa, sua esposa, seus filhos... "Mal ela sabia que dali a um bocado de anos o cheiro do marido estaria no limite do tolerável, a casa viraria uma prisão, e os filhos, uma fonte de ingratidão"... Talvez sim... talvez não... talvez...

 

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